Ficha do Proponente
Proponente
- Gabriel Darwich Leal Misi (UFPA)
Minicurrículo
- Gabriel Darwich é bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Pará e mestrando em Artes no PPGARTES-UFPA. Integra o LABNEOCINE, onde pesquisa com enfoque endereçado aos campos da análise do filme, das teorias da espectatorialidade, da memória e da semiótica. Possui trabalhos publicados sobre a linguagem do Screenlife e o cinema de Abbas Kiarostami. Atualmente investiga a obra de Kleber Mendonça Filho pelo viés das teorias da memória.
Ficha do Trabalho
Título
- O arquivo vivo como método de pensamento no cinema de Kleber Mendonça Filho
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- O trabalho analisa a intrusão figurativa do passado no presente da diegese dos filmes de Kleber Mendonça Filho. Adotamos o prisma conceitual do que denominamos arquivo vivo, um procedimento de escavação e reinterpretação do passado que faz revelar camadas do tecido social que estruturam o imaginário representado na obra. Desta forma, objetivamos descrever o arquivo vivo como método de pensamento pelo viés de uma teoria do cineasta que estrutura relações entre o meio cinematográfico e a memória.
Resumo expandido
- O cinema de Kleber Mendonça Filho, expoente pernambucano dos desdobramentos da pós-retomada e seus processos de regionalização, manifesta em seus dispositivos estilísticos e elementos narrativos uma gama de influências culturalmente rastreáveis a seu local de origem. No entremeio do olhar atento aos meandros da cultura recifense, dos conflitos territoriais expressos entre a urbanidade e o sertão e do interesse por uma história dos cinemas em sua concepção de lugar, o cineasta opera recortes de realidades particulares que, em sua síntese, geram retratos detalhados da cultura pernambucana. O que se produz consiste, portanto, em uma constelação de figuras de um imaginário culturalmente localizado, formativo do próprio diretor enquanto sujeito e cineasta, e centralizado em suas próprias observações.
O olhar cinematográfico de Mendonça Filho, contudo, não apenas incide na atualidade da cultura pernambucana, mas faz uso da memória para identificar estruturas radicadas no movimento dinâmico entre passado e presente. De fato, o que argumentamos tanto em seu caráter temático quanto formal, é o movimento em direção ao passado na forma de um procedimento de escavação que busca revelar camadas enterradas que se conservam e ainda estruturam as relações do cotidiano (Benjamin, 2013). Em um sentido oposto, por sua vez, o diretor opera ainda a intrusão do passado no presente recorrendo a mídias e objetos – fotogramas, músicas, itens museológicos – materializados nas narrativas ficcionais como vetores deste movimento.
Neste sentido, o presente trabalho confere enfoque especial a um procedimento particular que denominamos “arquivo vivo”. Trata-se, com efeito, da encenação de um passado figurativo na narração do filme; é a materialização diegética da memória no universo representado, seja ela justificada ou não pela diegese. Assim, compreendemos o arquivo vivo a partir de um gesto que traz à superfície as camadas escavadas, conferindo-lhes vida e as atualizando, articulando-se ainda com a noção bergsoniana da aparição de uma lembrança-imagem no presente (Bergson, 2010).
Selecionamos, na obra do diretor, quatro usos desse procedimento para orientar este trabalho: um plano no qual carros antigos que se materializam na rua em O Som ao Redor; o acionamento das lembranças de tia Lúcia a partir de sua cômoda em Aquarius; as cabeças dos invasores expostas em Bacurau; e a própria estrutura investigativa das fitas em O Agente Secreto. Desta forma, analisando esta variedade de dispositivos que caracterizam o arquivo vivo, pretendemos descrever como Kleber Mendonça Filho o emprega enquanto método de apropriação do passado através das possibilidades do meio cinematográfico. Se ele próprio (Mendonça Filho, 2020) afirma que trata seus filmes como “um pedido de palavra”, uma possibilidade manifestar um ponto de vista, argumentamos ainda que, nos contornos de uma teoria do cineasta (Aumont, 2004), este método representa uma determinada leitura de passado, a expressão de um pensamento do próprio cineasta. A partir da semiotização da experiência de Lefebvre (1999), que descreve um museu imaginário interior a cada um de nós contendo fragmentos imagéticos do passado, o arquivo vivo consiste, portanto, em uma atualização e reinterpretação do museu imaginário do diretor.
Nosso trabalho, portanto, consiste primeiramente na análise formal (Bordwell, 1985) e narratológica (Genette, 2017) dos trechos selecionados com o objetivo de compreender a articulação do arquivo vivo em uma multiplicidade de dispositivos possíveis. Em seguida, fornecemos sentidos ao material analisado em consonância com sua contextualização nas obras e na produção discursiva de Mendonça Filho. Por fim, esperamos estabelecer uma descrição do arquivo vivo no cinema do diretor enquanto prática metodológica, visando ulteriormente enquadrá-la em uma teoria do cineasta acerca do próprio fazer cinema em sua potencialidade de investigação e reinterpretação do passado.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. São Paulo: Papirus, 2004
BENJAMIN, Walter. Imagens do pensamento. Sobre o haxixe e outras drogas. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 4. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Madison: The University of Wisconsin Press, 1985.
GENETTE, Gérard. Figuras III. São Paulo: Estação Liberdade, 2017.
LEFEBVRE, Martin. On Memory and Imagination in the Cinema. New Literary History, Baltimore: Johns Hopkins Press, v. 30, n. 2, p. 479-498, primavera 1999.
MENDONÇA FILHO, Kleber. Os filmes são um pedido de palavra. [Entrevista concedida a] Projeto Ficção Viva. In: MUNHOZ, Marcelo; URBAN, Rafael (org.). Conversas sobre uma Ficção Viva. Curitiba: Imagens da Terra, 2020. p. 86-113. E-book.