Ficha do Proponente
Proponente
- LARISSA VITORIA DE ANDRADE (UFSJ)
Minicurrículo
- Sou estudante de Pedagogia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), ingressante em 2025.Integro o programa ECOS, atuando com curadoria, cineclubes e oficinas em escolas públicas. Realizo ações no projeto Cinema de Fuxico, voltado ao fortalecimento da luta feminista, que articula cineclubes e ações formativas, e no CineHospi, com cineclube em hospital. Desenvolvi o Cine na Praça, em Santa Cruz de Minas. Paralelamente, desenvolvo pesquisa de iniciação cientifica em História da Educação.
Ficha do Trabalho
Título
- Cine na Praça: Projetando mundos outros
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Trata-se de um relato de vivência ativa e afetiva, desenvolvida coletivamente, que propõe reflexões a partir de uma ação de cineclube intitulada Cine na Praça, realizada em espaço público na menor cidade em extensão territorial do Brasil, Santa Cruz de Minas. O projeto buscou politizar o acesso ao cinema, despertando sensibilidade e liberdade do olhar na Praça São Sebastião, por meio da exibição de filmes brasileiros com curadoria de cinema negro, articulando universidade e comunidade.
Resumo expandido
- O presente trabalho constitui um relato de experiência desenvolvido no âmbito do Programa de Extensão ECOS – Educação e Cinema com os Territórios, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). A partir da articulação entre formação, criação e difusão audiovisual, o projeto Cine na Praça emerge como desdobramento das práticas cineclubistas realizadas pelo grupo, impulsionado pelo desejo de ampliar o acesso ao cinema e deslocá-lo para além dos espaços institucionais, tensionando, no contexto contemporâneo, as formas de acesso e circulação das imagens. Inspiradas na noção de “passador” formulada por Alain Bergala (2008), compreendemos o gesto de exibir filmes como a oferta de mundos, apostando na potência formativa do encontro sensível com a obra.
Nesse sentido, o projeto buscou instaurar um cineclube em espaço público, tomando como território a cidade de Santa Cruz de Minas, reconhecida como a menor do Brasil em extensão territorial e ainda pouco atravessada por ações culturais e universitárias. A escolha do local se deu justamente por essa ausência, compreendendo o acesso ao cinema como direito e como prática política, em diálogo com debates sobre democratização das janelas e pontos de exibição. A ação foi realizada na Praça São Sebastião, espaço central da cidade, caracterizado por intenso fluxo de pessoas e pela convivência entre diferentes gerações.
A metodologia do projeto articulou três eixos principais: curadoria, mobilização territorial e exibição. A curadoria foi orientada por uma perspectiva de cinema negro brasileiro, compreendido não apenas como categoria estética, mas como afirmação política e reconfiguração de imaginários. Foram selecionados os curtas-metragens Disque Quilombola (David Reeks, 2012), Dela (Bernard Attal, 2018) e Cores e Botas (Juliana Vicente, 2010), considerando tanto a diversidade etária do público quanto a possibilidade de produzir identificações e deslocamentos críticos em relação às representações hegemônicas.
A mobilização envolveu estratégias de divulgação comunitária, como distribuição de convites em escolas e comércios locais, fixação de cartazes e circulação de materiais digitais, contando com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura. A realização da sessão envolveu parcerias com a PROEX/UFSJ e o coletivo Cinema na Rua, responsáveis pela disponibilização de equipamentos, evidenciando a dimensão coletiva e colaborativa da ação.
A experiência evidenciou a potência do cinema como acontecimento no espaço público, mobilizando diferentes públicos e configurando processos de recepção marcados pelo encontro entre imagens e vivências. Ao longo da exibição, observou-se a adesão progressiva de crianças, jovens, adultos e idosos, que se aproximavam por curiosidade e permaneciam pelo encontro. Relatos espontâneos evidenciaram tanto a carência de acesso a bens culturais quanto a força do cinema como dispositivo de memória, afeto e pertencimento, permitindo compreender a recepção como dimensão central da experiência.
Do ponto de vista teórico, a experiência dialoga com as reflexões de Suely Rolnik (2018) acerca do regime colonial-capitalístico, que captura a potência criativa da vida e molda sensibilidades segundo interesses mercadológicos. Em contraposição, o Cine na Praça buscou instaurar uma brecha sensível, promovendo outras formas de perceber, sentir e existir no território. Ao propor um cinema que não se limita à transmissão de conteúdos, mas que opera como criação de mundos possíveis, a ação se inscreve como prática de resistência e reinvenção do sensível.
Conclui-se que o Cine na Praça, ao articular universidade, comunidade e território, reafirmou o cinema como prática formativa, política e coletiva. Mais do que a exibição de filmes, a experiência produziu encontros, memórias e deslocamentos, evidenciando a importância de iniciativas que democratizem o acesso à cultura e ampliem as possibilidades de criação, difusão e recepção no audiovisual contemporâneo.
Bibliografia
- BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Tradução: Mônica Costa Netto, Silvia Pimenta. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE-FE/UFRJ, 2008.
MIGLIORIN, Cezar (org.); RESENDE, Douglas (org.); CID, Viviane (org.); BARROSO, Elianne Ivo (org.). Modos de fazer e experimentar-se: cinema e educação. 1. ed. Rio de Janeiro: Áspide Editora, 2022.
ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. 1. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018.