Ficha do Proponente
Proponente
- Ivana Bentes (UFRJ)
Minicurrículo
- Professora titular da UFRJ, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. É autora de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X, 2015); Avatar: O Futuro do Cinema e a Ecologia das Imagens Digitais (Sulina, 2010); Ecos do Cinema: de Lumière ao digital (org.) (Ed.UFRJ, 2007); Glauber Rocha: cartas ao mundo (org.) (Cia das Letras, 1997). Em 2025, foi premiada com a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes pelo Festival de Cinema de Brasília.
Ficha do Trabalho
Título
- O “gore” como linguagem política, do cinema à IA: Estéticas do Poder e Formas de Resistência
Mesa
- Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções III
Resumo
- Como a cultura visual contemporânea desloca as formas de expressão do poder e, com isso, as próprias gramáticas da resistência, a partir de 5 filmes e imagens de IA que usam a ironia, o deboche, o grotesco, o fracasso e gore. Em O Agente Secreto, Pecadores, Bugonia, Foi Apenas um Acidente e Uma Batalha Atrás da Outra, a autoridade aparece como ridícula, obscena, vampiresca ou paranoica. O que as imagens nos ensinam sobre as novas formas de poder e resistência e o “gore” como linguagem política.
Resumo expandido
- A proposta analisa como a cultura visual contemporânea desloca as formas de expressão do poder e, com isso, as próprias gramáticas da resistência, a partir de cinco filmes. Se o poder moderno foi pensado a partir das figuras da soberania, da disciplina e do biopoder, como regimes de gestão dos corpos, das condutas e das populações (Foucault, 2010), o cinema contemporâneo o faz aparecer como obscenidade, caricatura, farsa, humilhação visual, monstruosidade, excesso e também fragmentado em micropoderes. O mando deixa de surgir apenas como instância majestática e centralizada e passa a operar como brutalidade performática, vulgaridade armada, espetáculo degradado e imagem viral. Esse cinema atua não apenas pela denúncia direta, mas pelo deboche, pela ironia, pelo fracasso, pelo grotesco e pelo gore.
O corpus reúne cinco filmes centrais de 2025-2026: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho; Foi apenas um acidente, de Jafar Panahi; Pecadores, de Ryan Coogler; Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson; e Bugonia, de Yorgos Lanthimos. Embora distintos esses filmes compartilham um mesmo gesto: recusam conferir dignidade formal ao poder. Em seu lugar, fazem emergir figuras ridículas, vampirescas, paranoicas, improvisadas ou moralmente falidas. Nessa chave, propõe-se a noção de escrotética do poder (Bentes, 2019), entendida como uma estética em que a autoridade aparece como boçal, obscena, grotesca e degradada. A formulação dialoga com o “capitalismo gore” de Sayak Valencia, que descreve regimes em que a violência extrema e a destruição dos corpos se integram à própria lógica de produção de valor (Valencia, 2010). Ao mesmo tempo, a noção se ancora em uma linhagem brasileira da avacalhação, da chanchada ao cinema marginal, em que a frase de Rogério Sganzerla, “quando a gente não pode fazer direito, a gente avacalha”, ajuda a pensar uma política da forma baseada no rebaixamento da autoridade e na profanação de sua linguagem.
Em O Agente Secreto, a ditadura brasileira é filmada como ecossistema de micropoderes: extorsão miúda, cadáveres nas ruas, desleixo e vulgaridade de policiais e arapongas. Em Foi apenas um acidente, gore desloca-se do espetáculo sangrento para a materialidade traumática do poder, inscrita nos corpos, na memória sensorial e na comunidade precária dos sobreviventes. Em Pecadores, o vampirismo colonial converte a extração racial e cultural em figura monstruosa, enquanto a música e a comunidade negra funcionam como contralinguagem e força de resistência. Em Uma Batalha Após a Outra, a resistência aparece como fracasso insurgente: exaustão, recaída, improviso e humor substituem a fantasia épica do militante íntegro. Em Bugonia, a opacidade do poder corporativo assume forma alienígena, conspiratória e delirante, revelando o quanto o presente é atravessado pela paranoia e pela hiperficção.
A proposta sustenta, assim, que o gore deve ser entendido menos como subgênero do horror e mais como linguagem política do excesso, da ferida e da materialidade da violência. Corpos mutilados, próteses, sangue, resíduos, ruídos, humilhação e monstruosidade devolvem à política aquilo que o discurso higienizado tende a apagar. O deboche e o grotesco não banalizam a política; radicalizam a crítica ao retirar do mando sua aura de grandeza e expor sua baixeza estrutural (Bentes, 2015).
Por fim, a proposta se estende ao campo da imagem artificial. Se o cinema já vinha elaborando o grotesco, o fracasso e o gore como formas críticas, a inteligência artificial acelera a fabricação, circulação e remixagem dessas imagens. Em diálogo com reflexões sobre memética, imagens gore e capitalismo mafioso (Bentes, 2024; Bentes, 2026), sustenta-se que o poder contemporâneo atua também imagética, memética e algoritmicamente. Quando a autoridade incorpora o meme, a caricatura e o grotesco à sua própria performance, torna-se necessário profanar sua linguagem, desmontar sua encenação e disputar as formas de sentir, perceber e imaginar o poder.
Bibliografia
- BENTES, Ivana. Mídia-multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.
BENTES, Ivana. Meme presidente: imagens gore, narrativas alternativas e memética na política. In: CHAGAS, Viktor (org.). Cultura dos memes no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2024.
BENTES, Ivana. O capitalismo mafioso de Trump ou Maduro veste Nike. Revista Cult, 6 jan. 2026. Disponível em https://revistacult.uol.com.br/home/o-capitalismo-mafioso-de-trump-ou-maduro-veste-nike
BENTES, Ivana. O excrementíssimo presidente e o carnaval ativista. Revista Cult, 8 mar. 2019. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/74499-2/?utm_source=chatgpt.com
BOWN, Alfie; BRISTOW, Dan (org.). Post-memes: seizing the memes of production. Brooklyn, NY: Punctum Books, 2019.
FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
VALENCIA, Sayak. Capitalismo gore. Madrid: Melusina, 2010.