Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    ELOA SILVA ARAUJO (UFBA)

Minicurrículo

    Graduanda associada ao Laboratório de Análise Filmica(LAF), grupo de pesquisa do Programa de Pós-Gradução em Comunicação e Culturas Contemporâneas (PósCom) da Universidade Federal da Bahia e pesquisadora no Programa de Iniciação Científica (PIBIC) com bolsa CNPq. Tem experiência na área de Comunicação e Artes, com ênfase em fotografia, audiovisual, escrita criativa e gestão de midias.

Coautor

    Ana Clara Nascimento Santos (UFBA)

Ficha do Trabalho

Título

    Memórias de regresso: arquivos, autobiografia e história em documentários de migração

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Materiais de arquivo são uma fonte preciosa para a produção de documentários, especialmente ao abordar questões relacionadas à trajetória de imigrantes. Partindo da noção de “efeito arquivo” (Baron, 2020), essa pesquisa busca analisar como os arquivos são articulados em documentários de migração e se tornam materiais com potencial de ressignificar acontecimentos históricos relacionados ao deslocamento de pessoas provenientes de regiões da América Latina e da África.

Resumo expandido

    Materiais de arquivo, imagens em movimento, sons, fotografias, são uma fonte preciosa para a produção de documentários, especialmente ao abordar questões relacionadas à trajetória de imigrantes, pois os arquivos têm o potencial de materializar memórias e, ao estabelecerem relações entre o passado e o presente, permitem uma compreensão mais profunda das diferentes variáveis que afetam processos de deslocamento das pessoas ao redor do mundo.

    Tradicionalmente, as imagens de arquivo no documentário costumam ser relacionadas à sua capacidade de transmitir uma impressão de autenticidade (Bruzzi, 2000), no entanto, por meio da manipulação (reorganização e remontagem na narrativa do documentário) o sentido “original” de tais registros pode ser deslocado criando significados inicialmente não previstos na época e no contexto em que esses arquivos foram produzidos. Imagens de arquivo de família, deixam de ser apenas registros de intimidade e se tornam materiais com potencial histórico de contribuir para situar histórias individuais num espectro mais amplo do curso da História. É nessa perspectiva que essa comunicação tem o objetivo de analisar a forma como os arquivos são utilizados em documentários de migração, a saber: “Decile a Mario que no vuelva” (Mario Handler, Uruguai, 2007) e “No simple way home” (Akuol de Mabior, Quênia/Sudão do Sul/África do Sul, 2022). Em comum, os dois documentários de migração são de natureza autobiográfica e foram realizados por cineastas cuja trajetória está relacionada ao contexto geopolítico de países do Sul Global (Uruguai, na América Latina e Sudão do Sul, África).

    Logo, esses filmes de regresso (Cesar, 2012, p. 189), resultantes da experiência da imigração ou retorno ao “país de origem”, mais do que “a ocasião para representar ou performar um processo de (re)posicionamento identitário” em filmes ficcionais, os processos de subjetivação podem ser observados na forma como arquivos são apresentados em documentários de migração. Arquivos que conduzem a um regresso no espaço, visto que seus realizadores estão numa trajetória de retorno a sua terra natal, mas também um regresso no tempo, pois o contato com esses arquivos conduzem seus realizadores – consequentemente os espectadores que acompanham essa jornada autobiográfica – a revisitar a fatos históricos traumáticos do passado e os impactos de sua memória no tempo presente.

    No primeiro, o cineasta uruguaio Mario Handler, após um período de exílio na Venezuela, volta a seu país e percebe que, mesmo depois de tantos anos, os resquícios da ditadura (1973-1985) ainda permanecem nos meios de comunicação, na opinião pública e na memória das pessoas. Ao retornar a alguns desses arquivos, o cineasta permite uma reflexão compartilhada sobre as contradições do regime. No segundo documentário, a cineasta sul-sudanesa, Akuol de Mabior, combina autobiografia com o relato da libertação do Sudão do Sul, após longos anos de guerra civil no Sudão (1983-2005). Ao compartilhar questionamentos pessoais – como chamar um país de “lar” quando se cresceu no exílio por conta dos conflitos? – a cineasta apresenta a própria história, nascida no exílio e filha de uma das famílias fundadoras da nação, como fio condutor para refletir sobre sua identidade e a necessidade de construir um futuro mesmo em meio às incertezas.

    Em concordância com Piedras e Barrenha (2014, p. 11), esse processo de subjetivação no documentário contemporâneo “implica uma transformação profunda no estatuto epistêmico do documentário pelo modo expressivo em que modifica seus pactos comunicativos com o espectador, suas formas de se aproximar ao real e seus modos de representar o outro”. Logo, partindo da noção de “efeito arquivo” (Baron, 2020), essa pesquisa busca analisar como os arquivos são articulados em documentários de migração e se tornam materiais com potencial de ressignificar acontecimentos históricos relacionados ao deslocamento de pessoas provenientes de regiões da América Latina e da África.

Bibliografia

    BARON, Jaimie. O efeito arquivo: imagens de arquivo como uma experiência de recepção. Lúmina, [S. l.], v. 14, n. 2, p. 134-157, 2020.

    BRUZZI, Stella. New Documentary: a critical introduction. London: Routledge, 2000.

    CÉSAR, Amaranta. Filmes de regresso: o cinema africano e o desafio das fronteiras. In: BAMBA, Mahomed; MELEIRO, Alessandra (orgs.). Filmes da África e da diáspora: objetos de discurso. Salvador: Edufba, 2012.

    SERAFIM, José Francisco. et al. Migration documentaries: reclaiming memories for lives in motion. Avanca Cinema Journal, v. 16, p. 16-23, 2025.

    PIEDRAS, Pablo; BARRENHA, Natalia. Silêncios históricos e pessoais. In: Silêncios históricos e pessoais: memória e subjetividade no documentário latino-americano contemporâneo [Catálogo]. São Paulo: Caixa Cultural São Paulo, 2014.