Ficha do Proponente
Proponente
- Ignacio Del Valle Dávila (Unicamp)
Minicurrículo
- Professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É doutor em Cinema pela Escola Nacional Superior de Audiovisual (Universidade Toulouse 2). Realizou pesquisas de pós-doutorado na USP (bolsista FAPESP) e na Unicamp (bolsista PNPD-Capes) e foi professor visitante no IHEAL (Universidade Paris 3). É autor, entre outros livros, de Le nouveau cinéma latino-américain 1960-1974 (PUR, 2015) e Novo cinema latino-americano: uma rede de descolinização cultural (Papirus, 2025).
Ficha do Trabalho
Título
- Narrativas de refundação democrática no cinema chileno: Machuca (2004) e Cuerpo Celeste (2026)
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- A apresentação mobiliza o conceito de “narrativas de refundação democrática” para estudar dois filmes chilenos que, por meio do melodrama, representam a origem metafórica da democracia contemporânea. Essas obras articulam histórias íntimas e crises políticas, a fim de produzir uma reflexão sobre a memória nacional. A análise focaliza nos casos de Machuca (Wood, 2004) e Cuerpo Celeste (Ilic, 2026), examinando como relacionam rupturas políticas a processos de formação pessoal dos protagonistas.
Resumo expandido
- Nesta apresentação mobilizarei o conceito de “narrativas de refundação democrática” (Del Valle-Dávila, 2026) para analisar um conjunto de longas-metragens do Cone Sul que mobilizam os códigos do melodrama para descrever a origem das democracias contemporâneas na América Latina. Todas essas obras são ambientadas durante uma ditadura ou nos momentos imediatamente anteriores ou posteriores a ela; nelas, a história pessoal ou familiar dos personagens funciona como reflexão sobre a crise democrática e a necessidade de reconstruir ou refundar a comunidade nacional a partir de novos pactos sociais. Esse tipo de produção tem como um de seus marcos o lançamento do filme argentino A história oficial (Luis Puenzo, 1985) e está constituído por um corpus de filmes produzidos no Chile, na Argentina, no Brasil e no Uruguai desde o início das transições democráticas até o presente; dentre os quais caberia citar os argentinos Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002), O segredo de seus olhos (Juan José Campanella, 2009) e O prêmio (Paula Markovitch, 2011); os chilenos Machuca (Andrés Wood, 2004) e 1976 (Manuela Martelli, 2022); os brasileiros O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006), Deslembro (Flávia Castro, 2018) e Ainda estou aqui (Walter Salles, 2024); e os uruguaios Matar a todos (Esteban Schroeder, 2007) e Paísito (Ana Díez, 2008). Todos eles apresentam alguns traços comuns do ponto de vista estilístico e estrutural. Será dado especial destaque às relações dessas obras com o melodrama, em razão da capacidade das formas melodramáticas de produzir sentimentos de coesão social a partir de um relato emocional do passado, consolidando uma memória nacional marcada pelo sacrifício. Destacam-se também seus vínculos com processos de produção e legitimação transnacionais, em particular com sistemas europeus de coprodução e financiamento, assim como circuitos de festivais e premiações. Parte-se da constatação de que a elaboração desses filmes incide sempre em uma disputa pela consolidação de determinada interpretação do passado no tempo presente. Nesse sentido, interessa estudar os discursos sobre a memória democrática veiculados por esses filmes e suas estratégias de construção de formas cinematográficas do passado (De Baecque, 2008). Nesta apresentação focaremos nossa análise no estudo de duas narrativas de refundação democrática chilenas, Machuca (Andrés Wood, 2004) e Cuerpo Celeste (Nayra Ilic García, 2026). Nos interessa especificamente estabelecer como abordam dois momentos transicionais diferentes: a ruptura democrática, no primeiro caso (1973), e o fim pactado da ditadura (1990), no segundo. Também analisaremos como esses processos históricos estão relacionados, na ficção fílmica, com a chegada da puberdade dos protagonistas e o descobrimento da sexualidade. Embora estejam separados por mais de 20 anos, ambos os filmes estabelecem conexões estreitas entre processos de mudança de regime político e processos de descoberta pessoal dos adolescentes.
Bibliografia
- BROOKS, Peter. The Melodramatic Imagination : Balzac, Henry James, Melodrama, and the Mode of Excess. New Haven / London: Yale University Press, 1976.
DE BAECQUE, Antoine. L’histoire-caméra. Paris: Gallimard, 2008.
DEL VALLE DÁVILA, Ignacio. “Narraciones de refundación democrática en el cine latinoamericano”, Cinémas d’Amérique latine, n. 34, 2026, p. 124-137.
FERRO, Marc. Cinéma et historie. Paris: Gallimard, 1993.
NAPOLITANO, Marcos. “Aporias de uma dupla crise: História e memória diante de novos enquadramentos teóricos”. Sæculum – Revista de História (N° 39), 2018, p. 205-218.
OROZ, Silvia. Melodrama: o cinema de lágrimas da América Latina. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.
SOMMER, Doris, Ficciones fundacionales: Las novelas nacionales de América Latina Bogotá: Fondo de Cultura Económica, Marcial Pons, 2004.
XAVIER, Ismail, “Cinéma politique et genres traditionels: force et limites de la matrice mélodramatique”. Cinémas d’Amérique Latine, n. 1, 1993, p. 46-51.