Ficha do Proponente
Proponente
- David Ken Gomes Terao (Sem vínculo)
Minicurrículo
- David Ken Gomes Terao é doutor em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tendo desenvolvido, com bolsa FAPESP, pesquisa sobre a articulação entre lutas por reconhecimento e melodrama no cinema contemporâneo brasileiro. É mestre na mesma instituição com pesquisa sobre o melodrama no cinema de Christian Petzold. Possui diversos textos e artigos publicados em periódicos e livros, dentre eles “Campinas, 100 anos de cinema”.
Ficha do Trabalho
Título
- Leituras excessivas: autoria melodramática em adaptações literárias brasileiras
Mesa
- Melodramas Cinematográficos no Brasil
Resumo
- Entendendo a permanência do melodrama no cinema brasileiro através de sua apropriação enquanto modo narrativo por cineastas autores, esta comunicação analisa como uma das formas mais contundentes de tal autoria melodramática se dá a partir da apropriação de seus códigos excessivos na adaptação de romances brasileiros, a partir do exemplo de filmes como Toda nudez será castigada (Arnaldo Jabor, 1972), Inocência (Walter Lima Jr, 1983), O viajante (Paulo César Saraceni, 1999), dentre outros.
Resumo expandido
- No artigo “O melodrama no cinema brasileiro: uma análise a partir dos conceitos de gênero e modo”, apresento minha hipótese, decorrente da minha pesquisa de doutorado, de que a presença do melodrama no cinema brasileiro se deu menos no sentido de uma consolidação de um gênero cinematográfico e mais pelo interesse de cineastas autores nas suas matrizes narrativas. Apresentando o fato de que no período de estúdios isso se observa pelo caráter secundário do gênero no número de produções em relação às chanchadas, observo que por outro lado sua presença se dá especialmente concentrada na obra de cineastas-autores como Humberto Mauro, Gilda de Abreu e José Carlos Burle. Argumento que esse padrão pode ser percebido após o fim do ciclo dos estúdios na década de 1950 em produções do Cinema Novo em que se observa o excesso melodramático em momentos pontuais ou mesmo em toda a sua narrativa, demonstrando a permanência das matrizes do melodrama mesmo nos cinemas mais políticos e aparentemente opostos a elas.
Visando o aprofundamento desta discussão, parto de um ponto comum observado em uma série de filmes realizados por cineastas da geração cinemanovista: o fato de serem adaptações de romances brasileiros e trazerem na forma fílmica elementos fundamentais da estética melodramática tais como a presença de monólogos, a forte simbolização moral e emocional a partir de elementos de décor, da natureza e da caracterização de personagens. É o caso do que já observei na minha tese de doutorado a partir de Toda nudez será castigada (Arnaldo Jabor, 1972), Inocência (Walter Lima Jr, 1983) e O viajante (Paulo César Saraceni, 1999), mas também de obras posteriores como Lavoura arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001) e A vida invisível (Karim Aïnouz, 2019).
Em seu livro Melodrama – o gênero e sua permanência, Ivete Huppes (2000) faz certo movimento inaugural de mapear as matrizes melodramáticas no teatro brasileiro escrito por autores românticos a partir de 1830. Partindo de uma análise das formas do melodrama enquanto gênero teatral, a autora analisa peças como Antônio José ou o Poeta e a Inquisição, de José Gonçalves de Magalhães (1838) e Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias (1846) para observar como os chamados “dramas históricos” foram transpostos para o teatro brasileiro a partir de temas do romantismo como as tramas amorosas e as questões de direito que atravessavam os personagens, em uma dramaturgia espelhada no melodrama.
Similarmente ao trabalho desenvolvido por Huppes, tem-se como objetivo partir da análise dos filmes-adaptação frente ao romances que lhes forneceram o material original para, em caráter inicial, analisar como elementos romanescos destas obras foram reapropriados como formas de excesso narrativo nos termos observados por Mariana Baltar (2012 e 2016) como processos reiterativos – obviedade, simbolização exacerbada e antecipação – ou atrações. Compreende-se assim que pela relação cinema-literatura pode-se começar a efetivamente compreender de que forma tal posição do cineasta-autor a favor das matrizes de excesso do melodrama é o que de fato determina a permanência do modo em nosso cinema.
Bibliografia
- BALTAR, Mariana. “Tessituras do excesso: notas iniciais sobre o conceito e suas implicações tomando por base um Procedimento operacional padrão”. Significação: revista de cultura audiovisual, v. 39, n. 38, julio-diciembre, 2012, p. 124-146
HUPPES, Ivete. Melodrama. O gênero e sua permanência. SP, Ateliê Editorial, 2000.
LIMA, Livia Azevedo. Trilogia da Paixão: Paulo Cezar Saraceni leitor de Lúcio Cardoso. 2022. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.
STAM, Robert. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. Ilha do Desterro: A Journal of English Language, Literatures in English and Cultural Studies, v. 0, n. 51, 30 abr. 2006.
TERAO, David Ken Gomes. O Melodrama no Cinema Brasileiro: uma análise histórica a partir dos conceitos de Gênero e Modo. A barca, v. 2, p. 72, 2024.
XAVIER, Ismail. O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, cinema novo, Nelson Rodrigues. SP, Cosac e Naify, 2003.