Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    GABRIEL PASSOS GONÇALVES CUNHA (UFBA)

Minicurrículo

    Graduando em Língua Estrangeira Moderna, com interesse em estudos culturais e cinema, e membro do VOLTA – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cinema Irlandês Contemporâneo. Desenvolve pesquisa sobre cinema de terror, identidade e representação, com ênfase no gótico e no pós-terror, vinculada ao estudo do cinema irlandês contemporâneo.

Ficha do Trabalho

Título

    Habitando o estranho: o gótico e o pós-terror em Oddity (2024), de Damian Mc Carthy

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Este trabalho propõe analisar Oddity (2024), de Damian McCarthy, no contexto do terror contemporâneo, investigando como o filme mobiliza elementos do gótico e do pós-terror para representar situações de violência no âmbito doméstico. A metodologia selecionada é análise de conteúdo, definida por Bardin (2011). O estudo parte da interpretação de elementos decompostos e categorizados da obra, com base em referenciais teóricos sobre gótico, pós-terror, e o cinema de terror contemporâneo.

Resumo expandido

    O presente trabalho propõe analisar o filme Oddity (2024), dirigido por Damian McCarthy, situando-o no campo do terror contemporâneo a partir das relações entre o gótico e o pós-terror. Parte-se da ideia de que o terror não se limita ao entretenimento, funcionando também como forma de expressão capaz de dar forma a tensões sociais, especialmente quando inscritas em espaços aparentemente ordinários, como o doméstico.
    A partir disso, o trabalho busca responder ao seguinte questionamento: como Oddity explora e atualiza elementos do gótico para representar violências no âmbito doméstico? O objetivo geral é, portanto, analisar o filme a partir dos eixos do gótico e do pós-terror, com foco na forma como o doméstico não apenas abriga, mas estrutura relações de tensão, funcionando como um espaço de confinamento e reprodução de violência. Nesse sentido, busca-se também observar como essas dinâmicas se articulam a representações de violência de gênero, especialmente quando o ambiente doméstico opera como instância de controle e silenciamento.
    No que se refere ao gótico, a análise se apoia em Fred Botting (1995), que o define como um modo marcado pelo retorno do reprimido e pela presença do estranho. A partir disso, o gótico é mobilizado como ferramenta para compreender como o filme constrói situações em que o familiar se torna inquietante, não por ruptura externa, mas pela erupção do que foi reprimido no passado. Em diálogo com essa perspectiva, mobiliza-se também a noção de “goticização do doméstico”, conforme discutida por Baniceru (2018), segundo a qual o gótico desloca o terror para o interior do espaço familiar, subvertendo seus valores de estabilidade e segurança. Nesse contexto, o doméstico deixa de operar como refúgio e passa a funcionar como um espaço atravessado por tensões, no qual o perigo emerge de dentro, revelando conflitos e violências preexistentes vindas daquilo que é familiar.
    Paralelamente, o trabalho mobiliza o conceito de pós-terror, conforme Steve Rose (2017), entendido como uma vertente contemporânea que desloca o foco do terror explícito para a construção de uma inquietação contínua. Em vez de se apoiar em eventos de choque ou na revelação direta da ameaça, o pós-terror opera por meio da ambiguidade e da ausência de uma resolução clara, produzindo um medo que se desenvolve de maneira gradual (Rose, 2017). Nesse sentido, o terror não se apresenta como ruptura imediata, mas como algo que se infiltra no cotidiano e se sustenta ao longo do tempo, muitas vezes sem se tornar plenamente visível ou explicável. Essa lógica aproxima-se do gótico tal como definido por Botting (1995), sobretudo na ideia de retorno do reprimido, e articula-se também com a noção do doméstico de Ana Cristina Baniceru (2018), na medida em que essa inquietação prolongada se inscreve no interior do ambiente familiar.
    Essa negociação entre gótico e pós-terror evidencia uma reconfiguração de elementos do gênero de terror. Permanecem centrais aspectos como o retorno do reprimido, a instabilidade do real e a construção do espaço como agente de tensão, agora reorganizados em chave mais contida e atmosférica. Nesse sentido, o gótico se mostra persistente no contemporâneo, especialmente na sua capacidade de expor aquilo que é silenciado, sobretudo quando ligado ao espaço doméstico e às relações de poder que o atravessam.
    Metodologicamente, a pesquisa adota a análise de conteúdo, conforme proposta por Laurence Bardin (2011), articulada à bibliografia dos autores mencionados. Dessa forma, o trabalho busca contribuir para a discussão do terror como um campo que permite pensar formas de violência e tensão social a partir de suas construções narrativas, com ênfase na centralidade do espaço doméstico como lugar de produção do terror.

Bibliografia

    BANICERU, Ana Cristina. Gothicizing Domesticity – The Case of Charlotte Perkins Gilman and Edgar Allan Poe. Romanian Journal of English Studies, v. 15, 2018.
    BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
    BARTON, Ruth. Irish cinema in the twenty-first century. Manchester: Manchester University Press, 2019.
    BOTTING, Fred. Gothic. Londres: Routledge, 1995.
    CROSSON, Seán. Aspects of Contemporary Irish Horror Cinema. Kinema: A Journal for Film and Audiovisual Media, 2012
    HOGLE, Jerrold. The Cambridge Companion to Gothic Fiction. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
    ODDITY. Direção de Damian McCarthy. Irlanda: Wildcard Distribution, 2024.
    PUNTER, David. The Literature of Terror: A History of Gothic Fictions from 1765 to the Present Day. Longman, 1980.
    ROSE, Steve. How post-horror movies are taking over cinema. The Guardian, 2017.
    SPOONER, Catherine. Contemporary Gothic. Reaktion Books, 2007.