Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Arthur de Oliveira Lopes (UFSCar)

Minicurrículo

    João Arthur Lopes é mestrando regular no PPGCTS/UFSCar e graduado em Cinema pela FAP/UNESPAR. Editor de vídeo e documentarista, pesquisa a interface entre audiovisual, políticas culturais e divulgação científica. Seu foco de estudo reside nos processos de mediação sociotécnica, na monumentalização do cotidiano e na construção de memória social e identidade através da linguagem do documentário audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    O Documentário como dispositivo de divulgação científica em contextos de cultura popular

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    Este trabalho analisa o documentário como dispositivo de divulgação científica e mediação sociotécnica em Itapeva (SP), sob a perspectiva do campo CTS e da filosofia da memória. Investiga o impacto estrutural de leis de incentivo frente à lógica de concorrência dos editais. Através dos conceitos de polifonia (Bakhtin) e monumentalização (Bergson), a pesquisa articula análise fílmica e estudos de recepção digital para compreender a construção de memória e identidade em territórios urbanos.

Resumo expandido

    A presente pesquisa analisa o documentário audiovisual como dispositivo de divulgação científica e mediação sociotécnica em contextos de cultura popular urbana, sob a ótica do campo Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). O estudo investiga como saberes das ciências humanas foram traduzidos pela linguagem documental, impulsionados por políticas de fomento como a Lei Paulo Gustavo (LPG) e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). É fundamental diferenciar o caráter emergencial da Lei Aldir Blanc do investimento estruturante da LPG, que redirecionou recursos para uma execução direta, gerando, segundo dados da FGV, um retorno socioeconômico superior a R$ 6,51 para cada real investido.

    O referencial teórico articula a “monumentalização do cotidiano” aos conceitos de Bergson sobre a “duração” e o “salto em direção ao passado”, compreendendo o documentário como extensão técnica da consciência coletiva. A análise é ampliada pelo conceito de polifonia de Mikhail Bakhtin, que permite observar como as vozes dos sujeitos filmados — desde o discurso especializado de historiadores até os relatos memoriais de moradores — mantêm sua autonomia e dialogam de igual para igual. Essa abordagem é essencial para analisar o tratamento de territórios fronteiriços e zonas quilombolas de Itapeva (SP), onde a imagem em movimento valida identidades e memórias coletivas (Halbwachs).

    Metodologicamente, a pesquisa supera a análise restrita ao produto final ao incorporar o estudo da recepção e circulação das obras. O “lapso” entre a produção e o impacto social é abordado através da investigação da circulação digital e presencial. No âmbito da pesquisa empírica, o contato com o realizador itapevense Adriano Vaz reportou a respeito da circulação de seu último documentário, “Memórias da cidade”. A obra contou com quatro exibições públicas em Itapeva, destacando-se as sessões realizadas na UNESP e na ETEC (Centro Paula Souza), que funcionaram como espaços de mediação socioculturais e promoveram debates de expressiva densidade sobre o território. Segundo o cineasta, as exibições não apenas fomentaram a reflexão sobre a preservação da fazenda local, mas também serviram de plataforma para uma mobilização social ativa, resultando na coleta de assinaturas dos estudantes para o restauro do patrimônio histórico.

    Em síntese, a investigação demonstra que o documentário audiovisual, potenciado por políticas estruturantes como a Lei Paulo Gustavo, se consolida como um dispositivo vital de mediação. Ao monumentalizar o quotidiano através da polifonia, estas obras superam a mera função de registro para se tornarem instrumentos de intervenção social. O retorno econômico expressivo, aliado ao forte engajamento comunitário observado, reafirma que o fomento ao audiovisual é estratégico: ele valida identidades, preserva o patrimônio e transforma a memória em cidadania ativa.

Bibliografia

    AUTRAN, Arthur; CURY, Joyce Felipe. Documentário e difusão do conhecimento: duas experiências. In: AUTRAN, Arthur; ANDRADE, Thales de (org.). Qual interdisciplinaridade está em jogo? Campinas: Pontes Editores, 2023.
    BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
    BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
    FGV PROJETOS. Impacto Econômico da Lei Paulo Gustavo no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FGV/Sececrj, 2024.
    HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
    LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora Unesp, 1998.
    NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2016.
    PALACIOS, Eduardo Marino García et al. Ciencia, tecnología y sociedad: una aproximación conceptual. Madrid: OEI, 2011.