Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Morgana Gama de Lima (UFBA)

Minicurrículo

    Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas (PósCom), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio doutoral na Universidade da Beira Interior (UBI), desenvolve pesquisa sobre tradição oral em cinemas de África e suas diásporas. Pesquisadora do Laboratório de Análise Fílmica (PósCom/UFBA), colabora com o CineMAtiC (iA*lab/UBI) e é integrante da Comissão Editorial da REBECA (Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual).

Coautores

    Regina Lucia Gomes Souza e Silva (UFBA)
    Rafael Oliveira Carvalho (UNEB)

Ficha do Trabalho

Título

    África em Cannes: a crítica como fonte histórica na revista Écrans d’Afrique

Mesa

    Circulação de filmes latino-americanos e africanos no Festival Cannes

Resumo

    A partir da análise de recortes extraídos de algumas edições da revista Écrans d’Afrique, o objetivo desta comunicação é observar como textos críticos relacionados à cobertura de festivais europeus, particularmente do Festival de Cannes, permitem acessar um mapeamento histórico de quais filmes realizados por cineastas africanos circularam pelo festival e também analisar como uma revista de cinema africana avalia os critérios utilizados no processo de curadoria de um festival de cinema europeu.

Resumo expandido

    A revista Écrans d’Afrique/African Screen (1992-1998) foi uma publicação periódica, bilíngue, criada pela Federação Pan-africana de Cineastas (FEPACI), em parceria com o Centro Orientamento Educativo (COE), organização não-governamental italiana. Como parte de seu escopo, a revista tinha a finalidade de suprir uma lacuna sobre a abordagem crítica de filmes africanos e afrodiaspóricos, no contexto de revistas especializadas em cinema, e apresentava seções dedicadas a críticas cinematográficas, análise de tendências, entrevistas com cineastas e coberturas de festivais de cinema internacional. Uma revista de inegável valor histórico: primeiro, pelo fato de buscar a visibilidade de filmes realizados no contexto de África e suas diásporas a partir da perspectiva de pessoas atuantes na indústria cinematográfica, e segundo por trazer o registro do filme na ocasião em que o mesmo era lançado pelos seus cineastas, em uma abordagem contemporânea à obra.

    A partir da análise de recortes extraídos de algumas edições da revista Écrans d’Afrique, o objetivo desta comunicação é observar como textos críticos relacionados à cobertura de festivais europeus, particularmente do Festival de Cannes, permitem acessar um mapeamento histórico de quais filmes realizados por cineastas africanos circularam pelo festival e também analisar a forma como uma revista de cinema africana avalia os critérios utilizados no processo de curadoria de um festival de cinema europeu. Partindo da concepção de Janet Staiger (1992; 2000) acerca do texto crítico como uma rica fonte histórica, percebe-se que a crítica cinematográfica apresentada na publicação tem um caráter relevante para os cinemas africanos tanto para os seus agentes imediatos quanto, sobretudo, para a composição de mudanças e continuidades nas interpretações históricas desses cinemas, ao oferecer uma perspectiva distinta daquela oferecida pela crítica especializada europeia.

    Nesse sentido, a proposta de discussão ao mesmo tempo em que oferece uma breve revisão historiográfica do Festival de Cannes – sobretudo quanto à forma como esse festival europeu se relaciona com produções fílmicas não-europeias – se alinha também a uma perspectiva contra-colonial no campo de estudos teóricos de cinema ao utilizar como fonte de informação os textos críticos publicados na revista Écrans d’Afrique, uma publicação diretamente ligada a uma associação de cineastas africanos. Como parte da amostra são consideradas (quatro) edições que apresentam textos de cobertura do festival. Para Staiger a crítica cinematográfica pode, a um só tempo, ser considerada como um vestígio de uma recepção e também como arquivo, fonte histórica, para os estudos de cinema, sobretudo quando se trata de filmes que, por estarem fora dos centros de decisão, estiveram por muito tempo ausentes dos cânones.

    Diante da fortuna crítica acumulada pela revista Écrans d’Afrique algumas das questões a serem discutidas são: seria tal revista um caminho possível para a reconstituição das histórias sobre os cinemas africanos? Como a perspectiva apresentada nesses textos críticos pode impactar nas concepções vigentes no interior dos estudos de história do cinema africano? Perguntas que ultrapassam o objeto de análise, mas que sem dúvida surgem como provocações também válidas para outras cinematografias que – à semelhança dos cinemas africanos – ficaram às margens da história por diversos fatores, dentre eles, os critérios utilizados por instâncias de mediação como o Festival de Cannes.

Bibliografia

    AMARGER, Michel. “Cannes – 1946 -1996. Les images africaines à Cannes/1946-1996. African images at Cannes”. Écrans d’Afrique/African Screens, 19, 01 jan. 1997.

    CORÉA, Massiré. “Cannes 93: vers de nouveaux horizons/Cannes 93: Towards new horizons”. Écrans d’Afrique/African Screens, 3, 01 jan. 1993.

    HENNEBELLE, Guy. 1978. Os cinemas nacionais contra Hollywood. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978

    STAIGER, Janet. Interpreting films: studies in the historical reception of American cinema. Princeton: Princeton University Press, 1992.

    STAIGER, Janet. Perverse spectators: the practices of film reception. Nova York: NYU Press, 2000.

    SPECIALE, Alessandra. 1995. “Cannes – Gymcannes: des parcours tortueux vers le Sud/Gym-Cannes: an obstacle race towards the South”. Écrans d’Afrique/African Screens, 12, 01 abr. 1995.

    TAPSOBA, Clément. 1993. “Cannes 93: Avant-goût d’Afrique/Cannes 93: African titbits. African images at Cannes”. Écrans d’Afrique/African Screens, 4, 01 abr. 1993.