Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Alberto Inácio da Silva (Sorbonne Université)

Minicurrículo

    Alberto Silva é doutor em História (UFPE) e em Estudos Lusófonos (Sorbonne Université). É professor universitário de história contemporânea brasileira na Sorbonne Université. Membro do Centre de recherche interdisciplinaire sur les mondes ibériques
    contemporains (CRIMIC). Especialista em cinema brasileiro, é autor de vários artigos sobre a cultura brasileira, questões de gênero, raça e classe. Trabalha também com o espaço no cinema e as relações
    entre cinema e história e as traças do passado.

Ficha do Trabalho

Título

    Imagens fantasmagóricas do passado no cinema brasileiro

Resumo

    Alguns filmes brasileiros dos últimos anos tratam de maneira diferente a relação com o passado. Seu tempo diegético é o presente no qual foram produzidos. Nessas produções cinematográficas, não há, particularmente, uma preocupação com a reconstituição formal e narrativa do passado. Para esta comunicação, propomos analisar alguns desses filmes cujas referências fantasmagóricas assombram as relações de classe, gênero e raça, questionando as conexões entre passado, presente e futuro.

Resumo expandido

    No cinema brasileiro da segunda metade dos anos 2000, diversos filmes se inserem na tradição do cinema histórico por meio de um importante trabalho de pesquisa sobre fontes do passado, bem como do diálogo com especialistas do período, com o objetivo de reconstituí-lo da forma mais fiel possível. No entanto, algumas obras abordam de maneira distinta a relação com o passado. Seu tempo diegético é o presente: elas não se preocupam particularmente com a reconstituição formal e narrativa do passado. Nesses filmes, as imagens do passado surgem no presente, infiltram-se nele — às vezes, segundo a expressão de Walter Benjamin, “no instante de um relâmpago” (BENJAMIN, 2013); essas imagens também podem aparecer como resquícios de um passado que se faz presente ao mesmo tempo em que remete ao que já foi.

    Esses filmes, que situam suas tramas no período em que foram produzidos, são atravessados por uma história composta por vestígios, por camadas do passado. Suas narrativas se desenrolam no presente, mas são constantemente permeadas por esse passado. Essa “presença do passado”, segundo Linda Hutcheon, não sugere uma busca por um sentido transcendente e atemporal, tampouco uma idealização, mas sim uma reavaliação e um diálogo com o passado à luz do presente. Não se trata, como diria Hutcheon, de um “retorno nostálgico”, mas de uma reavaliação crítica, de um diálogo irônico com o passado, problematizando, assim, o presente e questionando tanto a relação entre história e realidade quanto entre realidade e linguagem (HUTCHEON, 1991, p. 34).

    Para esta comunicação, propomos analisar alguns desses filmes, cujas referências a fantasmas assombram as relações sociais de classe, gênero e raça, em conexão com temáticas do passado brasileiro que continuam a perturbar a sociedade contemporânea. Acreditamos que esse interesse por temas centrais da história do Brasil está relacionado às transformações vividas pelo país nos últimos anos, marcadas por antagonismos entre, de um lado, debates promovidos por movimentos negros, intelectuais e artistas alinhados à esquerda brasileira e, de outro, discursos racistas, misóginos, homofóbicos e antiesquerdistas propagados por movimentos associados à extrema-direita.

    Em nossas reflexões, interessa-nos compreender de que maneira esses vestígios emergem como espectros do passado, à luz de uma interpretação do conceito derridiano que nos parece pertinente para a leitura desses filmes brasileiros que fazem retornar o passado colonial ao “desarticular o tempo” (DERRIDA, 1993) — um tempo pretérito que não cessa de retornar, como se observa em filmes como Açúcar (2017), de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, e também em O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho.

    O uso recorrente desses dispositivos, em referência ao passado colonial, nos filmes aqui analisados demonstra que os fantasmas podem constituir um instrumento importante para discutir esse passado, não apenas no Brasil, mas também em outros países ainda assombrados por essas questões. Nesse sentido, Inês Nascimento Rodrigues (NASCIMENTO RODRIGUES, 2018) afirma que, no contexto dos estudos pós-coloniais, a fantasmagoria é uma ferramenta social e conceitual relevante para revelar histórias e vozes silenciadas, questionando, assim, as relações entre passado, presente e futuro. Nos filmes analisados, essa forma de conceber a abertura do passado para pensar o presente e projetar possibilidades de futuro ressoa com as propostas de Walter Benjamin para a compreensão da história, afastando-se de uma perspectiva nostálgica e imutável. O filósofo vai ainda mais longe ao sugerir que essa abertura poderia, possivelmente, fazer justiça às vítimas do passado, conferindo-lhe uma dimensão reparadora de redenção, dentro de uma lógica benjaminiana.

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter, Sur le concept d’histoire, Paris, Éditions Payot & Rivages, 2013.

    BLANCO, María del Pilar; PEEREN, Esther (orgs.), The Spectralities Reader. Ghosts and Haunting in Contemporary Cultural Theory, New York/London: Bloomsbury, 2013.

    DA SILVA, Denise Ferreira, « À brasileira: racialidade e a escrita de um desejo destrutrivo »,Estudos Feministas, Florianópolis, vol. 14, n° 1, janvier-avril 2006, pp. 61-83.

    DERRIDA, Jacques, Spectres de Marx, Paris, Galilée, 1993.

    GORDON, Avery F, Ghostly Matters: Haunting and the Sociological Imagination, Minneapolis/London, University of Minnesota Press, 2008.

    HUTCHEON, Linda, Poética do Pós-modernismo, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1991.

    JOSEPH-VILAIN, Mélanie ; MISRAHI-BARAK, Judith, « Introduction », in Postcolonial Ghosts, Montpellier, Presses universitaires de la Méditerranée, 2009.

    LÖWY, Michael, Walter Benjamin : avertissement d’incendie – une lecture des Thèses « Sur le concept d’histoire », Paris, L’Éclat/Poche, n° 28, 2018