Ficha do Proponente
Proponente
- Patrícia Araujo Vasconcelos (ECA – PPGAC)
Minicurrículo
- Patrícia Araujo é artista, pesquisadora e professora no curso de Bacharelado em Audiovisual do Senac SP desde 2017. Doutoranda em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, pesquisa a presença e performatividade do elemento água como entidade conceitual e material na construção de filmes dirigidos por mulheres. Mestra em Artes Visuais pela ECA-USP, realizou, em 2024, o curso de montagem cinematográfica de ficção na EICTV, em Cuba.
Ficha do Trabalho
Título
- Hidrofeminismo e transcorporalidade em Solon, de Clarissa Campolina
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- A proposta tem como objetivo mobilizar o conceito de hidrofeminismo, desenvolvido por Astrida Neimanis, como lente analítica para investigar aspectos formais, sensoriais e imagéticos do curta-metragem Solon (2016), de Clarissa Campolina. Busca-se compreender de que modo o elemento água atua para a construção de uma estética que desafia lógicas antropocêntricas, numa narrativa não verbal que acompanha a transmutação do corpo de uma criatura monstruosa na forma humana de uma mulher.
Resumo expandido
- Esta proposta tem como objetivo mobilizar o conceito de hidrofeminismo, desenvolvido pela teórica cultural Astrida Neimanis, como lente analítica para investigar aspectos formais, sensoriais e imagéticos do curta-metragem Solon (2016), de Clarissa Campolina. Busca-se compreender de que modo a obra constrói uma estética e uma sensorialidade aquosas, capazes de abrir espaço para a imaginação de existências não humanas e de experiências que desviam de lógicas antropocêntricas.
No artigo Hydrofeminism: Or, On Becoming a Body of Water (2012), Neimanis propõe que todos somos “corpos de água” e que, enquanto seres de água, nossas experiências são — ou pelo menos deveriam ser — orientadas por lógicas menos lineares e isoladas e mais implicadas numa circulação complexa e fluida. A autora compreende o elemento água como um ponto de conexão entre diferentes escalas de vida, uma entidade material e conceitual capaz de ampliar e descrever experiências corporais para além do humano.
A corporeidade aquosa é algo que vivenciamos e, como tal, também pode ser acessada, amplificada e descrita por meio das imagens cinematográficas. Segundo Neimanis, todos os corpos possuem reservatórios por onde são tocados e que a água, em outras palavras, flui através da diferença, criando ambientes propícios para mudar de forma. Imaginarmo-nos como corpos de água configura um convite à romper com a ilusão de um corpo organizado por fronteiras aparentemente protegidas pela pele — que isola e separa nosso sistema hidráulico interior — e perceber que, continuamente, o corpo rompe com essa membrana cutânea e transborda em outras vidas, fluidos e formas.
Estados de dissolução-inundação tornam-se particularmente visíveis em Solon, obra que produz imagens-linguagem em devir aquoso, nas quais a metáfora da água sustenta uma fábula construída a partir do encontro entre uma paisagem árida e uma criatura misteriosa — meio aranha, meio inseto, meio pedra, meio humano — que lentamente performa a transmutação de um corpo antropomórfico na forma humana de uma mulher. Filmado em 16mm, o curta articula uma série de imagens que exploram o elemento água em diferentes qualidades e intensidades: quando Solon verte água por suas extremidades; quando a chuva invade a paisagem e se converte em lama, da qual a personagem rompe sua pele-invólucro revelando seus traços humanos; ou na aparição do mar caudaloso que encerra o filme. Essas irrupções marcadas pela presença da água parecem conduzir simultaneamente a transformação do corpo e da paisagem em cena, evidenciando seu caráter indissociável.
Diante desse contexto, a proposta busca investigar quais elementos visuais, sonoros e narrativos são mobilizados para a construção de uma possível estética hidrofeminista na obra em análise.
Em meio a ruínas líquidas, a narrativa não verbal de Solon constrói uma atmosfera que transborda em sentidos e sensações que dialoga com Neimanis em Bodies of Water: Posthuman Feminist Phenomenology: “um corpo aquoso se agita e vaza, excreta e transpira. Suas profundezas borbulham, irrompem” (NEIMANIS, 2017, p. 46). Nesse sentido é possível identificar no filme o que a autora denomina como corpo d’água: um corpo que não se encerra no tecido epitelial, mas o ultrapassa, estendendo-se transcorporalmente para além do humano.
Bibliografia
- CAMPOLINA, Clarissa. Solon. Direção: Clarissa Campolina. Minas Gerais: Anavilhana, 2016. Filme.
LE GUIN, Ursula K. A ficção como cesta: uma teoria. In: Dancing at the Edge of the World: Thoughts on Words, Women, Places. Tradução: Priscilla Mello. New York: Grove Press, 1989.
NEIMANIS, Astrida. Hydrofeminism: Or, On Becoming a Body of Water. In: GUNKEL, Henriette; NIGIANNI, Chrysanthi; SÖDERBÄCK, Fanny (orgs.). Undutiful Daughters: Mobilizing Future Concepts, Bodies and Subjectivities in Feminist Thought and Practice. Nova York: Palgrave Macmillan, 2012.
————————– Bodies of Water: Posthuman Feminist Phenomenology. London: Bloomsbury Academic, 2017.