Ficha do Proponente
Proponente
- Patrícia Lindoso de Barros (UFMG)
Minicurrículo
- Patrícia Lindoso é artista e pesquisadora, natural de Altamira (PA). Bacharel em Cinema de Animação (UFPel, 2014) e mestre em Artes/Cinema (UFMG, 2023). Atua no campo do audiovisual e das artes visuais, com ênfase em animação e produção cultural, desenvolvendo também práticas curatoriais em projetos e ações de difusão. Desde 2020, integra o grupo de pesquisa Mulher Anima, investigando a participação das mulheres na filmografia da animação brasileira.
Ficha do Trabalho
Título
- Animação experimental e interdisciplinaridade na trajetória artística de Helena Lustosa
Mesa
- Mulheres na animação no Brasil: formação, festivais e práticas experimentais
Resumo
- Esta pesquisa se propõe a analisar o trabalho da artista mineira Helena Lustosa, a partir de seus três curtas-metragens de animação autorais, realizados no Rio de Janeiro entre as décadas de 1980 e 1990. Considerando sua trajetória multidisciplinar, busca-se dar destaque à sua produção e investigar como sua inserção em circuitos artísticos e o diálogo com Hélio Oiticica tensionam os limites entre diferentes campos artísticos, resultando na animação como prática experimental e interdisciplinar.
Resumo expandido
- Esta pesquisa aborda a trajetória artística de Helena Lustosa na animação, considerando suas atuações em diferentes campos e verificando possíveis confluências com o viés experimental em sua produção como animadora. Busca-se analisar os elementos estilísticos, conteúdo e referências presentes nas três animações que integram sua filmografia, bem como mapear e investigar suas experiências como atriz, dançarina e artista plástica, ainda pouco documentadas, buscando compreender possíveis influências em suas realizações em animação.
Para uma breve contextualização histórica, em 1985, foi escrito o “Manifesto das Cineastas”, documento de cunho histórico em que as trabalhadoras do cinema brasileiro pleiteavam junto ao poder público a adoção de “medidas que combatessem as desigualdades de gênero e a hegemonia dos homens no meio cinematográfico” (SARMET; TEDESCO., 2018, p. 178). No mesmo ano foi criado o CTAv, pelo acordo de cooperação técnica entre a Embrafilme e o NFB do Canadá, podendo ser considerado um momento fundamental para a história da animação brasileira.
Nessa conjuntura, Helena Lustosa — nascida em Juiz de Fora, Minas Gerais, e radicada na cidade do Rio de Janeiro — iniciou seus experimentos em animação ainda no início dos anos 1980, influenciada pelos filmes do animador experimental Norman McLaren. De acordo com um depoimento da própria artista (LUSTOSA, 2021), ela começou a animar em casa, sozinha, usando régua, pinos, lápis, papel e mesa de luz, apenas com alguma orientação técnica de seu companheiro na época, que ministrava oficinas para crianças. Posteriormente, para realizar seus filmes, Helena também fez uso da estrutura disponibilizada pelo CTAv.
É possível pensar a obra de Helena como atravessada por questionamentos da simbologia cultural e social, que na lógica tradicional objetifica o corpo feminino. Dessa forma, esta pesquisa visa fundamentar a análise de que a cineasta leva para o desenho animado a bagagem de suas atividades como atriz e dançarina, colocando em contraponto alguns símbolos masculinos e femininos que permearam suas vivências.
Nesse sentido, conforme Blaetz (2007, p. 1), o destino da maioria dos filmes experimentais e de vanguarda é ficar de fora da história geral escrita sobre cinema, ainda que as mulheres tenham se destacado nos experimentos iniciais dessa forma de arte. Blaetz destaca que “tornou-se cada vez mais evidente que a sagacidade e a ironia não são elementos estranhos no cinema experimental feito por mulheres, mas talvez a característica mais onipresente de todas” (2007, p. 9).
Alguns fatores apontam que a matéria-prima para as experimentações de Helena na animação veio de suas próprias experiências e trocas ao transitar pelo mundo artístico do Rio de Janeiro das décadas de 1970 e 1980. Entre suas atividades nessa época, Helena foi dançarina no Teatro de Revista e participou também de filmes de Gilberto Loureiro, Ivan Cardoso, Júlio Bressane e Hélio Oiticica, em produções que são classificadas, em sua maioria, nos gêneros experimental, terror e documentário, mas também comédia, aventura e policial.
Nesse contexto, cabe destacar aqui a amizade e parceria criativa com o artista plástico Hélio Oiticica (1937–1980), tendo Helena participado de algumas realizações de Hélio, especialmente na época de suas proposições relacionadas a “experimentar o experimental” (OITICICA, 1972) e em que cria o conceito de “quasi-cinema” em parceria com Neville D’Almeida. Em meio às produções de Oiticica deste período está “Helena inventa Ângela Maria” (NY, 1975).
“Hélio me tratou como criadora”, relata Helena em entrevista sobre suas produções como cineasta (O GLOBO, 1999). Oiticica deixou anotações que constituem pistas fundamentais sobre a possível influência de seus processos criativos e experimentais na trajetória artística de Helena Lustosa, reverberando nos trabalhos dlea como animadora e em como passou a enxergar suas experiências criativas, moldando suas buscas em posteriores experimentações.
Bibliografia
- BLAETZ, R. (ed.). Women’s Experimental Cinema: Critical Frameworks. Duke University Press, 2007.
HELENA inventa Oiticica, Lygia Clark e Duchamps. O Globo, 30 jan. 1999. Caderno Ela, p. 2. Disponível em: https://portal.lygiaclark.org.br/acervo/4672/o-globo. Acesso em: 26 mar. 2024.
HOLANDA, K; TEDESCO, M. C. Feminino e plural: Mulheres no cinema brasileiro [livro eletrônico]. Campinas, SP: Papirus, 2018. — (Coleção Campo Imagético/coordenação Fernão Pessoa Ramos) 648 Kb; ePub. Bibliografia. ISBN 978-85-449-0303-2.
LUSTOSA, H. [Entrevista on-line para o grupo de pesquisa Mulher Anima]. Rio de Janeiro, maio. 2021.
OITICICA, H. Experimentar o experimental (1972). LACERDA, M; COHN, S. (ed.). Lisboa: oca, 2019.
SARMET, E; TEDESCO, M. C. Articulações feministas no cinema brasileiro nas décadas de 1970 e 1980. In: HOLANDA, K; TEDESCO, M. C. (org.). Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro. São Paulo: Papirus, 2017.