Ficha do Proponente
Proponente
- Rodrigo Cássio Oliveira (UFG)
Minicurrículo
- Professor adjunto de cinema do curso de Comunicação (Publicidade e Propaganda) da Universidade Federal de Goiás (UFG), onde atua no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) com orientações de mestrado e doutorado na área. Doutor em Estética e Filosofia da Arte (UFMG, 2014) com pós-doutorado pela Universidade de Pisa (Itália, 2019).
Coautor
- Carolina de Souza Verri (UFG)
Ficha do Trabalho
Título
- Análise estilística de filmes produzidos integralmente por IA na seleção da mostra SINTÉTICO 2026
Resumo
- Analisamos filmes da 1ª Mostra Sintético de filmes feitos inteiramente com Inteligência Artificial, buscando padrões do discurso cinematográfico a partir de uma abordagem neoformalista (Thompson, 1988). Observou-se diálogo com tradições estilísticas da história do cinema (Erickson, 2024; Danto, 2019), com forte adesão a gêneros (Schatz, 1981). O corpus oscila entre narratividade clássica e experimentação, revelando tensões entre convenções e inovação (Martínez-López; Salvadó-Romero, 2025).
Resumo expandido
- Empregamos análise fílmica para compreender o estilo dos filmes da 1ª MOSTRA SINTÉTICO, organizada por membros da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG. A curadoria fez pesquisa ativa por filmes feitos inteiramente com imagens de inteligência artificial (ou seja, sem o processo de filmagem) e selecionou obras dos EUA, da Alemanha, do Canadá e da Espanha.
Analisaremos, em conjunto, os filmes Hell´s Cemetery (2024), de Jacob Devine, Total Pixel Space (2025) e The Golems of Ostroleka (2024), de Jacob Adler, Antonomasia (2025), de Yza Voku, The Cinema That Never Was (2025), de Mark Wachholz, The Crow (2021), de Glenn Marshall, The Adventures of Reemo Green (2025) de David Stone e Joel Begleiter, The Colorless Man (2025), de Hashem Al-Ghaili e Ava (2025), de Daniel Titz. Para além de um olhar para o conjunto, discutiremos estratégias específicas de alguns filmes para detalhar a análise.
O objetivo é identificar padrões de construção do discurso cinematográfico no conjunto de filmes segundo uma abordagem neoformalista, a qual prioriza a autonomia do objeto analisado no direcionamento da própria análise. Essa abordagem ajusta as hipóteses e a metodologia de modo que os próprios filmes indiquem a existência de padrões do discurso cinematográfico no conjunto analisado (Thompson, 1988).
Interessa-nos entender o estado de desenvolvimento da linguagem do cinema de IA, que é uma técnica em forte ascensão (Erickson, 2024). Observamos aproximações dos filmes com poéticas ou escolas consolidadas na história do cinema, o que reflete o modo pelo qual novas tecnologias são inseridas nas práticas artísticas. Revisitamos, assim, o debate ocorrido na história e na filosofia da arte sobre como as linguagens artísticas se atualizam no tempo (Danto, 2019; Aumont, 2008).
Verificamos forte adesão às normas de gêneros do cinema, tanto nos temas como nas convenções estilísticas, com presença de: 1) Ficção científica (Ava, Antonomasia, The Adventures of Reemo Green); 2) Terror (Hell’s Cemetery); 3) Falso documentário (The Golems of Ostroleka e The Colorless Man); 4) Filme-ensaio (Total Pixel Space, The Cinema That Never Was). Por gêneros entendemos os sistemas formais cujas normas organizam componentes da estrutura como enredo, personagens, cenários etc.(Schatz, 1981, p. 16).
Em relação à narratividade, separamos o corpus em dois grupos: um que se aproxima mais das convenções do cinema de narrativa clássica, e outro que se afasta em busca de experimentação.
No primeiro grupo estão The Colorless Man e The Adventures of Reemo Green, pois ambos empregam recursos de continuidade e causalidade narrativa, além de demonstrarem preocupação com a transparência da montagem. The Adventures of Reemo Green faz referência intertextual explícita a Star Wars, inserindo-se no universo ficcional da franquia como como um spin off.
The Golems of Ostroleka e Ava são casos intermediários. No primeiro, a montagem e a estrutura da narrativa seguem o padrão documental expositivo clássico. Apesar das imagens serem estáticas, elas ilustram a narrativa de forma direta. Já o segundo segue as convenções de linguagem narrativa e estilística (continuidade, causalidade), mas se assemelha mais a um trailer do que a um curta metragem.
No grupo de filmes que se aproxima da experimentação há rupturas com a continuidade e a transparência clássicas (Antonomasia, Hell’s Cemetery, The Cinema That Never Was e The Crow). Em Antonomasia, por exemplo, observa-se uma quebra da continuidade na caracterização dos personagens e até mesmo variações de estilo incomuns no classicismo, com planos que oscilam entre a estética do cartoon, a modelagem 3D e o desenho realista.
Na conclusão, levantamos perguntas sobre como o conjunto de filmes demonstra as tensões entre a manutenção das convenções de linguagem do cinema e as possibilidades atuais de criação com imagens generativas, em diálogo com pesquisas similares desenvolvidas no presente (Martínez-López; Salvadó-Romero, 2025).
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. Moderno? Como o cinema se tornou a mais singular das artes. Campinas (SP): Papirus Editora, 2008.
DANTO, Arthur C. O descredenciamento filosófico da arte. Tradução: Rodrigo Duarte. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.
ERICKSON, Kristofer. AI and work in the creative industries: digital continuity or discontinuity?. Creative Industries Journal, [s. l.], v. 17, n. 3, p. 1-18, 2024. DOI: https://doi.org/10.1080/17510694.2024.2421135. Acesso em: 24 abr. 2026.
MARTÍNEZ-LÓPEZ, Carolina; SALVADÓ-ROMERO, Alan. Early aesthetics of cinema made with generative AI: the context of the +RAIN Film Fest. Hipertext.net, [s. l.], n. 31, p. 115-141, 2025. DOI: https://doi.org/10.31009/hipertext.net.2025.i31.11.
SCHATZ, Thomas. Hollywood Genres: formulas, filmmaking, and the studio system. 1st ed. New York, N.Y: Random House, 1981.
THOMPSON, Kristin. Breaking the glass armor: neoformalist film analysis. Princeton: Princeton University Press, 1988.