Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Paulo Denor Brandão da Silva Filho (UFBA)

Minicurrículo

    Paulo Denor Brandão da Silva Filho é estudante de graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e participante do grupo VOLTA – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cinema Irlandês Contemporâneo, orientado pelo professor Dr. Sanio Santos da Silva. É bolsista PIBIC pelo mesmo grupo, onde pesquisa sobre cinema irlandês de terror e temas ligados à masculinidade, mais especificamente, o filme The Surfer (2024), de Lorcan Finnegan.

Ficha do Trabalho

Título

    Quem é o homem contemporâneo? A crise da masculinidade em The Surfer (2024), de Lorcan Finnegan

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    No cinema contemporâneo, temas relacionados à crise da masculinidade surgem em produções de diversos gêneros e em diferentes localidades. O objetivo deste trabalho é analisar o filme The Surfer (2024), de Lorcan Finnegan, apoiando-se em estudos sobre masculinidade, cinema de sotaque e cinema nacional da Irlanda. A metodologia utilizada é a análise de conteúdo (Bardin, 1977). Espera-se que esta pesquisa promova discussões multiculturais a partir da leitura crítica de um filme irlandês.

Resumo expandido

    The Surfer (2024), de Lorcan Finnegan, é um filme irlandês ambientado no litoral da Austrália. A história acompanha um homem que, motivado por uma idealização do passado e sentimentos de nostalgia, volta à praia idílica de sua infância, numa tentativa de resgatar sua estabilidade simbólica. Porém, o retorno é marcado por exclusão e violência, na medida em que o protagonista passa a ser alvo de um ritual de humilhação, organizado por um grupo localista de surfistas. Esses homens operam como uma seita, cometendo crimes e ameaçando constantemente o protagonista, cujo nome nunca é revelado. Ao longo da trama, ele é extirpado de marcadores sociais e passa a ser tratado como um pária, até demonstrar sua força por meio de atos violentos e da participação em rituais xamanísticos. Através da degradação física e simbólica do personagem, Finnegan parece tentar evidenciar o colapso do modelo masculino tradicional. Tais elementos dialogam com dinâmicas presentes nas atuais comunidades antifeministas, que propagam discursos que desafiam ideais progressistas sobre gênero e sexualidade. O filme se apresenta, aqui, como um espaço para o tensionamento de questões sociais e identitárias, sobretudo com representações de fenômenos da contemporaneidade.
    Transformações sociais, impulsionadas por movimentos feministas e pela consolidação de modelos neoliberais, têm produzido o que autores definem como crise da masculinidade. Para Michael Messner (1997), essas tensões não surgem devido a uma perda literal de poder, mas sim do colapso simbólico de um modelo masculino tradicional. Debbie Ging (2019) alerta para o surgimento de discursos antifeministas e narrativas conspiratórias que, de maneira deliberada, simplificam processos sociais complexos. Paralelamente, persistem na sociedade normas culturais que associam masculinidade à autossuficiência emocional e à negação da vulnerabilidade. Segundo Debra Agnew (2011), essa repressão afetiva limita a expressão emocional masculina, deslocando as demonstrações de afeto apenas para espaços legitimados, como esportes e militarismo. Ainda assim, tais alternativas se mostram insuficientes para alguns indivíduos diante do vazio existencial produzido pela modernidade (Han, 2015). Em resposta, alguns homens buscam sentido em ideais de transcendência e retorno às origens idealizadas. Essa lógica ganha mais popularidade com a criação de movimentos como o mito-poético nos anos 1970, que buscava reconectar o masculino a dimensões simbólicas e espirituais (Bly, 1990). Nos dias atuais, esses elementos são ressignificados em ambientes digitais, sobretudo em comunidades antifeministas da “manosphere”, onde a força, a valorização do sofrimento e a agressividade são exaltadas como ideais (Marwick; Caplan, 2018).
    Nesse cenário, o cinema se movimenta como espaço para exploração dessas inquietações. No contexto irlandês, essa dimensão é notável por sua natureza transnacional. Hamid Naficy (2001) propõe o termo cinema de sotaque, um conceito usado para classificar obras marcadas por deslocamento e pertencimento fragmentado. A narrativa não oferece soluções simplórias para a crise da masculinidade, mas a expõe como fenômeno estrutural que atravessa fronteiras nacionais. Desse modo, o presente trabalho busca responder à seguinte pergunta: como The Surfer tensiona as fronteiras do cinema nacional para representar a crise da masculinidade como fenômeno da contemporaneidade? O objetivo geral é analisar a obra de Finnegan, apoiando-se em estudos de gênero e masculinidade, cinema de sotaque e cinema irlandês. Ao articular cinema de sotaque e debates de gênero, a narrativa evidencia o potencial do cinema como espaço de reflexão sobre identidade e modernidade. A metodologia adotada é a de análise de conteúdo (Bardin, 1977). Por fim, espera-se que o trabalho suscite discussões a respeito da masculinidade no cinema, em especial no cinema irlandês, promovendo espaços de debate em contextos culturais e midiáticos.

Bibliografia

    AGNEW, Debra. Men and masculinity: a social, cultural, and historical encyclopedia. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2011.
    BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
    BLY, Robert. Iron John: a book about men. Reading: Addison-Wesley, 1990.
    GING, Debbie. Alphas, betas, and incels: theorizing the masculinities of the manosphere. Men and Masculinities, v. 22, n. 4, p. 638–657, 2019.
    HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
    MARWICK, Alice; CAPLAN, Robyn. Drinking male tears: language, the manosphere, and networked harassment. Feminist Media Studies, v. 18, n. 4, 2018.
    MESSNER, Michael. Politics of masculinities: men in movements. Thousand Oaks: Sage, 1997.
    NAFICY, Hamid. An accented cinema: exilic and diasporic filmmaking. Princeton: Princeton University Press, 2001.
    THE SURFER. Direção: Lorcan Finnegan. Produção: Brunella Cocchiglia, James Grandison, James Harris, Leonora Darby, Nicolas Cage, Robert Connolly. Londres: Vertigo Releasing, 2024.