Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Leandro Afonso Guimarães (UFBA)

Minicurrículo

    Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Realizou doutorado sanduíche na Universidad de Buenos Aires (UBA) e foi professor substituto da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), onde também desempenhou a função de coordenador adjunto do Cineclube Cinelatino, no qual segue como colaborador. Diretor de, entre outros curtas, Argentina, Me Desculpe (2015), Toda Sombra Parece Viva (2019) e Ontem Lembrei de Minha Mãe (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    O ‘escaninho’ latino-americano: premiações de filme e música em Cannes no Século XXI

Mesa

    Circulação de filmes latino-americanos e africanos no Festival Cannes

Resumo

    A proposta analisa a presença da América Latina premiada no Festival de Cannes no século XXI. Através de um levantamento quantitativo e qualitativo, questiona-se tanto o parco reconhecimento como o “escaninho” reservado, pela curadoria e júri do evento, à música e ao cinema latino-americanos. O objetivo é discutir lógicas de poder cinematográficas e uma transnacionalidade que podem moldar a produção frente ao horizonte de expectativas do festival.

Resumo expandido

    A América Latina, até hoje, teve apenas um filme que levou o prêmio principal daquele que, para muitos, é o maior festival de cinema do mundo: Cannes. Pode-se falar em Orfeu Negro (Marcel Camus, 1959) interpretado em português e baseado na peça de Vinicius de Moraes, mas indiscutível mesmo é o brasileiro O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962). Em 78 edições, veio uma Palma de Ouro. Estados Unidos, França, Itália e Japão – bem como nações europeias cujas configurações geopolíticas já se transformaram, como Iugoslávia e Alemanha – detêm, individualmente, mais Palmas de Ouro do que toda a América Latina reunida.

    Um outro imaginário potente do nosso espaço geopolítico diz respeito à música. Embora ela não seja historicamente prestigiada com reconhecimentos contínuos, seus números mais discretos são potencialmente elucidativos. Houve diferentes premiações até 1952, uma isolada em 1977, e somente em 2012 voltou-se a outorgar, de forma continuada, uma premiação para o Cannes Soundtrack Awards, criado em 2010 por Vincent Doerr (Cannes, 2024). Exceção feita a 1949, quando Antonio Díaz Conde foi premiado com o mexicano Pueblerina, dirigido por Emilio Fernández, não há reconhecimento a nomes latino-americanos no lugar da música.

    Esses pontos de partida levam a muitas possibilidades de questionamentos. Essa pesquisa se propõe a fazer um levantamento quantitativo e, a partir dele, trazer impressões qualitativas. O primeiro ponto é: quais filmes latino-americanos foram premiados até hoje – incluindo também mostras paralelas e honrarias secundárias – no Festival de Cannes no Século XXI (período no qual dezenas de países latino-americanos já se consolidaram como produtores de obras de indiscutíveis méritos cinematográficos)?

    Os pontos subsequentes dialogam entre si. O que esses reconhecimentos e essas sessões escolhidas tendem a nos dizer sobre os lugares ocupados dentro do próprio festival? O que esses reconhecimentos internacionais destacam, dentro de lógicas de produção e recepção transnacional (Bamba, 2013)? Quanto esses filmes preenchem um determinado ‘escaninho’ (Vogner dos Reis, 2019), um ‘selo de exportação’ latino-americano, esperado por uma curadoria europeia? O que esses filmes reconhecidos no século XXI nos dizem sobre a ideia de “alternativo”, de jogos de poder e de manutenção de cânones que dialogam com a cinefilia (De Valck, 2007a, 2007b)?

    Esta proposta, em resumo, busca jogar uma luz sobre aspectos que têm a ver com a presença numérica (quantidade), o lugar ocupado neste espaço simbólico (qualidade) e o que esses reconhecimentos sustentam frente a um horizonte de expectativas preenchido a partir da curadoria e dos júris do evento em si. Em outras palavras: até que ponto o Festival de Cannes propõe uma celebração do cinema mundial ou apenas valida uma escuta e um olhar eurocêntricos sobre uma essencialista alteridade latino-americana?

Bibliografia

    BAMBA, Mahomed. Os espaços de recepção transnacional dos filmes: propostas para uma abordagem semiopragmática. Crítica Cultural (Critic), Palhoça, SC, v. 8, n. 2, p. 417-424, jul./dez. 2013.

    CANNES Soundtrack Awards. About. Cannes – Music Cinema Awards – Soundtrack. 2024. Disponível em: https://cannessoundtrack.com/en/. Acesso: 22 abr. 2026.

    DE VALCK, Marijke. Introduction – Film Festivals as Sites of Passage. In: DE VALCK, Marijke. Film Festivals: From European Geopolitics to Global Cinephilia. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2007, pp. 13-43.

    ______. Cannes and the “Alternative” Cinema Network: Bridging the Gap between Cultural Criteria and Business Demands. In: DE VALCK, Marijke. Film Festivals: From European Geopolitics to Global Cinephilia. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2007, pp. 86-121.

    VOGNER DOS REIS, Francis. Entre a internacionalização e a falta de legitimidade
    interna. Entrevista com Francis Vogner dos Reis concedida a Juliana Costa. In: Cine
    Festivais.