Ficha do Proponente
Proponente
- Francisco Merino (UBI/ iA*)
Minicurrículo
- Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior (UBI)/Portugal, em 2015.
Docente do curso de Cinema da UBI desde 2006 e diretor do curso de Licenciatura em Cinema entre 2016 e 2020. Vice-Presidente da Faculdade de Artes e Letras da UBI entre 2023 e 2025. Coordenador do Centro de Recursos Audiovisuais da UBI desde 2021.
Docente convidado na FCSH (Universidade Nova de Lisboa), 2022 e 2024.
Currículo Investigação:
https://cienciavitae.pt/F111-2443-0D77
Ficha do Trabalho
Título
- Para além do Slop: Mediação, expressão e narração em vídeos IA
Resumo
- Tendo por base as Teorias da Mídia e a Narratologia, este trabalho pretende identificar e analisar projetos de vídeo que utilizam a Inteligência Artificial (IA) como veículo para a experimentação de estratégias narrativas e de modalidades de expressão intrínsecas a este dispositivo, que testam a conjugação de programas artísticos e narrativos com a lógica algorítmica da máquina. Esta proposta afasta-se do chamado slop e pretende focar-se na IA como ferramenta criativa e processo de mediação.
Resumo expandido
- A produção massiva de vídeos em Inteligência Artificial (IA) altamente derivativos e concebidos quase exclusivamente para gerar engajamento nas redes sociais, o chamado slop, tem impedido as análises e reflexões que tradicionalmente acompanhavam o advento de um novo meio e se focavam nas especificidades do meio emergente ou no modo como este se relacionava com os seus antecessores. As discussões que marcaram o período Nickelodeon do Cinema, quando este meio se tentava ainda estabelecer como arte, a emergência dos Estudos Televisivos como campo disciplinar autónomo e os debates entre ludologistas e narrativistas que marcaram a infância dos Videogames parecem agora ausentes ou pouco relevantes. Os efeitos disruptivos da chamada Revolução IA contaminaram todos as atividades humanas, obrigando a Academia a focar-se nas questões éticas, morais ou ontológicas em torno da utilização generalizada destas ferramentas, ao passo que as indústrias de conteúdos se debatem com os dilemas técnicos, laborais e de produção. Neste contexto, a identificação das modalidades de expressão e narração em produções IA ou os processos de especialização do meio tendem a ser relegados para um plano secundário, assoberbados pela intensa produção discursiva em torno dos malefícios e benefícios destes dispositivos.
O trabalho que aqui apresentamos não pretende menorizar estes debates mais abrangente, mas antes alargá-los, acrescentando-lhes uma perspectiva centrada nas propriedades e faculdades da IA como modalidade de mediação e representação. A nossa proposta pretende contribuir para cartografar o macrocosmo dos vídeos IA, identificando uma latitude muito específica em que estas ferramentas funcionam como um campo para a experimentação e se encontram ao serviço de um projeto criativo. Os nossos alicerces teóricos remetem para as Teorias da Mídia e para a Narratologia. Partindo do conceito de remediação, desenvolvido por Jay Bolter e Richard Grusin, e da ideia de que o conteúdo de uma nova mídia são os meios que a antecedem, procurámos identificar estratégias, estilos e processos de criação e narração que se conjuguem nos modelos de produção em IA, fortemente ancorada à lógica computacional e à intertextualidade. Recorremos também a um vasto arsenal de categorias de análise extraídas de autores como Michel Foucault, Mikhail Bakhtin, Marie-Laure Ryan ou David Bordwell, articulando-os com a investigação mais recente dedicada à produção audiovisual em IA.
Os objetos de estudos que elegemos habitam nas redes sociais e não são inteiramente representativos da produção em IA, na medida em que ultrapassam o slop e não se esgotam no exibicionismo tecnológico. Procurámos identificar conteúdos que, à semelhança dos filmes da escola de Brighton ou das primeiras narrativas interativas em ambiente digital, permitissem identificar a emergência de processos específicos de narração e espelhassem a vocação experimental de um meio em estado embrionário. Projetos de IA como Gossip Goblins, The Archive in Between ou Katsukokoiso, entre outros, funcionam, acima de tudo, como indicadores do potencial da IA no processo criativo e como laboratórios que testam a conjugação de programas artísticos e narrativos com a lógica algorítmica da máquina. Permitem também detectar um conjunto de estratégias que visam o estabelecimento de mundos narrativos coesos, através de fragmentos e unidades narrativas autónomas, e de modalidades de expressão ou recursos de estilo que traduzem uma visão singular. Em ambos os casos, a máquina que os gera funciona como uma ferramenta de mediação entre as camadas cultural e computacional, entre a obra e o autor que se esconde atrás do prompt, transportando temáticas, estilos, discursos e mensagens. Em suma, procuramos identificar num ecossistema ainda largamente instável e em permanente transformação algo que possa corresponder a uma certa ideia de “IA de Autor” ou que ofereça indícios sobre os horizontes da produção audiovisual em IA.
Bibliografia
- Bakhtin, M. M. (1981) The Dialogic Imagination: Four Essays. Texas University Press
Bolter, J. D., & Grusin, R. (2000). Remediation, Understanding New Media. Cambridge, MA:
MIT Press.
Bordwell, D. (1992). Narration in the Fiction Film. London: Routeledge.
Browne, K. (2022). Who (or what) is an AI Artist? Leonardo, 55(2), 130–134.
Foucault, M. (1992). O que é um autor?. Vega.
Hutson, J. & Smith, A. (2025). Cinematic Algorithms: The Rise of Generative AI in Video Art and Visual Culture. CRC Press
Manovich. L. (2001). The Language of New Media. Cambridge: MIT Press
Ryan, M. L. (1991). Possible Worlds, Artificial Intelligence, and Narrative Theory.
Bloomington: Indiana Univ. Press.