Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mariana Lucas (UFF)

Minicurrículo

    Mariana Lucas é professora na FAAP e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema da UFF, na linha de pesquisa Histórias e Políticas, onde desenvolve a pesquisa “Entre o ‘Deserto Verde’ e o ‘Eldorado’: uma análise do discurso visual produzido durante o ‘milagre econômico’ brasileiro”. Mestre em História Social pela PUCSP, com a dissertação “Coordenadas de uma estética: uma análise de ‘Branco Sai, Preto Fica’ (2014) e ‘A Cidade é Uma Só?’ (2011) de Adirley Queirós”.

Ficha do Trabalho

Título

    Arquivo, violência e reinscrição: entre corpo e território

Seminário

    Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens

Resumo

    A comunicação investiga o gesto anarquivador (Seligmann-Silva, 2023) em Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, a partir da reinscrição de uma sequência de Transamazônica – Uma realidade (1971). Ao deslocá-la, o filme tensiona o regime visual desenvolvimentista da ditadura e expõe violências e altericídios inscritos nessa imagética. Analisa-se como essa operação transforma a imagem em contra-arquivo, ativando disputas em torno da memória e da história da Amazônia.

Resumo expandido

    A presente comunicação propõe investigar o gesto anarquivador (Márcio Seligmann-Silva, 2023, p. 2) em “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci, a partir da análise da reinscrição de uma imagem proveniente do documentário institucional “Transamazônica – Uma realidade” (1971) de Isaac Rozemberg. Trata-se da primeira imagem de arquivo mobilizada no filme, inserida na abertura, o que lhe confere um papel estruturante na economia narrativa e crítica da obra.

    Produzido no contexto da ditadura civil-militar brasileira, “Transamazônica – Uma realidade” inscreve-se na tradição dos documentários institucionais vinculados ao projeto desenvolvimentista. No entanto, mais do que uma simples peça de propaganda, o filme pode ser compreendido à luz da noção de “circuito visual implicado”. Financiadas pela construtora Mendes Júnior, tais produções evidenciam o fomento a um novo ciclo da cavação (GALVÃO, 1975; SOUZA, 2007; BERNARDET, 2009), intensificado pela modernização conservadora e autoritária das décadas de 1960 e 1970, configurando uma zona de indistinção entre Estado, mercado e mídia.

    A sequência analisada apresenta uma imagem de forte impacto: trabalhadores emergem de uma estrutura escavada em uma árvore, como se brotassem de uma floresta já domesticada pela intervenção técnica. A narração que acompanha a cena — “é capaz de abrigar das intempéries três dezenas de operários” — fixa o sentido da imagem ao inscrevê-la no regime utilitário da produção.

    Gesto que pode ser compreendido como anarquivador: ao deslocar a sequência de seu contexto original e reinscrevê-la em outra economia narrativa e política, o cineasta tensiona seus sentidos estabilizados. Nesse sentido, Clarisse Alvarenga defende que os corpos só são passíveis de subjetivação quando compreendidos como extensão do território; do mesmo modo, as histórias das diferentes comunidades integram uma mesma cosmologia que articula terra, corpo e memória. Cindi-los constitui um gesto de violência: uma negação das alteridades.

    Assim, o filme de Tonacci parte dessa imagem como operador anarquivador para narrar o impasse de Carapiru: não apenas porque transfigura o símbolo da Transamazônica, que se impõe como marco histórico da depredação do território amazônico, mas também porque, na própria imagem, a cisão entre o corpo do trabalhador precarizado e o território instrumentalizado se configura como uma alegoria, ao mesmo tempo trágica e grotesca, do Brasil contemporâneo.

    Nesse sentido, a comunicação busca compreender como o gesto de reapropriação realizado por Tonacci ativa o arquivo não como repositório cristalizado, mas como campo de disputa em aberto. Aproximando-se de perspectivas teóricas que pensam o arquivo em sua dimensão política e processual, interessa analisar como a montagem produz um deslocamento crítico, transformando a imagem em um contra-arquivo que interroga as narrativas hegemônicas da história.

    Ao privilegiar uma imagem específica como operador analítico, a proposta pretende contribuir para o debate sobre práticas de reuso e reinscrição de imagens no cinema brasileiro contemporâneo, evidenciando como tais operações podem desestabilizar regimes visuais consolidados e abrir espaço para outras formas de narrar e imaginar a história.

Bibliografia

    ALVARENGA, Clarisse. O caminho do retorno: o cinema feito pelas cineastas ameríndias. In: HOLANDA, Karla (org.). Cinema de mulheres. Rio de Janeiro: Numa, 2019.
    BLANK, Thais Continentino; MACHADO, Patricia Furtado Mendes. Em busca de um método: entre a estética e a história de imagens domésticas do período da ditadura militar brasileira. Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 43, n. 2, p. 169-183, maio/ago. 2020.
    DIDI-HUBERMAN, Georges. Esparsas: viagem aos papéis do Gueto de Varsóvia. Tradução de Vera Casa Nova. 1. ed. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2020
    _______________________. Imagens apesar de tudo. Tradução de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2021
    CAETANO, Daniel (org.). Serras da desordem. São Paulo: Azougue Editorial, 2008.
    SELIGMANN-SILVA, Márcio. Walter Benjamin e a guerra de imagens. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2023.
    SELIPRANDY, Fernando. Circuito audiovisual implicado: apoio do empresariado à ditadura b