Ficha do Proponente
Proponente
- Taís Marques Monteiro (UFPE)
Minicurrículo
- Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Comunicação na UFPE, linha de narrativas e estéticas da imagem e do som (2023-2027), orientada por Eduardo Duarte. Fotógrafa, pesquisadora, professora, roteirista e editora. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará em 2015.2, com ênfase em Fotografia, Estudos da Imagem. Mestre em Fotografia e Audiovisual pelo PPGCOM da Universidade Federal do Ceará na turma de 2017.
Ficha do Trabalho
Título
- Entre som, imagem e dispositivo: práticas intermidiáticas da Vacilant
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- O trabalho analisa o projeto multilinguagem da Vacilant (Fortaleza/CE) como prática intermidiática entre música, cinema expandido e tecnologia. A partir de projeções ao vivo em superfícies translúcidas, o grupo articula imagem, som e performance em um sistema híbrido que envolve software, sincronização e improviso técnico. A pesquisa discute materialidade, gambiarra e circulação de imagens, entre apropriação e devolução.
Resumo expandido
- Investigamos, por dentro do tecido, o dispositivo audiovisual desenvolvido pela banda Vacilant, de Fortaleza (CE), a partir das noções de cinema expandido e transcinema, propondo uma reflexão sobre práticas intermidiáticas situadas entre música, imagem e tecnologia. O grupo constrói um ambiente imersivo a partir de um cubo de 9 m² de ferro, coberto por um tecido translúcido que funciona simultaneamente como superfície de projeção, arquitetura sensível e membrana de visibilidade. Sobre esse volume, são realizadas projeções ao vivo, criadas e sequencializadas no software Touchdesigner, que atravessam o espaço, produzindo uma imagem não fixa na tela, e que se distribui em camadas, entre corpos, sombras e superfícies.
A Vacilant trás em sua sonoridade tanto elementos eletrônicos (sintetizadores, samples e beats) quanto elementos analógicos e eletroacústicos (clarinete, guitarras e contrabaixo). Essa interseção possibilita um ambiente sonoro aberto e exuberante, onde a repetição maquínica e a improvisação sensível confluem. Os músicos são guiados pelas estruturas disparadas por meio de softwares e também se expressam muitas vezes de maneira espontânea, experimentando tortuosos caminhos harmônicos e texturas. As composições relacionadas ao som contemplam uma grande variedade de formas, passando pelo tonalismo, atonalismo, paisagens sonoras, improvisação livre e canção, sempre com o caráter experimental. Buscando caminhos métricos e rítmicos que causam a sensação de quebra e instabilidade, para confundir a temporalidade da experiência. Para isso está presente nas composições o uso constante de compassos compostos ou ausência de fórmula de compasso, assim como polirritmia e momentos sem pulso fixo, brincando com os deslocamentos de tempo forte e fraco. Algo similar acontece no trato com a imagem. O Touchdesigner funciona por meio de algorítmos generativos, rodando imagens e aplicando efeitos de forma autônoma. A operadora, lançando mão de knobs, botões e sliders e ouvindo a música ao vivo, improvisa sobre os parâmetros que respondem em tempo real à sensibilidade e criatividade dela.
Assim, o dispositivo opera como um sistema relacional que articula diferentes níveis técnicos e sensoriais. Há uma conexão em tempo real entre som e imagem, enquanto fones de ouvido compartilhados entre os membros adensam a comunicação direta entre músicos e responsável pelas projeções em uma escuta interna que orienta entradas, pausas e variações, criando uma sincronização instável entre cálculo e improviso. Nesse contexto, a tecnologia é um campo de experimentação marcado por adaptações, desvios e soluções precárias, uma prática que nomeamos como uma estética da gambiarra.
A análise dialoga com Youngblood (1970) e Parente (2008; 2013), ao compreender o cinema expandido como um deslocamento da imagem para o espaço e para o corpo, rompendo com a centralidade da tela e com a passividade do espectador. Ao mesmo tempo, aproxima-se da noção de transcinema (Maciel, 2009), ao considerar o trabalho como um “cinema situação”, no qual a imagem emerge de uma arquitetura relacional e processual – a depender do espaço e da visualidade em que o projeto se apresente. A materialidade da projeção, em consonância com Bruno (2016), evidencia a dimensão têxtil da imagem, que se torna superfície habitável e atravessável.
Aspecto central é o regime de imagens mobilizado. O “cinema ao vivo” da Vacilant opera por meio da montagem em tempo real entre os arquivos de artistas locais, materiais apropriados, incluindo imagens de circulação precária na internet, as chamadas “imagens pobres” (Steyerl, 2009), bem como trechos de filmes brasileiros em domínio público, memes e registros jornalísticos de acontecimentos políticos recentes. Esse gesto não se limita à apropriação, mas configura um processo de devolução das imagens (Didi-Huberman, 2015), em que o passado e o presente se tensionam e se ativam no instante performativo, em uma não-fronteira entre música, imagem e técnica.
Bibliografia
- Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Comunicação na UFPE, linha de narrativas e estéticas da imagem e do som (2023-2027), orientada por Eduardo Duarte. Fotógrafa, pesquisadora, professora, roteirista e editora. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará em 2015.2, com ênfase em Fotografia, Estudos da Imagem. Mestre em Fotografia e Audiovisual pelo PPGCOM da Universidade Federal do Ceará na turma de 2017. Cria imagem em diversos formatos e processos alternativos de fotografia e em vídeo – em cinema expandido. Foi editora da revista NERVA e roteirista do longa-metragem Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha (2026 – Berlinare). Professora substituta de realização em audiovisual no curso de Cinema da UFC, entre 2020 e 2021.