Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Enzo Caramori (USP)

Minicurrículo

    Enzo Caramori é pesquisador e mestrando em Meios e Processos Audiovisuais na USP, onde pesquisa instalações de imagem em movimento na obra de Apichatpong Weerasethakul. Foi bolsista de iniciação científica FAPESP e participou de intercâmbio em Film & Screen Studies na University for the Creative Arts. Foi recipiente do Emerging Scholar Award na Fifteenth International Conference on The Image, em Buenos Aires. É graduado em Comunicação pela Unesp.

Ficha do Trabalho

Título

    Partículas voadoras em quartos vazios

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Morakot (2007), um curta-metragem e instalação de Apichatpong Weerasethakul, é também o nome de um hotel abandonado em Bangkok, no qual o retrato cinematográfico de seus aposentos vazios é populado pelo vôo de partículas amorfas no espaço. A proposta analisa como essas materialidades desconhecidas projetam a percepção de uma ecologia de seres e corpos diversos engajada em uma rede de relações, acessando o ‘realismo performativo’ para compreender a interação com o não-humano na obra do artista.

Resumo expandido

    O cinema de Apichatpong Weerasethakul, constituído a partir de uma poética nômade de meios e influências, é o espaço para o relato de estórias não lineares que atribuem novas formas a um projeto audiovisual de inspeção do real. Sua constante interação com crenças de sua cultura local – na região de Isaan, nordeste da Tailândia –, com a ficção científica e sistemas filosóficos não-eurocêntricos expressos no budismo e animismo, corporificados nas figuras de fantasmas, animais, e na própria floresta, são características que reconfiguram o realismo cinematográfico – presentes, por exemplo, no seu uso de planos sequências e da profundidade de campo – ao que é nomeado por Cecília Mello (2023) de realismo fantasmagórico. Segundo Mello, a ambiguidade na apresentação cotidiana de eventos extraordinários é sintomática de um momento histórico de questionamento epistêmico dos limites do realismo mas também, como trazido por Szymanski (2017), de representações poéticas de se viver com o ‘outro’, deslocando o excepcionalismo do humano para fabulações de convivência com o estranho, o estrangeiro e o invisível. Essas fabulações mobilizam o não-humano em uma estrutura de percepção, como descreve May Adadol Ingawanij (2013), que sobrepõe ”mundos diegéticos em que imaterialidades materiais são percebidas como reais” (Ingawanij, 2013, p. 92). Dessa forma, a presente proposta direciona seu olhar a uma forma de interação com a memória e o não-humano através de materialidades desconhecidas na obra Morakot (2007), apresentada como curta-metragem e instalação audiovisual. Morakot é um hotel abandonado em Bangkok que abriu nos anos 1980, no pico da industrialização tailandesa e concomitante à entrada de cambojanos em campos de refugiados após invasões vietnamitas em seu país. Em colaboração com seus regulares três (não) atores, que – off-screen – rememoram sonhos e a vida em suas cidades natais, o diretor constrói a questão se as vozes reconstroem o fardo das memórias que uma vez viveram ali ou se narram episódios dissociados às imagens. O curta progride em planos quase estáticos dos aposentos vazios, cujo realismo é interrompido pelo vôo de partículas amorfas, que se aparentam a poeira ou penas. A especulação de uma qualidade documentária dos relatos é justaposta à uma materialidade estranha, que se expande com o movimento como que a desvelar seu simbolismo.
    Busco argumentar que as análises do cinema de Apichatpong podem se interessar em como a vitalidade dessa matéria desconhecida projeta, como descrito por Jane Bennett (2004), a consciência de um mundo que não se constitui a partir de sujeitos e objetos, mas de materialidades diversas engajadas em uma rede de relações. No cenário de espacialização do curta em instalação, em Belo Horizonte, crianças em uma visitação escolar relataram que partículas da obra apareceram no espaço da exposição (Azzi, 2014): a materialização de um ainda-presente de sua história local acumulada à interação com entidades virtuais de outros mundos possíveis e memórias perdidas. Dessa forma, a análise reconhece a agência entre forças humanas e não humanas no dispositivo audiovisual e adota a leitura de tais elementos como reorganizadores do olhar, do som e da diegese (Pick; Narraway, 2013). O objetivo desta comunicação é compreender e somar como o entendimento do real, irreal e não-humano na obra de Apichatpong Weerasethakul pode-se construir acessando o ‘realismo performativo’ de Ingawanij (2013), notando-se uma leitura menos preocupada com tendências especulativas do fantástico e da ficção científica, do que em alertar os espectadores aos movimentos de forças inanimadas e vivas, que de outra forma não seriam perceptíveis. Espera-se sintonizar o espectador com regimes de existência que excedem a intencionalidade humana, reconfigurando o realismo cinematográfico em um espaço de encontro ecológico com materialidades que raramente se reconhecem no real.

Bibliografia

    AZZI, Francesca. Aqui ou em todo lugar: Apichatpong Weerasethakul. In: AZZI, Daniella; AZZI, Francesca (org.). Apichatpong Weerasethakul. São Paulo: Iluminuras, 2014.
    BENNETT, Jane. The force of things: steps toward an ecology of matter. Political Theory, v. 32, n. 3, p. 347-372, 2004.
    INGAWANIJ, May Adadol. Animism and the performative realist cinema of Apichatpong Weerasethakul. In: PICK, Anat; NARRAWAY, Guinevere (org.). Screening nature: cinema beyond the human. Oxford; New York: Berghahn Books, 2013. p. 91-109.
    MELLO, Cecília. Phantasmagorical realism in Memoria. Moving Image Review & Art Journal (MIRAJ), v. 12, n. 2, p. 171-188, 13 dez. 2023.
    PICK, Anat; NARRAWAY, Guinevere (org.). Screening nature: cinema beyond the human. Nova Iorque; Oxford: Berghahn Books, 2013.
    SZYMANSKI, Adam. Uncle Boonmee who can recall his past lives and the ecosophic aesthetics of peace. In: BORDELEAU, Éric et al. Nocturnal fabulations. Londres: Open Humanities Press, 2017.