Ficha do Proponente
Proponente
- felipe maciel xavier diniz (IFRS)
Minicurrículo
- Felipe Diniz é doutor em comunicação pela UFRGS, professor no curso superior tecnológico de Produção Multimídia e do curso técnico em Processos Fotográficos no IFRS. É Coordenador do curso Processos Fotográficos na mesma instituição. Cineasta e pesquisador na área de cinema e audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Documentários Autobiográficos: enunciados que se sobrepõem à enunciação
Resumo
- Comolli afirma que o cinema cria uma dupla subjetivação nos sujeitos filmados: o personagem é encenado e também se encena. Em documentários autobiográficos, essa dinâmica é intensificada, pois o diretor é ao mesmo tempo autor, personagem e narrador. Tal dinâmica gera um jogo reflexivo autoficcional, onde a câmera media a descentralização do poder do autor. Assim, a linguagem passa a surgir da tensão entre encenação, dispositivo e sujeito, em uma operação em que enunciação e enunciado se fundem.
Resumo expandido
- Jean-Louis Comolli (2008) sustenta a ideia de que no ato cinematográfico ocorre um “duplo processo de individuação”, o que ele chama de “subjetivação do sujeito filmado”. Se por um lado tal sujeito se torna alvo de uma mise-en-scène que o vê como personagem, por outro ele mesmo se oferece ao olhar do outro, que projeta sobre ele suas propostas de encenação cinematográfica.
A mise-en-scène, entendida aqui nos termos de Bordwell (2008), como a relação entre os elementos narrativos e pictóricos em uma cena, produzida principalmente através do trabalho do diretor, é debruçada sobre um personagem. Este movimento que impregna o personagem também o produz. Dá-se, portanto, uma operação em que o personagem retorna o olhar do diretor tal qual repercutiu nele, e devolve por meio de outra mise-en-scène. O que Comolli (2008) chama de auto mise-en-scène.
Nossa proposta é refletir sobre o que acontece com essa dinâmica (cruza de mise-en-scène com auto mise-en-scène) quando estamos falando de documentários autobiográficos, aqueles em que o diretor, com a câmera em próprio punho, filma sua própria imagem. Como se modelam os personagens se eles próprios comandam a mise-en-scène? Ou ainda, como a linguagem afeta e é afetada por tal dinâmica?
Se partirmos do princípio de que não há mise-en-scène que não seja modificada pelo sujeito colocado em cena, seria interessante pensar como o cineasta enfrenta esta questão, ou a partir de que dispositivos reinventa a cena nos documentários autobiográficos. Aquele que é afetado pela câmera é o mesmo que decide onde a câmera será colocada. Essa duplicação instaura um jogo especular, no qual o olhar que antes organizava o mundo passa a voltar-se sobre si mesmo. Assim, a alteridade deixa de ser compreendida como relação entre dois sujeitos distintos e passa a operar como diferença interna ao próprio sujeito filmante, configurando uma subjetividade construída de forma concomitante no ato de filmar e de se expor à imagem.
A perda do poder do autor em prol da magnitude do texto, já decretada por Barthes (2004), nos anos sessenta, ganha novo sentido. A autobiografia fílmica produz um duplo autor, amalgamado na figura do narrador/personagem, ou termina de vez com sua presença, libertando a linguagem para que se ofereça ao cinema, quase que sem comando?
No documentário em primeira pessoa, o autor deixa de ocupar um lugar externo de controle absoluto e passa a integrar o próprio texto fílmico. Essa condição enfraquece a noção de autoria como origem soberana do sentido, aproximando-se da perspectiva barthesiana de descentralização do sujeito que escreve: o filme passa a ser construído pela tensão entre encenações. Dá-se, portanto, a formação de uma espécie de campo de negociação entre dispositivo, performance e linguagem.
A câmera, desta forma, detém uma tendência animista e faz as vezes da figura do diretor, ocupado que está na função de personagem. Nessa perspectiva, a câmera é investida de uma agência que reorganiza as relações entre autor, narrador e personagem, funcionando como instância de direção que orienta a experiência e a memória. Como que dotada de uma dada intencionalidade, a câmera torna-se uma interlocutora silenciosa, mediando a relação do sujeito filmado consigo mesmo.
Nos documentários autobiográficos, a presença do realizador em cena tensiona a separação tradicional entre sujeito que enuncia e objeto narrado. Esta simultaneidade produz uma narrativa indiferente à verossimilhança, uma vez que podemos pensar que neste terreno a única inscrição de si possível é a fabricada. Permeada pela noção de autoficção (DOUBROVSKY, 1977), intuímos que esta ação de construção da própria imagem pelo cinema redefine os parâmetros da alteridade (aquele que eu filmo me vê) e da inversão dos polos identitários no cinema.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1993.
COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Humanitas, 2008.
BARTHES, Roland Barthes. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004
BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2008.
DERRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva, 1995.
DOUBROVSKY, Serge. Fils. Paris: Éditions Galilée, 1977