Ficha do Proponente
Proponente
- Jonatas do Carmo Freitas (UEA)
Minicurrículo
- Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Letras e Artes (PPGLA) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Graduado em Letras – Literatura e Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Membro do Grupo de Investigações sobre Memória Cultural em Artes e Literatura (Memocult-UEA). Membro do Grupo de Estudos Semióticos (GES-UEA). Tem interesse nas áreas: Análise fílmica, Iconografia, Estudos de Imagem, Estudos queer, Literatura e Cultura Amazônica.
Ficha do Trabalho
Título
- Melancolia, sátira e realismo mágico: o cinema homossexual de Djalma Limongi Batista
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- Este trabalho trata das representações homoafetivas nos filmes Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora e Brasa Adormecida, investigando a constituição de resistências simbólicas frente à heteronorma compulsória do regime militar brasileiro. Constatamos que, enquanto Um Clássico… constrói uma homossexualidade melancólica tensionada metaforicamente pela arquitetura brutalista paulistana, Brasa Adormecida opera pelo camp, realismo mágico e o neobarroco para autorizar o homoerótico no cinema.
Resumo expandido
- A presente pesquisa investiga o cinema de Djalma Limongi Batista com recorte para seu curta Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora (1968) e Brasa Adormecida (1986). O objetivo central da pesquisa é analisar de que modo a homoafetividade e as representações queer em seus filmes se manifestam, e a partir dessa manifestação, constatar como constituem formas de resistência simbólica frente às normas sociais e políticas heteronormativas do século XX.
O contexto histórico no qual a obra de Limongi se insere é determinante para compreender sua radicalidade. A ditadura militar brasileira, instalada por meio de um golpe cívico-militar em abril de 1964, e sustentada por instrumentos como a Divisão de Censura de Diversões Públicas, impôs sobre as artes e a cultura um regime de censura prévia sistemática, silenciando críticas políticas, minorias sexuais e manifestações dissidentes em todas as mídias. A ditadura, assim, operou como um regime que Quinalha (2021) denomina “hétero-militar”: um projeto de poder ancorado na heteronormatividade compulsória, no qual a dissidência sexual era tratada como ameaça à moral, à família e à segurança nacional.
É nesse solo histórico de repressão política e sexual que emerge o cinema de Limongi. Sua filmografia, marcada por um filtro vezes melancólico vezes satírico das tensões entre erotismo, liberdade e repressão, constitui um contradiscurso cinematográfico em relação ao regime dominante nesse período. Em Um Clássico…, Limongi constrói uma homossexualidade melancólica sob os olhos do regime e do preconceito social. Visão que, além da narrativa, emerge de maneira simbólica, como em planos gerais que se defrontam na arquitetura brutalista paulistana (que comunicara a ordem, a intransigência e o imperativo do regime). Por sua vez, com o longa Brasa Adormecida, Limongi dramatiza outra visão sobre a condição homossexual em fins de um regime político hétero-militar: a existência através da sátira e do realismo mágico.
Filme embebido no camp, Brasa Adormecida parte de um triângulo amoroso ambíguo, em que propositalmente não sabemos se tratar de um triangulo hétero ou homossexual. Através de construções satíricas sobre a representação dos corpos femininos e masculinos erotizados no cinema, referências da cultura queer, inserção de símbolos fálicos não óbvios e certo realismo mágico que autoriza o desejo homoerótico de emergir, Limongi denota uma homossexualidade que se autoriza existir no cinema sem embargos por meio do maravilhoso, do excesso, da ambiguidade, do modo como Calabrese (1987) categoriza: neobarroco.
Para tanto, articulamos quatro aportes teórico-metodológicos: a iconologia de Panofsky (2017), que permitem a leitura das construções imagético-simbólicas nos fotogramas; Rancière (2012), que fornece o instrumental conceitual para compreender também o cinema a partir da ótica da política da arte, enquanto imagens de projeção massiva; em Louro (2004) e Sontag (2020 [1964]), como arcabouços para a discussão a respeito da representação da sexualidade dissidente, do queer e do camp nessas duas produções; e em Calabrese (1987), para localizar o cineasta na concepção neobarroca. A metodologia adotada fora a análise fílmica qualitativa, articulada à historiografia do movimento LGBT, ao cinema queer brasileiro e ao contexto sociopolítico das décadas analisadas.
A obra de Limongi permanece tímida na literatura acadêmica, poucas são as produções científicas identificadas até o momento, a despeito de seu potencial para iluminar tensões culturais fundamentais entre arte, corpo, desejo e poder no Brasil autoritário. Ao recuperar e reinscrever esse cinema na historiografia nacional, este trabalho contribui para o campo dos estudos de cinema, gênero e sexualidade, propondo uma leitura que reconhece o cinema como veículo privilegiado de resistência aos regimes de repressão político-social e como arquivo vivo das experiências e subjetividades dissidentes que o Estado buscou apagar.
Bibliografia
- CALABRESE, Omar. A Idade Neobarroca. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1987.
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada: As ilusões armadas: 1. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
LACERDA, Luiz Francisco B. de. Cinema Gay Brasileiro: políticas de representação e além. Tese (Programa de Pós-graduação em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2015.
LOURO, Guacira Lopes. Um Corpo Estranho: Ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
PANOFSKY, Erwin. Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva, 2020.
QUINALHA, Renan. Contra a moral e os bons costumes: A ditadura e a repressão à comunidade LGBT. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
SONTAG, Susan. Notas sobre o camp. In: SONTAG, Susan. Trad. Denise Bottmann. Contra a interpretação e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 313-31.