Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Miguel Alves Siqueira (Unespar)

Minicurrículo

    Bacharel em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Membro do grupo Eikos – Imagem e Experiência Estética e Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) da Unespar, onde investiga aquilo que ele chama de ‘comédias do absurdo’ — pelo menos, ao que consta sua presente especulação. Atua ainda com a imagem: é diretor de fotografia, colorista e montador, além de, entre outros, ter dirigido o curta-metragem “A Hora e Vez de Pedro Barnabé” (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    O absurdo e as vacas na catapulta: uma breve especulação metodológica

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Nesta comunicação, pretendemos examinar o poder de ideação imagética suscitado por Etienne Samain em “Como pensam as imagens”, posto ao lado das considerações de Albert Camus a respeito do predicado do absurdo. Selecionamos o filme “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” como objeto de análise, além de recorrermos também às companhias de Didi-Huberman e Aby Warburg. De tal maneira, portanto, especulamos sobre a imagem como uma forma que pensa e como o mesmo absurdo poderá se tornar um método.

Resumo expandido

    Se alguma vez Albert Camus definiu o absurdo, ele o fez não o definindo. Quer dizer, o absurdo enquanto um sentimento inapreensível, irredutível à lógica (2024). Embora face à natureza paradoxal de sua especulação filosófica, ele relata um mundo do não-sentido, um mundo absurdo — mas que, no entanto, sem jamais negar a absurdidade mesma das coisas, devemos nós constituir sentido diante do não-sentido.

    E as imagens não são bolas de sinuca, por outro lado. Nesta comunicação, parte de uma pesquisa de mestrado em andamento, pretendemos examinar o poder de ideação imagética suscitado pelos acionamentos de Etienne Samain em “Como pensam as imagens” (2012). Intencionamos revelar as problematizações circundantes mais recentes da imagem, sobretudo como ela nos oferece algo para pensar, veicula e porta pensamentos e como é, de fato, uma forma que pensa (Samain, p. 22). Queremos nos ater muito menos aos dados sígnicos [as cores, os traços e a luz] e mais às imagens cruzadas, em si: por localizarem uma memória de memórias declaradamente vivas; pensá-las num “circuito de pensamento” (Samain, p. 27). Ou, incutindo a Georges Didi-Huberman (2023), como fazê-las arder quando montadas umas às outras? Em última instância, será possível uma lida da imagem que não a imobilize em dado tempo histórico?

    Para tal, elegemos uma cena/fotograma de “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” (Terry Gilliam, Terry Jones, 1975) — o de uma vaquinha catapultada por cima da muralha medieval. Durante a sequência na qual Rei Arthur e os bons cavaleiros travam o embate patético com os guardas franceses mantenedores do castelo, testemunhamos uma série de animais sendo lançados ao céu [dentre eles, a vaca] em forma de retaliação a um iminente ataque. A passagem, isto é certo, depõe a favor da absurdidade característica desse humor ‘pythonesco’, que está sempre a recorrer às piadas situacionais, ao escracho, assentando os espectadores em um local imprevisível e ilógico. Um humor absurdo, caso assim possamos resumir. De todo modo, volta e meia, aflige-nos a razão por detrás dessa imagem. É tentador questionar-se sobre a aparente falta de sentido, perguntar-se dos absurdos — pois, ora, por que as vaquinhas na catapulta?

    Evocamos outra vez Samain para falar de que são melhores os ‘comos’ do que os ‘porquês’, compreendidas as imagens como formas que pensam. É, também, segundo ele, a maneira pela qual Huberman e Aby Warburg entreveem a imagem, esta “vivência, melhor, uma sobrevivência e, mais: uma supervivência que atravessa o tempo (histórico) e que se nutre de um tempo – passional, pulsional, patético, isto é, humano – anacrônico” (Samain, p. 33). Logo, a cena de partida do Cálice nos abre um ajuntamento de outros fotogramas [e tampouco por suas semelhanças sígnicas], neles contido um significante do espírito partilhado entre eles próprios e remontados no tempo. E o espírito (pathosformel) ao qual nos referimos é o absurdo. Reafirmamos que, se Camus o vê como um sentimento irredutível à lógica, é do cruzamento entre essas imagens e de seu poder de ideação que se produzirá um sentido, embora diante daquele não-sentido das coisas. Revelamos aqui uma breve especulação metodológica, portanto.

    Finalmente, remendando outra conversa de Etienne Samain com Sylvain Maresca a respeito de se poderia ou não uma fotografia pensar, as imagens absurdas, por elas mesmas, não podem pensar, pensamos nós. Quiçá, tal e qual o fotógrafo, quem as concebeu tenha o feito por meio de um dado pensamento, mas elas se revelam a nós mudas; são múticas. Então, dizemos por enquanto sobre o Cálice e sobre os demais filmes comparados que se seguirão no decurso da dissertação: em alguma medida, o absurdo poderá ser um método e vacas na catapulta serão vacas na catapulta.

Bibliografia

    CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. 32. ed. Rio de Janeiro: Record, 2024. 160 p.

    DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

    _________. Quando as imagens tocam o real. Revista Pós. V. 2, n° 4, nov.2022- abr. 2023.

    MACIEL, Jane Cleide. Atlas mnemosyne e saber visual: atualidade de Aby Warburg diante das imagens, mídias e redes. Ícone, nº 16, vol. 2, 2018, p. 191-209.

    MONTY Python em Busca do Cálice Sagrado (no original, Monty Python and The Holy Grail). Direção de Terry Gilliam e Terry Jones. Grã-Bretanha, 1975. 91 min.

    SAMAIN, Etienne. As imagens não são bolas de sinuca. Como pensam as imagens. Etienne Samain (org.). Campinas, Editora da Unicamp, 2012.

    WARBURG, Aby. Atlas Mnemosyne. Madri: Akal, 2010.