Ficha do Proponente
Proponente
- Dioniso Alves de Castro (UFF)
Minicurrículo
- Mestrando pelo PPGCOM – UFF onde pesquisa a construção de star personas de David Bowie a partir da montagem de imagens de arquivo no filme Moonage Daydream (2022) com orientação da Profa. Dra. Simone Pereira de Sá. Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde também pesquisou montagem de imagens de arquivo. É cineasta independente, atuando principalmente nas áreas de roteiro, assistência de direção e captação de som.
Coautor
- Lucas Miranda dos Santos (UFRJ)
Ficha do Trabalho
Título
- TECNOLOGIA TRAVESTI: Ruído, gênero e montagem no clipe musical DEUS EX MACHINA de Jup do Bairro
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- A partir de uma análise da montagem audiovisual, esse trabalho busca analisar o clipe musical DEUS EX MACHINA da Jup do Bairro pensando a (re)criação estética de ruídos visuais e sonoros enquanto parte da performance da cantora de sua identidade travesti. Trabalhamos performance em duas instâncias: enquanto a lente epistemológica para observar elementos fílmicos; e enquanto performance de gênero, trazendo as falhas tecnológicas como parte de uma narrativa de gênero.
Resumo expandido
- Em dezembro de 2024, Jup do Bairro lançou no YouTube o clipe da música “DEUS EX MACHINA” que contava com as participações da cantora Urias e da deputada Erika Hilton. Em meio a distorções visuais e sonoras, o clipe recria “falhas” técnicas (como glitches) de aparatos que não estão mais em uso como internet discada e a reprodução em fita VHS, assim como “falhas” de captação digitais e de som. Para esse trabalho, pensaremos essas “falhas” e glitches enquanto ruídos (Hainge, 2013; Sangild, 2023).
A partir da metodologia de análise fílmica, esse trabalho se propõe a pensar uma relação entre os aspectos narrativos e estéticos desses ruídos sonoros e visuais com a performance de Jup do Bairro, trazendo para o campo da performatividade de gênero proposta por Butler. Para a análise, daremos prioridade à observação da montagem (Aumont et al., 2009; Augusto, 2004) do clipe, a entendendo como um processo presente desde a escolha dos elementos que farão parte do produto final, bem como sua ordenação, agrupamento e adição de efeitos estéticos. Dessa forma nos dando a possibilidade de observar como a estruturação e presença dos elementos sonoros e visuais contribui para a construção da performance da cantora.
Nesse sentido, pensamos performances em dois níveis diferentes: o primeiro, advindo dos Estudos da Performance de autores como Taylor (2013) que propõe a performance enquanto uma lente epistemológica para a análise de fenômenos; e o segundo, a partir da noção de performatividade de gênero como concebida por Butler (2011, 2016).
Trazendo a primeira instância de performance em que pensamos a performance enquanto lente epistemológica, podemos trazer a ideia de roteiro performático proposta por Taylor (2013) para analisar a performance de Jup do Bairro não apenas a partir de seus movimentos, mas a partir de todos os elementos organizados pela montagem do clipe, argumentando que os ruídos imagéticos e sonoros também podem ser entendidos enquanto parte da performance da cantora.
A segunda instância de performance, a performatividade de gênero como proposta por Butler nos auxilia na associação desses elementos com a forma como a cantora performa a sua identidade travesti ao longo do clipe, entendendo a ‘performance’ não enquanto algo oposto à autenticidade, mas enquanto práticas que constituem o ‘eu’. A importância da identidade travesti aparece ao longo do clipe como um todo, desde a escolha das outras participações da música, como na letra e até mesmo nas cartelas que aparecem no início do clipe – “A travesti como último ser humano a existir na Terra / Afinal, o ser humano perfeito só pode ser uma espécie de travesti.” (DEUS […], 2024)
A fim de considerar as especificidades da identidade travesti e sua relação com a vida de Jup do Bairro, trazemos também um diálogo com “Manifestações textuais (insubmissas) travesti” (York et al., 2020), além de entrevistas com Jup do Bairro e outras performances suas em outros clipes musicais, a fim de tratar dos aspectos da identidade travesti enquanto identidade dissidente, que ocupa um não-lugar.
Nesse sentido, pensamos a travesti de Jup do Bairro enquanto ligada tanto à tecnologia e à ficção científica (como indicado pelo próprio título da música), quanto à abjeção. Butler afirma que o imperativo heterossexual permite certas formas de sexo-identificação, e exclui e repudia outras, produzindo “o domínio dos seres abjetos, aqueles que ainda não são ‘sujeitos’, mas que formam o exterior constitutivo do sujeito” (2011, p. 13). Em paralelo, Sangild identifica o ruído enquanto o abjeto da música (2023, p. 531), de forma que os ruídos tecnológicos do clipe musical podem ser pensados não só enquanto uma forma de firmar uma relação com a tecnologia, mas uma expressão da identidade travesti em si, com seus aspectos dissidentes e de valorização dos rejeitos.
Bibliografia
- AUGUSTO, Maria de Fátima. A montagem cinematográfica e a lógica das imagens. São Paulo: Annablume, 2004.
AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Tradução: Marina Appenzeller. 7. ed. Campinas, SP: Papirus Editora, 2009.
BUTLER, Judith. Bodies that matter. Routledge: New York & London, 2011.
_____. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
DEUS EX MACHINA, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Si7KwyxvkcI. Acesso em: 25 abr. 2026.
HAINGE, Greg. Noise Matters: Towards an anthology of noise. London, UK: Bloomsbury, 2013.
SANGILD, Torben. The Aesthetics of Noise. Tradução de Juliana Frontin. In: ARS, v. 21, n. 49, 2023, p. 506-537.
TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório. Performance e memória cultural nas Américas.
Belo Horizonte: Editora UFMG. 2013.
YORK, Sara Wagner; OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes; BENEVIDES, Bruna. “Manifestações textuais (insubmissas) travesti”. In: Revista Estudos Feministas, v. 28, n. 3, 2020, e75614.