Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    André Cury (USP)

Minicurrículo

    André Cury é mestrando em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e bacharel pela mesma instituição. Trabalha com montagem e pós-podução, com foco especial em documentários. Desenvolve pesquisas sobre cinema indiano contemporâneo.

Ficha do Trabalho

Título

    Do fatalismo à utopia: a representação espacial da favela em “Cidade de Deus” e “Kaala”

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    A pesquisa propõe uma análise comparativa da representação espacial da favela nos filmes “Cidade de Deus” (2002) e “Kaala” (2018). Tomando como ponto de partida a influência declarada do filme brasileiro sobre a trajetória artística do diretor Pa. Ranjith, o trabalho busca investigar como a representação fílmica da favela brasileira enquanto produto consumível para um público global é absorvida e transmutada pelo cineasta indiano, modificando os sentidos políticos dados aos espaços retratados.

Resumo expandido

    Em uma entrevista concedida em 2020, o cineasta indiano Pa. Ranjith declarou que “Cidade de Deus” (2002, Fernando Meirelles e Kátia Lund) é um dos filmes que mais o influenciaram enquanto artista. Ranjith é uma figura central de um movimento cinematográfico recente no cinema indiano que tem sido nomeado como um “cinema Dalit”. Essa tendência tem se caracterizado por uma forte perspectiva política anti-castas, pelo protagonismo de artistas Dalits (grupo mais subalternizado no sistema de castas), e também pela experimentação formal no campo do cinema popular-comercial indiano, buscando construir uma “estética anti-castas” (EDACHIRA, 2020). O trabalho se propõe a explorar a hipótese de que uma das referências para essa experimentação é o cinema latino-americano, em particular, dois momentos em que esse cinema ganhou muita projeção internacional: a chamada “buena onda”, nos anos 90 e 2000, e o Terceiro Cinema, nos anos 60 e 70. Procuraremos aprofundar essa ideia a partir da análise comparativa da representação espacial da favela nos filmes “Cidade de Deus” e “Kaala” (2018, Pa. Ranjith).
    Se podemos ver uma clara influência de “Cidade de Deus” em “Kaala” na maneira como ambos buscam uma representação a um só tempo realista, pop e vibrante das respectivas favelas retratadas (Cidade de Deus e Dharavi, em Mumbai), bem como no diálogo com códigos de gênero dos filmes de gângster, também é possível ver diferenças muito grandes nessas representações. Buscaremos compreender como o retrato fragmentado, claustrofóbico, sombrio e fatalista da Cidade de Deus – “o espetáculo consumível dos pobres se matando entre si” (BENTES, 2007) – se transmuta em uma Dharavi colorida, aberta, composta por enquadramentos sempre cheios de gente disposta a celebrar e defender seu território. Assim, partiremos da análise de Lúcia Nagib, que vê em “Cidade de Deus”, uma “utopia interrompida” na história de um cinema brasileiro muito marcado por imagens utópicas, ao mesmo tempo em que situamos o filme como o exemplo máximo, no Brasil, do “cosmopolitismo periférico” (PRYSTHON, 2022), uma tendência cinematográfica transnacional muito vinculada à América Latina que, no início da década de 2000, fez circular muito um certo tipo de representação pop do periférico, apta a ser consumida globalmente, e marcada por uma estética tipicamente pós-moderna. “Kaala”, ao mesmo tempo que absorve elementos dessa tendência, tensiona alguns de seus pressupostos vinculados à pós-modernidade, na medida em que encena uma luta de viés coletivo e utópico muito associada ao Terceiro Cinema. Mais que isso, traz essas referências para dentro do “Massala” – expressão para filmes indianos que combinam comédia, ação, melodrama, romance e musical em uma única obra – e para o universo simbólico do icônico ator Ranjinikanth.
    Procuraremos entender como essa complexa teia de trocas e influências estéticas transnacionais que conecta “Cidade de Deus” e “Kaala” se manifesta na construção de seus respectivos espaços, produzindo diferentes sentidos políticos. Para isso, analisaremos os aspectos formais de cada obra, a fim de compreender como cada escolha estética contribui para a criação retratos espaciais específicos da Cidade de Deus e de Dharavi, vinculados ao contexto de produção de cada um dos filmes. Além disso, buscaremos situar essa construção espacial no polo utopia-distopia – duas pulsões muito fortes em ambos os filmes, e que também marcam a história do cinema brasileiro. Utilizaremos, ainda, o conceito de heterotopia, proposto por Michel Foucault, para traduzir os anseios políticos e estéticos das obras para o plano espacial-geográfico. Dessa maneira, buscaremos estabelecer pontos de contato entre dois cinemas que raramente são pensados em conjunto, mas que possuem diversas afinidades, especialmente, no que tange o escopo deste trabalho, as contradições, desigualdades e violências que marcam seus respectivos espaços urbanos e que são temas de ambos os filmes.

Bibliografia

    BENTES, Ivana. Cosmética da miséria: cinema, estética e política. Revista Alceu, v. 8, n. 15, p. 255–266, 2007.
    EDACHIRA, Manju. Dalit Aesthetics and Anti-Caste Visuality: Towards a Dalit Film Theory. Journal of Creative Communications, v. 15, n. 1, p. 45–58, 2020.
    EKOTTO, Frieda; KOH, Kenneth W. (orgs.). Rethinking Third Cinema: The Role of Anti-Colonial Media and Aesthetics in Postmodernity. Berlin: LIT Verlag, 2009.
    FOUCAULT, M. “Outros espaços”. In: MOTTA, M.B. (org.). Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema / Ditos e Escritos III. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2009, p. 411-422.
    HARVEY, D. Condição Pós-moderna: um estudo sobre a mudança cultural. São Paulo: Loyola. 2014.
    NAGIB, Lucia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
    PRYSTHON, Angela. Retratos das margens: do terceiro cinema ao cinema periférico. Campinas: Pontes Editores, 2022.