Ficha do Proponente
Proponente
- Eduardo Tulio Baggio (Unespar)
Minicurrículo
- Eduardo Baggio é professor na Unespar. É pós-doutor pela UFC e doutor pela PUC-SP. É integrante do GP Cinecriare, da rede Teoria de Cineastas e conselheiro do MIS-PR. Tem textos publicados em diversos livros e revistas, além de ser um dos organizadores dos livros “Teoria dos Cineastas” Vol. 1, Vol. 2 e Vol. 3, “Cineastas do Paraná: Primeiros Tempos” e “Filmmakers on Film: Global Perspectives”. É autor do livro “Documentário: filmes para salas de cinema com janelas” e atua ainda como cineasta.
Coautor
- Marcos Alex Rodrigues do Andrade (Unespar)
Ficha do Trabalho
Título
- Reflexões de cineastas e teóricos a partir de terminologias e conceitos: o caso de montagem e edição
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Partindo das bases da Teoria de Cineastas (BAGGIO; GRAÇA & PENAFRIA, 2015), a comunicação de pesquisa pretende refletir sobre a problemática conceitual entre os termos montagem e edição, tomados a partir de perspectivas de teóricas(os) e de cineastas. Para isso, a comunicação irá abordar as origens etimológicas dos termos, a chegada dos mesmos ao campo do cinema e do audiovisual, a utilização deles no cinema brasileiro em fases iniciais, bem como repercussões contemporâneas em nosso cinema.
Resumo expandido
- Terminologias e conceitos são partes essenciais de debates teóricos e, muitas vezes, partem de pesquisas oriundas do meio acadêmico. Em outros casos partem de reflexões de cineastas relacionadas à práxis do cinema e do audiovisual. Contudo, também existem as formulações e debates teórico-conceituais que permeiam ambos os territórios e, por sua natureza de trânsito entre esses espaços, interessam particularmente para a Teoria de Cineastas (BAGGIO; GRAÇA & PENAFRIA, 2015). Seguindo essa premissa, a comunicação de pesquisa pretende refletir sobre uma das problemáticas terminológico-conceituais mais evidentes no cotidiano do fazer fílmico e nos debates teóricos no campo cinematográfico, a querela entre os termos-conceitos montagem e edição.
O termo montagem (do francês: montage) tem suas raízes no verbo francês monter, que por sua vez teria origem no latim vulgar montare, e significa “montar” ou mais especificamente “unir diferentes partes de um mecanismo” (MONTAGE, 2025). Essa etimologia corrobora a ideia intrínseca de uma construção a partir de elementos isolados. No início do século XX, com o desenvolvimento do cinema, o termo foi adotado para descrever a seleção e arranjo de planos cinematográficos distintos para formar uma unidade discursiva.
O termo edição (do inglês: editing) tem sua raiz no latim, edere (produzir, dar à luz, publicar), e foi através da variação em francês, éditeur (EDIT, 2025), que a palavra entrou para a língua inglesa. No cinema estadunidense, inicialmente a função era descrita por termos operacionais como cutter (cortador/a), posteriormente houve a transição para o termo film editor (editor/a de cinema) (HIGASHI, 1994), à medida que a compreensão a respeito da função passou da simples junção de planos para a construção de uma narrativa coesa e ritmada.
No início do cinema no Brasil não havia um termo dominante para a pessoa responsável pela montagem/edição de filmes, o que se refletiu na variação dos créditos nas obras da época. Segundo Arthur Autran, de uma certa forma as problemáticas que envolvem a história da montagem/edição no Brasil são uma “metonímia das próprias dificuldades gerais do cinema brasileiro” (2006). Por exemplo, em Ganga Bruta (1933), o crédito com o termo “Montagem” pertence ao próprio diretor, Humberto Mauro. Três anos depois, um termo distinto surgiu em O Grito da Mocidade (1936), o crédito de “Edição” foi para Adam Jacko. Ainda em 1936, a variação terminológica se aprofundou com o curioso crédito de “Montagem e Decoração” em Alô, Alô, Carnaval. A flutuação terminológica continuou nas décadas seguintes, como em Coração Materno (1951), com crédito híbrido de “Corte e Montagem” para Juanita Jacko e em O Cangaceiro (1953), que apresenta dois créditos distintos: “Edição” para Oswald Hafenrichter e “Montagem” para José Baldacconi e Lúcio Braun. Essa ausência de convenção no nosso cinema tem vinculações com diferentes origens linguístico-nacionais e serão abordadas na comunicação.
Seguindo essa trilha linguística, a comunicação também abordará o percurso dos termos-conceitos em diferentes publicações no Brasil. O termo montagem, em sua matriz europeia, teve muita implicação pela predominância de traduções de artigos e livros de autores europeus em nosso país durante várias décadas, o que favoreceu a percepção do conceito de montagem como sendo mais intelectual e artístico. Já o termo edição foi inicialmente difundido no Brasil via manuais de operação de equipamentos eletrônicos, o que favoreceu a percepção do conceito de edição como sendo menos intelectual e mais operacional. O termo edição acabou por tomar mais corpo conceitual no Brasil a partir da década de 1990, via traduções de autores anglo-saxões.
Por fim, a última parte da comunicação será dedicada a observar as reverberações contemporâneas dessas variações terminológicas. O objetivo é evidenciar como a instabilidade conceitual entre os termos se desdobra atualmente, tanto na difusão crítica quanto nos relatos de práxis.
Bibliografia
- AUTRAN, Arthur. A montagem no cinema brasileiro (1919-1989). Portal Brasileiro de Cinema, São Paulo, 2006. Disponível em: https://www.portalbrasileirodecinema.com.br/montagem/ensaios/04_01.php. Acesso em: 29 jul. 2025.
BAGGIO, Eduardo T.; GRAÇA, André R.; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. Revista Científica / FAP, v. 12 (jan./jul.), pp.: 19-32 – Curitiba: FAP, 2015.
EDIT (v.). In: HARPER, Douglas. Online Etymology Dictionary. [S. l.]: Douglas Harper, [2025]. Disponível em: https://www.etymonline.com/word/edit. Acesso em: 16 jul. 2025.
HIGASHI, Sumiko. Cecil B. De Mille and American Culture: The Silent Era. Berkeley: University of California Press, 1994.
MONTAGE. In: ACADÉMIE FRANÇAISE. Dictionnaire de l’Académie française. 9. ed. Paris, [2025]. Disponível em: https://www.dictionnaire-academie.fr/article/A9M2732. Acesso em: 15 jul. 2025.