Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Guilherme Maia de Jesus (UFBA)

Minicurrículo

    Guilherme Maia é mestre em Música pela Unirio, doutor em Comunicação pela UFBA, professor da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea da UFBA. Suas publicações incluem os livros Elementos para uma poética da música no cinema (Appris, 2015) e a coorganização das coletâneas “Ouvir o documentário: vozes, música e ruídos” (Edufba, 2015) e “El cine musical en América Latina: aproximaciones contemporáneas” (Edufba, 2018).

Ficha do Trabalho

Título

    O estatuto da música nas quatro mais importantes premiações do cinema mundial contemporâneo

Mesa

    Circulação de filmes latino-americanos e africanos no Festival Cannes

Resumo

    Como uma das ações preliminares de um projeto de pesquisa que se propõe a investigar o estatuto da música em filmes africanos e latino-americanos premiados em instâncias de consagração oficiais do campo do cinema, esta comunicação observa o modo como a música é nomeada e reconhecida nos quatro mais importantes eventos de premiação do cinema mundial no século XXI.

Resumo expandido

    Uma comparação entre o Oscar e os três grandes festivais europeus, Festival de Cannes, Festival Internacional de Cinema de Berlim e Festival de Cinema de Veneza, evidencia diferenças estruturais tanto na definição quanto na hierarquização da música no cinema ao longo do século XXI, em distintos regimes de valor estético e comercial.

    No caso do Oscar, a música é altamente institucionalizada e segmentada em duas categorias fixas e autônomas: Best Original Score e Best Original Song. Essa distinção, típica do vocabulário industrial estadunidense, separa de maneira rigorosa a música instrumental da canção original concebida para o filme. Trata-se de um modelo que pressupõe a música como departamento especializado da produção, à semelhança da fotografia, da montagem ou do design de som. Além disso, a existência de uma categoria específica para canção, absolutamente inexistente nos grandes festivais europeus, indica uma valorização da dimensão fonográfica e potencialmente comercial da música cinematográfica.

    Em contraste, o Festival de Cannes não possui, no século XXI, uma categoria oficial competitiva dedicada à música na seleção principal. A música não figura entre os prêmios centrais — como direção, roteiro ou atuação — e tampouco é autonomizada como a fotografia ou o desenho de som em premiações específicas. O reconhecimento da música ocorre sobretudo em instâncias paralelas, como o Cannes Soundtrack Award, criado em 2010, que premia compositores de trilhas originais. Essa configuração indica que, no regime estético de Cannes, a música permanece subsumida à totalidade da mise-en-scène, sendo valorizada de forma indireta e não sistemática. Não há, ademais, qualquer distinção institucional entre música instrumental e canção, o que reforça a ausência de uma lógica segmentada semelhante à do Oscar.

    O Festival Internacional de Cinema de Berlim apresenta uma situação intermediária. A música pode ser contemplada no âmbito do Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística, uma categoria flexível que abrange diferentes áreas técnicas, como fotografia, montagem e direção de arte. Nesse caso, a música não constitui uma categoria fixa, mas pode ser reconhecida conforme a decisão do júri em determinado ano. Compositores como Alberto Iglesias ou a dupla Nick Cave e Warren Ellis foram premiados nesse contexto. Ainda assim, não há distinção entre score e canção, nem uma categoria dedicada exclusivamente à música, o que evidencia uma lógica de integração estética em vez de segmentação técnica.

    Já o Festival de Veneza é o que mais se aproxima, ainda que de modo irregular, de um reconhecimento específico da música. Historicamente, existiram prêmios como o de melhor trilha sonora (migliore colonna sonora), mas sua presença no século XXI é intermitente e frequentemente deslocada para seções paralelas ou prêmios especiais. Assim como nos outros festivais europeus, não há uma categoria específica para canção, nem uma distinção formal entre diferentes tipos de composição musical. A música pode ser premiada diretamente, mas não ocupa uma posição estrutural estável no sistema de categorias.

    Em síntese, enquanto o Oscar opera segundo uma lógica industrial que segmenta a música em categorias especializadas e a reconhece como um campo autônomo, inclusive com espaço para a canção como forma híbrida entre cinema e indústria fonográfica, os festivais de Cannes, Berlim e Veneza tendem a tratar a música como componente integrado da forma fílmica. Nesses festivais, a música raramente é isolada como objeto de premiação principal, ao contrário do que ocorre com roteiro, direção, atuação ou mesmo fotografia, que possuem categorias mais estáveis e recorrentes. O desenho de som, por sua vez, também costuma ter menor visibilidade nesses contextos, o que sugere a permanência de um “visualcentrismo” nas instâncias de consagração. É notável, ainda, o fato de que o uso de coletâneas de músicas e canções pré-existentes não são consideradas meritórias de prêmios.

Bibliografia

    BRUNETTA, Gian Piero. Venice film festival. Venezia: Marsilio, 2000.

    CORLESS, Kieron; DARKE, Chris. Cannes: inside the world’s premier film festival. London: Faber & Faber, 2007.

    DE VALCK, Marijke. Film festivals: from European geopolitics to global cinephilia. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2007.

    PORTON, Richard (org.). A festival of festivals: Berlin, Cannes, Venice and the politics of cinema. London: Wallflower Press, 2009.

    WILEY, Mason; BONA, Damien. Inside Oscar: the unofficial history of the Academy Awards. New York: Ballantine Books, 1977.