Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Isabelle do Pilar Mendes (UFRGS)

Minicurrículo

    Isabelle Mendes é Relações Públicas formada com Láurea na UFRGS e mestranda do PPGCOM (UFRGS). Integra os Grupos de Pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação e Agenciamentos da Imagem (UFRGS), o Laboratório de Experiências Metodológicas na Comunicação (UFSM/CNPq) e os projetos O pensamento político em imagens de ocupação urbana no Brasil (UFRGS) e Ser mulher e pesquisadora no campo da comunicação: entre papéis sociais e desigualdades na esfera do trabalho e da produtividade acadêmica (UFSM).

Ficha do Trabalho

Título

    Teoria de Cineastas, pensamentos situados e outras perspectivas possíveis

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    A pesquisa conecta ciência e cinema através da análise de imagens das cineastas Clarissa Campolina em Adormecidos (2011), Ana Pi, no filme Noirblue (2018), e Ana Vaz, em É noite na América (2022). Como bases éticas, teóricas e metodológicas pensamos com os feminismos localizados, o conceito de realismo de Maya Deren, precursora do cinema experimental, e com a Teoria de Cineastas. Nosso objetivo é vermos as obras, frutos de movimentos críticos e criativos, em suas singularidades.

Resumo expandido

    A presente exposição tem como objetivo conectar imagem e ciência através do pensamento sobre filmes feitos por cineastas brasileiras. Para tanto, começamos trazendo bases éticas, teóricas e metodológicas feministas com a síntese de uma elaboração que contempla pensadoras da objetividade científica não universalista e teóricas dos pensamentos situados e cosmopolíticos.

    Nossas escolhas de pesquisa foram feitas pois pensamos como Stengers (2017), para quem não é possível que situemos humanos e mais que humanos que não somos nós, mas é possível que testemunhemos nossas perspectivas e o conhecimento que elaboramos – o que vemos e como aprendemos a ver.

    Para pensarmos especificamente as imagens, trabalhamos com a teoria de cineastas ao analisarmos as relações entre filmes e conceitos expressos verbal ou imageticamente pelas cineastas. Nossa outra base teórica da linguagem audiovisual é a teórica e cineasta Maya Deren – que também pensou na relação entre ciência e imagem -, com sua obra experimental.

    Para Deren (1946) a realidade cinematográfica é fruto do agenciamento de um ser em sua experiência com o aparato técnico que utiliza, constituído por suas limitações mecânicas e refinada ótica, e os elementos que realoca nas imagens de acordo com o que visa expressar.

    Com esse conceito, vemos que para Deren, como Haraway (2009), não existem realidades preexistentes, vistas e apresentadas pela “Visão de Deus”, que tudo vê, sobre tudo diz, mas nada diz sobre si. E, que ao experimentar com a linguagem cinematográfica em diferentes camadas, a cineasta pretendeu que suas imagens diferissem das do cinema da hollywood clássica dos anos 1940 e 1950 (Deren, 1946), feito simultaneamente ao seu com montagens assépticas, personagens padronizados e inícios, meios e fins linearizados.

    Nossas escolhas de pesquisa foram feitas pois pensamos como Stengers (2017), para quem não é possível que situemos humanos e mais que humanos que não somos nós, mas é possível que testemunhemos nossas perspectivas e o conhecimento que elaboramos – o que vemos e como aprendemos a ver.

    A nossa problemática é que indivíduos que se afirmam enquanto mulheres ao longo da História, com “h” maiúsculo, foram generalizadamente vistas enquanto objetos, e não enquanto produtoras de semióticas, sendo alocadas à serviço do prazer do olhar (Mulvey, 1983), e que as tecnologias da visão, incluso o próprio olho, têm sido utilizadas como ferramentas vinculadas “ao militarismo, ao capitalismo, ao colonialismo e à supremacia masculina – de distanciar o sujeito cognoscente de todos e de tudo no interesse do poder desmesurado.” (Haraway, 2023, p. 389).

    Por isso, analisamos os filmes Adormecidos (2011), de Clarissa Campolina, no qual durante à noite imagens de outdoors de propaganda com rostos são colocados em um diálogo de ruídos com as luzes de uma cidade, para pensarmos sobre a condição de indivíduos no sistema capitalista; Noirblue (2018), de Ana Pi, no qual a mesma expressa o apagamento de corpos pretos ao colocar o seu corpo em cena coberto por um véu azul, para pensarmos sobre inclusão racial, e É Noite na América (2022), de Ana Vaz, no ela qual trata de como construções urbanas como estradas interferem, violentado, a vida de um tamanduá, uma jiboia, um lobo-guará, uma coruja e uma capivara em Brasília, para pensarmos sobre olhares mais que humanos.

    Os filmes analisados flertam com a experimentalidade ao deslocarem a linguagem audiovisual, e com suas estéticas e narratividades pensamos sobre como podemos ver imagens em suas singularidades, para que pensemos cinemas que expandam possibilidades da maneira que Clarissa Campolina afirma realizar sua prática cinematográfica, como “uma nova possibilidade de vida, de estética ou de narrativa” (As paisagens de Clarissa, 2007), pois, ao disputarmos quais e como histórias são contadas, ampliamos os espaços discursivos e o leque de existências possíveis.

Bibliografia

    AS paisagens de Clarissa. O Tempo, Belo Horizonte, 2007. Disponível em: https://shorturl.at/uilQI. Acesso em: 15 abr. 2026.

    DEREN, Maya. Un anagrama de ideiais sobre arte, forma y cine (1946). Em: El universo Dereniano: Textos fundamentales de la cineasta Maya Deren. Tradução de Carolina Martínez López. Cuenca: Ediciones de La Universidad de Castilla – La Mancha, 2015. p. 72-127.

    HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, SP, n. 5, p. 7–41, 2009.

    ________________. A reinvenção da natureza: símios, ciborgues e mulheres. Tradução: Rodrigo Tadeu Gonçalves. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2023.

    MULVEY, Laura. Prazer Visual e cinema narrativo. Em: XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal; Embrafilme, 1983. p. 437-453.

    STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Caderno de Leituras. n. 62. p. 1-15. Belo Horizonte: Chão de Feira, mai. 20