Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriel Ximendes Ortega (UFRGS)

Minicurrículo

    Graduando do sexto semestre do curso de Jornalismo na UFRGS e bolsista de iniciação científica (BIC/UFRGS). Integra o Núcleo de Pesquisa Semiótica e Sonoridades (SEMSONO/UFRGS) e o Grupo de Pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC/UFRGS). gabrielx.ortega@gmail.com

Ficha do Trabalho

Título

    Zonas de indeterminação sonora em Eraserhead (1977)

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    Explora-se a capacidade das paisagens sonoras do filme Eraserhead (Lynch, 1977) em borrar as convenções entre ruído e música. A trilha sonora, lançada em vinil (1982), apresenta os efeitos sonoros do filme como se fossem uma trilha musical, o que nos permite repensar a linguagem sonora do filme. Desenvolvemos a noção de zonas de indeterminação sonora, para compreender como o filme cria espaços contaminados por efeitos antropogênicos, em conexão com os estudos sobre o Antropoceno.

Resumo expandido

    Esta investigação deriva do projeto de pesquisa “Sonoridades do Antropoceno: a significação sonora em produtos comunicacionais sobre a nova era geológica”, no qual pretendemos analisar casos em que o clima do sonoro (Ochoa Gautier, 2022) é expresso materialmente no audiovisual, agindo nas dimensões formais, afetivas e sensíveis das sonoridades, tornando “audível as desordens do Antropoceno” (idem, p. 53-54). Centramos como objeto de análise, para o presente trabalho, as paisagens sonoras (Schafer, 2001) que compõem a trilha do filme Eraserhead (1977), dirigido por David Lynch. Conta a história de Henry que, após descobrir que é pai, é deixado por sua namorada, tendo que cuidar de um bebê prematuro e grotesco, que lembra um ser não-humano. Mesmo com essa sinopse relativamente simples, a narrativa se desenvolve envolta em mistérios e pouco é resolvido ou explicado ao espectador.
    Cinco anos após a estreia, foi lançada a trilha sonora de Eraserhead em disco (Lynch; Splet, 1982). Ao invés de uma esperada compilação de músicas que integram o filme, a maior parte da duração do disco é ocupada pelos efeitos sonoros criados por Splet e Lynch. Ocasionalmente, ouve-se excertos de diálogos que ocorrem no filme ou faixas musicais, que emergem por entre os efeitos. No filme, uma das primeiras cenas mostra Henry atravessando a pé um suposto distrito industrial, pois ouve-se sons que lembram os de motores em funcionamento. No entanto, não há referente visual para que isso possa ser afirmado com certeza. Ao ouvir o disco, nos perguntamos se não se tratava, então, de uma trilha musical, ou seja, que o que estamos a ouvir no filme seria uma composição de noise music. Este insight foi o motor para desenvolvermos esta pesquisa. Mas, melhor do que pensar tais sons como música, talvez fosse ainda mais interessante analisá-los em sua capacidade de permanecer indeterminados. O disco nos oferece, assim, apoio para afirmarmos que Eraserhead desafia as distinções convencionais que apartam voz, ruído e música no cinema (Chion, 2008). Nos parece que o filme articula as trilhas sonora e visual de forma heautônoma, mas de um modo que está para além daqueles previstos por Deleuze (2009, p. 303-304). Diferente do que ocorre no cinema noir, a disjunção é preterida por uma indeterminação: ao invés de territórios bem delimitados pelo volume e pela equalização para cada um destes elementos, tem-se um entranhamento, uma mistura. Ao invés de sons facilmente categorizáveis, temos elementos sonoros no extracampo que persistem indeterminados, borrando os limites convencionais entre diegese e extra diegese.
    Para afirmar isto, nos apoiaremos em Marie Thompson (2017) para revisar criticamente as distinções dicotômicas e categorizantes entre ruído e música, além dos estudos sobre zonas de Jeane Etelain (2020; 2023) para que seja possível compreender a singularidade sonora de Eraserhead, observando os modos pelos quais o filme arranja os sons de modo a desenvolver uma ecologia acústica hostil, onde zonas de indeterminação sonora ocupam espaços severamente contaminados por efeitos antropogênicos.
    Pretendemos demonstrar que Eraserhead pode ser compreendido como um filme ambiental e que, considerando o planeta que habitamos quase cinquenta anos depois de seu lançamento, convém ser revisitado pela perspectiva dos estudos sobre o Antropoceno. Por “ambiental”, queremos compreender tanto a atenção concentrada na elaboração do desenho de som por Splet e Lynch, quanto a capacidade do filme refletir sobre o ambiente industrial que contamina as cidades periféricas do final do Século XX. Assim, pretendemos investigar as maquinações semióticas (Deleuze; Guattari, 2008) das sonoridades do filme, de aspectos moleculares/menores que não necessariamente estão ligados à história molar, isto é, à jornada de Henry, o suposto protagonista.

Bibliografia

    CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

    DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Ed.Brasiliense, 2009.

    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs — Capitalismo e Esquizofrenia 2, vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 2008

    ETELAIN, Jeanne. A Theory of Zones: Conceptualizing Space in the Planetary Era. 417 f. Tese (Doutorado em Filosofia). Universidade Paris Nanterre, 2023.

    ETELAIN, Jeanne. This Planet Which Is Not One: On the Notion of Zone. In: LATOUR, B.; WEIBEL, P. Critical Zones: The Science and Politics of Landing on Earth. Cambridge: ZKM/MIT Press, 2020, pp.160-163.

    OCHOA GAUTIER, Ana. El clima de lo sonoro. Preludios para un oído geológico. In: FREIRE, R. (Org.). La naturaleza de las humanidades. Para una vida bajo otro clima. Santiago: Mimesis, 2022. p. 25-56.

    SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. São Paulo: UNESP, 2001.

    THOMPSON, Marie. Beyond Unwanted Sounds: Noise, Affect and Aesthetic Moralism. New York: Bloomsbury, 2017.