Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Isabella Teles Moebus Retondar (UnB)

Minicurrículo

    Isabella Retondar é videasta e bacharel em Teoria, Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília. Desenvolve pesquisa e atividades em cinema e nas artes do vídeo em diferentes frentes. Foi co-criadora, bolsista e atual colaboradora do projeto de extensão Videoarteclube VIS| UnB. Já realizou pesquisa de Iniciação Científica intitulada “A pintura de paisagem e a representação do espaço sideral no cinema de ficção científica do século XX” indicado ao prêmio do 21º Congresso de IC do DF.

Ficha do Trabalho

Título

    Com o oceano inteiro para filmar: a presença do vídeo no cinema queer contemporâneo

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O trabalho investiga a presença do vídeo em diferentes faces do cinema queer contemporâneo. Partindo da definição do queer como um modo de ser/fazer ubíquo e indefinível, pode ser feita uma relação conceitual entre ele e o vídeo, pensando neste como uma linguagem artística igualmente múltipla e de difícil definição. Assim, pretende-se investigar como o vídeo é manipulado por cineastas queer de diferentes linguagens e épocas, e quais são suas consequências estéticas/formais dentro das obras.

Resumo expandido

    O projeto se baseia na tríade – vídeo, cinema e o elemento queer – para realizar uma investigação acerca da presença do vídeo no cinema queer contemporâneo. Foram analisados seus aparecimentos através de incrustações na imagem do cinema, uso de formas de linguagem da videoarte e adição do vídeo como materialidade de importância narrativa/estética.
    Para uma análise aprofundada, foram selecionadas duas obras do cinema queer contemporâneo que possuem o vídeo enquanto um aspecto fundante da sua criação. As obras foram divididas enquanto uma dupla temática, sendo o curta estadunidense Video Remains (Alexandra Juhasz, 2005) e o curta brasileiro Com o oceano inteiro para nadar (Karen, Harley, 1997). Ambas as obras se encontram no seio do cinema documental de viés autoetnográfico, uma chave temática que permitiu à pesquisa analisar a simbiose do vídeo com a autoria através da sua potência enquanto criador de arquivo pessoal poético.
    A relação simbiótica entre o vídeo e o cinema queer contemporâneo foi observada de um ponto de vista interdisciplinar, que acontece tanto de um ponto de vista histórico, quanto conceitual, uma relação que criou a principal hipótese e chave de leitura para as obras selecionadas: a de que o vídeo é uma Quimera.
    Um marco para a trajetória deste gênero na contemporaneidade foi o movimento do Novo Cinema Queer, situado nos Estados Unidos da década de noventa, que estabeleceu novos paradigmas no fazer cinematográfico queer. De acordo com B. Ruby Rich (2020), a origem do movimento é atribuída à diferentes fatores, nos quais um de seus principais foi a popularização da câmera de vídeo portátil, permitindo que “uma nova geração emergente das escolas de arte utilizasse essas novas ferramentas para reimaginar o cinema através do olho do vídeo, revisitando o meio fervorosamente de cima à baixo” (Rich, 2020, p.17, tradução própria).
    O uso do termo “olho” por Rich, ao se referir ao vídeo, é uma escolha linguística muito representativa do aspecto corpóreo e quimérico que nos leva a entender a aproximação conceitual entre o vídeo e o aspecto queer do fazer. Desde seu surgimento, o vídeo assume um problema identitário acerca da sua natureza como linguagem, algo que Philippe Dubois (2014) compreende enquanto sendo justamente sua força, ao afirmar que:
    “O vídeo é bem o lugar de todas as flutuações, e não devemos estranhar que ele apresente, no final das contas, incomensuráveis problemas de identidade. […] Tal é a sua natureza paradoxal, fundamentalmente hesitante e bifronte. (Dubois, p.74, 2014).
    Esta característica leva Dubois a comparar o estado de existência do vídeo com Janus, o deus da mitologia romana que possui duas cabeças que olham em direções opostas – o deus das transições. O autor o faz considerando a transitividade do vídeo dentro da ideia binária de um pêndulo, uma forma que transita entre dois estados o tempo todo. Porém, pode-se considerar a ambiguidade identitária do vídeo a ser melhor entendida na verdade se pensada como uma ubiquidade, uma fluidez que transita entre mais de duas noções, uma identidade constelacional e não pendular. Ora, se em suas próprias palavras o “vídeo é bem o lugar de todas as flutuações” (Dubois, p.74, 2014), a fluidez ubíqua se encaixa enquanto chave de leitura queer, da mesma forma que Judith Butler (1993) afirma o termo enquanto “um lugar discursivo cujos usos não são inteiramente definidos” (Butler, p.230, 1993, tradução própria).
    Dessa forma, é possível quebrar o binarismo e extrapolar a comparação de Dubois do vídeo com o Janus que, ao contrário, assume aqui o lugar de uma Quimera, um ser constituído por partes de diferentes seres, integrando-os em um só. Quimericamente, o vídeo está nos telefones celulares, nas câmeras de segurança e nas webcams, sendo todos criadores de tipos de imagens distintas, ao mesmo tempo que todas são vídeo, imagens que se encontram no fazer do cinema queer contemporâneo – uma quimera multivalente, constelacional e profundamente queer.

Bibliografia

    BUTLER, Judith. Bodies that matter: On the discursive limits of sex. Routledge, 1993.
    DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. Editora Cosac Naify, 2014.
    RICH, B. Ruby. New queer cinema: The director’s cut. Duke University Press, 2020.