Ficha do Proponente
Proponente
- Luccas Pinheiro Lopes (UERJ)
Minicurrículo
- Doutorando pelo programa de pós-graduação da UERJ. Bolsista CAPES. Membro do grupo de pesquisa “POPMID: Reflexões sobre Gêneros e Tendências em Produções Midiáticas” coordenado pelo prof. Dr. Yuri Garcia. Graduado no curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá (UNESA), Campus Tom Jobim – Barra. Realiza pesquisas sobre representatividade negra e questões raciais dentro de filmes de horror.
Ficha do Trabalho
Título
- Telas de Pavor, Corpos em Trauma: Articulações entre a filosofia de Noël Carroll e a zona de não-ser
Resumo
- Este trabalho se origina de minha dissertação, onde foram analisados filmes de horror contemporâneos com protagonismo negro: Corra! (2017), Nós (2019), A Lenda de Candyman (2021) e Não! Não Olhe! (2022). O presente artigo tem como proposta debater a filosofia do horror de Noel Carroll (1999) com a fenomenologia racial de Frantz Fanon (2020). Observando quando o cinema de horror irrompe as telas para a realidade a partir de olhares racializados.
Resumo expandido
- A articulação entre a filosofia analítica do horror de Noël Carroll (1999) e a fenomenologia da experiência racial de Frantz Fanon (2020) permite estabelecer uma ponte teórica fundamental para a compreensão do cinema de horror negro contemporâneo. Ao confrontar essas duas perspectivas, observa-se uma inversão necessária na premissa fundamental do gênero: para o sujeito racializado, o horror deixa de ser uma “violação da natureza” – como postula Carroll (1999) – para tornar-se a descrição precisa de uma “natureza” compulsoriamente imposta pelas estruturas sociais de poder.
Nesse sentido, a contestação da universalidade da teoria do pensamento de Carroll (1999) revela que o paradoxo do horror assume contornos ontológicos distintos na experiência da negritude. Enquanto Carroll argumenta que o prazer estético do gênero advém da curiosidade cognitiva por um monstro que transgride categorias culturais de normalidade, a leitura fanoniana demonstra que essa transgressão é, na verdade, uma vivência permanente.
O monstro, definido por Carroll como uma entidade “ameaçadora e impura”, encontra um paralelo perturbador na forma como o sujeito negro é fixado pelo olhar branco. Como descreve Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas (2020), o corpo negro é historicamente associado ao pecado, ao mal e aos maus instintos, sendo transformado em um objeto de fobia. A “repulsa” que Carroll identifica como o preço pago pelo fascínio ficcional manifesta-se, em Fanon, como uma “náusea” real e visceral diante da desumanização.
Nota-se que a catarse coletiva de Fanon (2020) consiste em diferentes atividades que visam liberar energias acumuladas sob a forma de agressividade. Uma dessas formas são as histórias de Tarzan e Mickey, no exemplo do texto, que são escritas por pessoas brancas para crianças brancas. Assim, podemos pensar o horror ficcional de forma que opere como um mecanismo de externalização da náusea do colonizado. Esse processo transmuta a patologia imposta pela “morte social” e pela fixação do olhar branco em uma potente acusação visual – quando a imagem deixa de apenas contar uma história e passa a denunciar uma estrutura. Essa aniquilação subjetiva encontra sua materialização estética mais contundente na convergência entre o conceito de “Lugar Submerso” (The Sunken Place), presente na obra de Jordan Peele, e a “zona de não-ser” teórica de Fanon (2020). Esta zona é descrita como uma região estéril onde o negro é despojado de sua humanidade, um espaço de anulação onde o trauma da fixação – ilustrado pelo grito fanoniano “Olha o preto, estou com medo!” (2020, p. 125) – opera a transição violenta do sujeito em objeto. O racismo, portanto, atua sob a mesma lógica do monstro de Carroll: uma força que provoca uma paralisia tanto cognitiva quanto física, aprisionando a subjetividade em uma imagem estática e aterrorizante construída pela branquitude.
Consequentemente, o horror negro contemporâneo ressignifica o que Carroll (1999) denomina “enredo de descoberta complexo” (complex discovery plot). Se, na estrutura clássica, o drama reside em provar a existência de uma ameaça a autoridades céticas, na experiência racializada, esse enredo serve para validar uma paranoia que é sistematicamente desacreditada pela hegemonia liberal. Uma vez compreendida a dimensão subjetiva desse medo – que transita entre a paralisia do trauma e a vigilância quotidiana na vida do sujeito racializado –, torna-se imperativo investigar como tais abstrações psicológicas são traduzidas em escolhas técnicas deliberadas na tela de cinema.
O horror, ao literalizar a violência sociogênica do racismo, permite que o sujeito negro deixe de ser o objeto do medo – o mon
Bibliografia
- CARROLL, Noel. Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração. São Paulo: Papirus, 1999.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020.