Ficha do Proponente
Proponente
- Marcelo Bergamin Conter (UFRGS)
Minicurrículo
- Professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS. Doutor e mestre em Comunicação (PPGCOM/UFRGS). Coordena o Núcleo de Pesquisa Semiótica e Sonoridades (SEMSONO/UFRGS) e o Grupo de Pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC/UFRGS). marcelo.conter@ufrgs.br
Ficha do Trabalho
Título
- Sonoridades geológicas em É Noite na América, de Ana Vaz (2022)
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- Este trabalho investiga como elementos sonoros e musicais expressam sensibilidades geológicas em contexto de mutações climáticas de escala planetária no cinema latino-americano. Ana Maria Ochoa Gautier observa a emergência de um ouvido geológico capaz de tornar audível as desordens do Antropoceno. Contribuímos para esta discussão observando o filme É Noite Na América, de Ana Vaz (2022), no qual ruídos tem agência narrativa, desmanchando os limites conceituais entre voz, música e ruído.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga como elementos sonoros e musicais expressam sensibilidades geológicas em contexto de mutações climáticas de escala planetária no cinema latino-americano. Partimos da hipótese formulada por Ana Maria Ochoa Gautier (2022), que observa a emergência contemporânea de um ouvido geológico capaz de tornar audível as desordens do Antropoceno (Moore, 2022). Nos interessa desenvolver estas ideias ao observar as sonoridades (Castanheira et al, 2020) em suas capacidades de expressão, afastando-nos de uma hermenêutica centrada no conteúdo. Pretendemos analisar casos em que o clima do sonoro é expresso materialmente, agindo nas dimensões formais, afetivas e sensíveis das sonoridades. Vale lembrar aqui um pequeno texto de Gilles Deleuze (2016) no qual o filósofo reconhece na música a capacidade de tornar audível forças não-audíveis, criando paisagens sonoras, cores audíveis e personagens rítmicas.
Não nos interessa observar a submissão da música à narrativa visual, mas sim sua capacidade de, junto da linguagem audiovisual, forçar ambos a diferirem de si ao lidarem, direta ou indiretamente, com as temáticas do Antropoceno. Assim, uma episteme aural poderá oferecer outros modos de relacionar os estudos do Antropoceno com os da comunicação, partindo de contextos não-hierárquicos e contando com o princípio do contágio como metáfora para processos comunicacionais aberrantes entre agentes humanos e não-humanos (Haraway, 2023).
Como estudo de caso, debruçaremo-nos no filme É noite na América, de Ana Vaz (2022), que versa sobre a disputa de território entre humanos e não humanos nas zonas urbanas noturnas de Brasília. Araujo e Leites (2024) analisam este filme em suas capacidades de criticar a modernidade como uma utopia do visível. De acordo com os autores, Vaz elabora um longa metragem de eco-terror. Planos de animais diversos atravessando ruas ou sendo resgatados em mau estado sobrepõem-se a planos gerais de Brasília. Araujo e Leites reconhecem na obra de Vaz um esforço teórico para produzir um olhar do aparato cinematográfico descentralizado do olhar humano, um olhar perspectivista e multiespécie.
Pretendemos contribuir para esta discussão observando o filme de Vaz a partir de suas estruturas sonoras e musicais. Há toda uma ecologia do sonoro em É noite na América. Vamos destacar dois pontos: primeiro a trilha musical, composta por Guilherme Vaz, que consiste em um arranjo de trombone, tuba e percussão e que são executados vagarosamente. A tuba muitas vezes emite uma nota pedal, grave, que é circulada pelo trombone; o trombone em um dado momento é executado para emular uma trompa de caça. As peças têm uma textura abafada, desprovida de agudos, conferindo ao filme tons melancólicos e misteriosos por meio de escalas pouco convencionais ao sistema tonal ocidental; outro ponto é que, o filme de Ana Vaz é ocupado por murmúrios ruidosos e graves. São sons similares em altura, intensidade, frequência e timbre: ora é um trovão, ora é um avião atravessando um céu, ora um caminhão ou uma escavadeira, todos desacompanhados de seus referentes visuais. Eles ocupam o extracampo de tal forma que acabam por confundir a percepção habituada. Intuímos que há aí um esforço da diretora em produzir a desestabilização das relações que se fazem entre sons supostamente naturais e culturais. A última cena apresenta uma cachoeira, que de saída parece ser acompanhada de seu referente sonoro concreto. Mas, aos poucos, a ela soma-se outros rumores mais graves que não conseguimos distinguir quais são as fontes. Finalmente, os ruídos passam a ter agência narrativa no filme, não são meros room tone ou som ambiente, mas sim figuras sonoras, uma espécie de leitmotif das questões metafísicas que o filme propõe, inclusive o desmanche dos limites conceituais entre voz, música e ruído (Chion, 2008). Nossa hipótese sugere que justamente em traduções e alianças como estas é que uma sonoridade geológica toma forma.
Bibliografia
- ARAUJO, André.; LEITES, Bruno. Contra a utopia do visível: políticas e estéticas da noite no cinema de Ana Vaz. 33º Encontro Anual da Compós. Anais. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2024.
CASTANHEIRA, José. et al (Orgs.). Poderes do som: Políticas, escutas e identidades, Florianópolis: Insular livros, 2020.
CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.
DELEUZE, Gilles. Tornar audíveis forças não-audíveis por si mesmas. In: ______. Dois regimes de loucos. Textos e entrevistas. São Paulo: Ed. 34, 2016. P. 163-167.
HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. São Paulo: n-1 edições, 2023.
MOORE, Jason (Org.). Antropoceno ou capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo. São Paulo: Elefante, 2022.
OCHOA GAUTIER, Ana. El clima de lo sonoro. Preludios para un oído geológico. In: FREIRE, R. (Org.). La naturaleza de las humanidades. Para una vida bajo otro clima. Santiago: Mimesis, 20. p. 25-56.