Ficha do Proponente
Proponente
- Davi Tadeu Francisco Ponce (UAM)
Minicurrículo
- Mestrando do PPGCOM-UAM sob orientação do Prof. Dr. Fábio Uchôa, com bolsa CAPES/PROSUP. Na graduação (UAM), realizou iniciação científica com a Profa. Dra. Sheila Schvarzman, publicada na revista ANAGRAMA. Apresentou a pesquisa no VIII Eneimagem/Eieimagem (UEL) e na I Jornada Discente Extracampo, onde também organizador. Participou da IV Jornada Extracampo (2025), do XII Seminário “Cinema em Perspectiva” (Unespar/UFPR), do XI COCAAL e de eventos internacionais nas áreas de arquivo e memória.
Ficha do Trabalho
Título
- O cinema e as cartas das leitoras-colaboradoras da revista “A Cigarra” nas edições de 1917
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Esta pesquisa investiga o cotidiano e a sociabilidade presentes nas exibições cinematográficas durante o período do cinema silencioso em São Paulo a partir das cartas que compõem a coluna “Collaboração das leitoras” (1915-1933) da revista “A Cigarra” (1914-1975) nas edições de 1917. Desse modo, somos colocados diante da dinâmica social existente e da perspectiva das mulheres que frequentavam o cinema no período com a intenção de ver, mas também de serem vistas.
Resumo expandido
- O cotidiano e a sociabilidade existentes durante o cinema silencioso brasileiro em São Paulo podem ser cotejados a partir da relação entre o cinema e a imprensa periódica do período, sobretudo por colunas em que acontecem colaborações de leitores. Para o desenvolvimento deste projeto foi escolhida a revista feminina “A Cigarra” (1914-1975), mais especificamente a coluna “Collaboração das leitoras” (1915-1933) nas edições de 1917. Essas colaborações aconteciam por meio de cartas enviadas para a sede da revista e possuíam relatos de experiências cotidianas, dentre elas a experiência de sociabilidade existente nas exibições cinematográficas do período na cidade de São Paulo.
A partir da análise dessa coluna, somos colocados diante da perspectiva feminina a respeito da dinâmica social da época e como o espaço de exibição cinematográfica incluía-se nisso. Resgatar esses escritos, permite-nos cotejar a lógica do acesso ao cinema que deve ser pensado e questionado de modo a entendermos quem realmente frequentava as exibições cinematográficas. Concomitantemente, os relatos das leitoras-colaboladoras nos permitem ampliar a visão que temos sobre o cinema do período e cotejar diferentes narrativas ligadas à experiência espectatorial feminina. À luz de que entrevistar essas mulheres não seja mais viável, o material estudado torna-se ferramenta para que possamos resgatar e ampliar a historiografia sobre cinema silencioso brasileiro.
O estudo da cotidianidade que propomos aqui coloca-se como fronteira social, histórica e cultural. Por isso, buscamos conceituá-lo a partir de Lefebvre quanto à produção e reprodução da vida social e de Chartier, ligado à redescoberta de gestos esquecidos e hábitos desaparecidos. Trata-se de uma complementaridade que nos ajuda a entender a sociedade que as leitoras-colaboradoras habitavam e como as cartas delas nos revelam a visão delas sobre o cinema.
Embora tenhamos como foco as cartas publicadas durante o ano de 1917, é preciso entender que a coluna cobre um período que se estende do final da década de 1910 até o começo da década de 1930. Desse modo, o recorte proposto evidencia uma dinâmica social que não se restringe ao cinema silencioso, mas compreende a transição para o cinema sonoro, estudo que muitas vezes acaba por ser negligenciado pela dificuldade do acesso e pela abordagem focada nos períodos separadamente. Portanto, pautamo-nos por uma ideia de continuidade existente, sobretudo diante dos espaços de exibição cinematográfica e a sociabilidade existente que acabam por privilegiar a intermidialidade entre cinema, teatro e imprensa.
Logo, ao promover o resgate do cotidiano da época, zelamos por não reproduzir apenas a história estritamente registrada, aquela escrita, fotografada e até filmada por quem detém o poder. Nesse sentido, apoiamo-nos em Carlos Roberto de Souza que ao refletir sobre o que é veiculado na imprensa, entende que existe um “viés ideológico” baseado no interesse da classe social que comanda a imprensa. Essa análise o levará a afirmar: “O cotidiano não é notícia.” e a propor uma necessidade de “utilizar as informações como indícios do que não é informado”.
Consequentemente, é preciso considerar que as as exibições cinematográficas narradas acontecem, sobretudo, nos chamados cineteatros muito ligados à lógica de “espetáculos de palco e tela”, expressão usada por Luciana Araújo. Trata-se de entender a formação dos programas e como criaram uma atmosfera caracterizante. A intermidialidade existente nesses espaços já foram tratadas pela autora a partir de um viés historiográfico e que entende a exibição como espetáculo, evidenciando os elementos entre o cinema e o teatro. Por isso, busca-se entender a experiência de espectatorialidade a partir de uma visão de experiência (Erfahrung) proposta por Benjamin que envolve não apenas a vivência individual, mas também toda a dinâmica social. Portanto, questionamos o cinema, a imprensa e o teatro como mídias que coexistem e se influenciam.
Bibliografia
- ARAÚJO, Luciana Côrrea de. “Cinema como evento”: atrações de palco e tela no Cineteatro Santa Helena em São Paulo (1927). Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo, v. 45, n. 49, p. 19-38, jan./jun. 2018.
CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados, São Paulo, v. 5, n. 11, p. 173-191, maio/ago. 1991.
CIGARRA, A. Collaboração das leitoras. A Cigarra, São Paulo, 1917-1933.
LEFEBVRE, Henri. A vida cotidiana no mundo moderno. Tradução de Alcides João de Barros. São Paulo: Ática, 1991.
MATOS, Hivana Mara Zaina de. A revista A Cigarra no espaço urbano: 1914-1934.
SCHVARZMAN, Sheila. Ir ao cinema em São Paulo nos anos 20. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 25, nº 49, p. 153-174 – 2005.
SOUZA, Carlos Roberto de. Orquestras e vitrolas no acompanhamento do espetáculo cinematográfico silencioso brasileiro: o caso do cinema Triângulo, um saco de pancadas exemplar. REBECA – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 1, p. 257–285, 2014.