Ficha do Proponente
Proponente
- Angela Freire Prysthon (UFPE)
Minicurrículo
- Angela Prysthon é professora titular da UFPE. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade de Southampton e na Universidad Nacional de Córdoba. Doutora pela Universidade de Nottingham, é autora de Cosmopolitismos periféricos (2002), Utopias da frivolidade (2014), Retratos das margens (2022) e Recortes do mundo (2023).
Ficha do Trabalho
Título
- A casa e o mundo. Espaços de confinamento e paisagens domésticas
Seminário
- Cinema e Espaço
Resumo
- Este artigo investiga a relação entre espaços domésticos, confinamento e formas de experiência sensível no cinema moderno e contemporâneo. A partir das reflexões de Coccia e Vidler, entre outros, propõe-se compreender o espaço doméstico como uma configuração sensorial e política. O texto analisa imagens de interiores, naturezas-mortas, gestos cotidianos e corpos em clausura, articulando uma estética da intimidade, do tédio e da melancolia que transforma os espaços fechados em paisagens.
Resumo expandido
- Inserido no campo dos estudos sobre cinema e espaço, este artigo propõe uma reflexão sobre os espaços interiores como instâncias privilegiadas de elaboração estética e política no cinema moderno e contemporâneo, constituindo o que poderíamos chamar de “paisagens domésticas”.
O ponto de partida teórico articula as contribuições de Emanuele Coccia, especialmente em Filosofia da casa, onde o espaço doméstico é concebido como um ecossistema de coexistências entre corpos, objetos e atmosferas, com a noção de “estranho familiar” formulada por Anthony Vidler, que permite pensar o interior como uma espacialidade ambivalente, atravessada por tensões entre intimidade e inquietação. Essa base é tensionada pelas formulações de Henri Lefebvre, que compreende o espaço como produção social, e de Gaston Bachelard, que enfatiza sua dimensão imaginativa e fenomenológica. No campo dos estudos de cinema, o argumento se apoia ainda nas contribuições de Giuliana Bruno, que pensa o espaço fílmico como percurso sensorial e afetivo; de Laura Mulvey, cuja reflexão sobre duração, repetição e atenção permite compreender a experiência temporal dos interiores; e de Vivian Sobchack, que fundamenta uma abordagem encarnada da percepção cinematográfica. Esse conjunto teórico sustenta a análise dos espaços interiores como construções materiais e sensíveis, produzidas na articulação entre imagem, corpo e ambiente.
O artigo se organiza em três eixos. O primeiro examina os interiores domésticos como paisagens sensíveis. Em filmes de Ozu, Satyajit Ray, Varda e Martel, por exemplo, observa-se um investimento nas materialidades do cotidiano: objetos, texturas, luzes e gestos mínimos que configuram o espaço doméstico como uma paisagem interior. Esses filmes constroem uma estética da intimidade baseada na duração, na repetição e na atenção ao banal, transformando o cotidiano em campo de experimentação sensorial.
O segundo eixo aborda o confinamento como forma espacial e condição existencial. Algumas obras do cinema moderno (Herzog; Godard, p.ex.), o espaço fechado aparece como dispositivo de suspensão, onde o tempo se dilata e a percepção se reconfigura. Ao mesmo tempo, filmes contemporâneos (Uchoa e Dumans; Alonso, Martel, p.ex.) tensionam o confinamento a partir de suas dimensões sociais e políticas, revelando como a clausura pode ser atravessada por desigualdades, precariedades e formas de exclusão.
O terceiro eixo investiga a presença do corpo em movimento (especialmente a dança) como estratégia de reconfiguração dos espaços interiores. Em filmes de períodos distintos (Denis, Garrel, Miguel Gomes) a dança emerge como gesto de abertura no interior do confinamento, instaurando novas relações entre corpo e espaço. O movimento rompe com a lógica da clausura e instaura uma espacialidade ampliada, ambígua e estranha.
Ao enfatizar imagens de tédio, melancolia, repetição e intimidade, o texto examina o cotidiano como campo estético e propõe expandir e consolidar a noção de paisagem doméstica a partir da análise de um corpus fílmico intencionalmente amplo e diversificado. Esse conjunto de filmes funciona como base comparativa para a construção de uma reflexão teórica sobre os espaços interiores no cinema, permitindo identificar recorrências formais, variações históricas e diferenças culturais na maneira como o espaço doméstico é figurado. A casa é, assim, tratada como forma espacial estruturante, cuja organização material (objetos, enquadramentos, ritmos e gestos) configura modos específicos de percepção e experiência.
Bibliografia
- BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
BRUNO, Giuliana. Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture, and Film. New York: Verso, 2002.
COCCIA, Emanuele. Filosofia da casa: o espaço doméstico e a felicidade. Rio de Janeiro: Dantes, 2024.
DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
FOUCAULT, Michel. “Outros espaços” (heterotopias). In: Ditos e escritos III. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell, 1991.
MASSEY, Doreen. For Space. London: Sage, 2005.
MULVEY, Laura. Death 24x a Second: Stillness and the Moving Image. London: Reaktion Books, 2006.
SOBCHACK, Vivian. Carnal Thoughts: Embodiment and Moving Image Culture. Berkeley: University of California Press, 2004.
VIDLER, Anthony. The Architectural Uncanny: Essays in the Modern Unhomely. Cambridge: MIT Press, 1992.