Ficha do Proponente
Proponente
- Laura Souza Pereira (UNICAMP)
Minicurrículo
- Laura Pereira é doutoranda em Multimeios, na Universidade Estadual de Campinas, com o projeto intitulado “O impacto das produções de streaming nas produtoras audiovisuais brasileiras”. Concluiu em 2024, como bolsista CAPES, o Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Multimeios (UNICAMP), com um estudo sobre o Conselho Superior do Cinema. E é graduada em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos.
Ficha do Trabalho
Título
- Produção audiovisual brasileira e plataformas de streaming: o caso da produtora Paranoïd
Mesa
- A produção audiovisual como instituição – identidade racial, políticas públicas e mercado.
Resumo
- A partir do estudo de caso da produtora Paranoïd, e do panorama da sua produção nos últimos anos, pretende-se avançar na investigação sobre a relação estabelecida entre as produtoras brasileiras e as plataformas de streaming. Analisa-se o impacto desses novos agentes no modelo de financiamento, produção e nas temática e narrativas, em contraste com obras viabilizadas por políticas públicas.
Resumo expandido
- A partir do estudo de caso da produtora Paranoïd, procura-se avançar na compreensão de como se desenvolveu a relação entre as produtoras audiovisuais brasileiras e as plataformas de streaming ao longo de uma década. Partindo da análise do catálogo da produtora, a comunicação investiga como a entrada nos streamings no mercado brasileiro impactou sua dinâmica de produção.
O setor audiovisual foi significativamente alterado com o surgimento das plataformas de streaming, tanto no Brasil quanto no mundo, transformando as dinâmicas de produção, distribuição e consumo de conteúdo. Esse movimento gerou reconfigurações dentro da indústria e seus agentes, especialmente no que diz respeito à atuação das produtoras independentes. A formação de um novo mercado com grandes players produzindo no Brasil, como Netflix, Amazon Prime Video, Globoplay e HBO Max, introduziu novas variáveis como mediadoras da relação entre essas plataformas e as produtoras nacionais.
No novo modelo de negócio, as produtoras independentes recebem financiamento das plataformas e, a partir de estrutura própria e contratação de equipe, coordenam a realização da obra financiada, com a supervisão da empresa de streaming. As plataformas, por sua vez, passam de distribuidoras de conteúdo, para produtoras, financiando e encomendando obras seriadas e longas-metragem globalmente e também participando ativamente das decisões criativas, interferindo na escolha de temas, roteiros e elenco.
Para além das transformações econômicas e produtivas, observam-se também consequências da nova estrutura nas dimensões narrativas e estéticas das obras. Ao tratar das séries e filmes “originais” — e brasileiros — da Netflix, Rios, Meimaridis e Mazur (2024), reconhecem que a plataforma ampliou a diversidade de narrativas para além do eixo tradicional da televisão aberta, ao mesmo tempo que exerce um poder ambíguo sobre a indústria nacional ao impor um modelo de produção alinhado à lógica televisiva estadunidense. Os autores identificam três temáticas recorrentes nessas obras: o exotismo cultural específico (como o cangaço ou o funk); o estereótipo internacional (futebol, pobreza, carnaval); e a neutralização universalista, com narrativas genéricas e códigos comuns ao público dos Estados Unidos.
Desde 2020, a Paranoïd produz obras para esse novo mercado. Em seis anos, foram realizadas em parceria com streamings sete séries “originais”, com destaque para Arcanjo Renegado (2020), que se desdobra em quatro temporadas. Em 2026, a produtora mantém três séries em produção concomitante: DNA do Crime, Tremembé e uma obra inédita ainda sem título definido, evidenciando a consolidação dessa nova relação. As produções são financiadas por players como Globoplay, Disney +, Prime Video, Netflix e HBO. Em contrapartida, a produção de longas-metragens, que totaliza dez títulos, não possui financiamento proveniente das plataformas de streaming, sendo majoritariamente viabilizada por financiamento direto e indireto por meio de políticas públicas.
Ao se observar o conjunto da produção da Paranoïd, é possível também considerar como esses diferentes regimes de financiamento, sobretudo aqueles vinculados às plataformas de streaming em comparação aqueles viabilizados por políticas públicas, incidem sobre as formas de produção e, em alguma medida, sobre as escolhas narrativas e temáticas das obras. Diante desse cenário, surgem questões que esta comunicação pretende avançar: as produções “originais” representam hoje a principal fonte de recurso da produtora? São suficientes para estabelecer uma produção estável e permanente? E o que podemos deduzir da produção de streaming no Brasil, a partir do caso da Paranoïd?
Bibliografia
- BAHIA, Lia; BUTCHER, Pedro; TINEN, Pedro. O setor audiovisual e os serviços de streaming: da necessidade de repensar a regulação e as políticas públicas. Revista Eptic, v. 24, n. 3, set./dez. 2022.
DE MARCHI, Leonardo; LADEIRA, João Martins. Originais Netflix: um panorama da produção audiovisual da Netflix no Brasil 2016‑2019. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 30, p. 1–13, jan./dez. 2023.
LOTZ, Amanda D. Portals: A treatise on internet-distributed television. Michigan
Publishing, University of Michigan Library, 2017.
MEIMARIDIS, Melina; MAZUR, Daniela; RIOS, Daniel. A Empreitada Global da Netflix: uma análise das estratégias da empresa em mercados periféricos. Revista GEMInIS, São Carlos, UFSCar, v. 11, n. 1, p. 04-30, jan. / abr. 2020.
RIOS, Daniel; MEIMARIDIS, Melina; MAZUR, Daniela. À sombra da dominância: produção audiovisual nacional à moda Netflix. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 56, e138185, 2024.