Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Cláudio Simões de Oliveira (JC Oliveira) (PPGCine-UFF)

Minicurrículo

    JC Oliveira é cineasta, pesquisador e montador, seu trabalho abrange desde documentários e filmes de ficção, até projetos experimentais que borram os limites entre cinema e artes digitais. É Doutorando em Cinema e Audiovisual na UFF (PPGCine), estudando imersão e possibilidades de telas sem bordas. É formado em Cinema também pela UFF e Mestre em Mídias Criativas na ECO-UFRJ (PPGMC). Desde 2019, investiga o campo do audiovisual expandido, sobretudo a realidade virtual e o cinema imersivo.

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema imersivo e montagem compartilhada: diálogos entre edição e recepção no audiovisual 360º

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Quando lidamos com cinema imersivo, com obras geralmente fruídas em headsets de realidade virtual, o público se torna montador final, a partir do olhar livre diante de uma tela sem bordas. O trabalho do profissional da montagem ganha outra dimensão, estabelecendo um diálogo entre as escolhas feitas na ilha de edição e as escolhas do espectador-montador, que são infinitas. Surge a ideia de uma montagem compartilhada, uma troca entre a edição, no sentido stricto, e a recepção no audiovisual 360º.

Resumo expandido

    Quando saímos de uma tela retangular, da sala de cinema e do aparelho de TV, e nos vemos diante de uma tela sem bordas, como no caso de experiências em 360º, também chamadas de realidade virtual cinemática (cinematic VR) ou, como tenho gostado de classificar, obras de cinema imersivo, as regras, convenções e gramáticas da linguagem audiovisual tradicional se transformam. Uma das mudanças é na montagem e no seu papel dentro da obra.

    Em um trabalho em 360º, feito, em geral, para ser visto em headsets de realidade virtual, o público passa a estar no centro da experiência. Opto por chamar esse tipo de experiência de cinema imersivo a partir do paralelo traçado por Janet Murray (2003, p.102) entre imersão e submersão, uma vez que o espectador está no meio de uma esfera e tudo ao seu redor passa a ser uma tela. Através do olhar, esse espectador define os enquadramentos e cortes, fazendo escolhas de montagem em tempo real. Por isso digo que ele se torna espectador-montador. Diferentes pessoas farão diferentes escolhas, gerando, assim, experiências distintas a cada nova apreensão, criando o paradigma de uma montagem infinita.

    Podemos dizer, no entanto, que existem duas camadas de montagem: uma feita na ilha de edição, por um profissional, e a montagem final, feita pelo espectador, ao experimentar a obra imersiva usando um headset. Afinal, é na ilha de edição que são escolhidos os diferentes takes, planos, suas durações, as diferentes transições e efeitos, o que não difere muito quando montamos um produto audiovisual tradicional. Inclusive, é interessante refletir sobre teorias clássicas da montagem e adaptar sua aplicação na tela sem bordas. A principal diferença é justamente que não existe controle no vídeo em 360º sobre para onde o público estará olhando.

    Existem algumas técnicas para se manipular a atenção do espectador, mesmo em um ambiente imersivo. Por exemplo, Salles e Ruggiero (2019, p.83) defendem a ideia no 360º de se criar uma “coreografia da atenção”, de maneira a conduzir o olhar de quem experimenta a obra. É possível alinhar e até prever para onde o público vai deter sua atenção a partir do conceito de “regiões de interesse” (SITZMANN, V et al, 2018) e basear cortes e transições a partir de elementos centrais dentro de um plano esférico. De toda forma, não existe garantia de que o espectador vai agir conforme previsto. Mesmo no cinema tradicional, Hugo Münsterberg (2018, p.26) já escrevia sobre a necessidade de conduzir o olhar do público a partir de técnicas visuais e sonoras para chamar sua atenção.

    Defendo que deva existir uma ligação entre a ilha de edição e a forma como esse cinema imersivo é recebido. Uma montagem que ocorra em camadas diferentes, com possibilidades diferentes, mas que o resultado proponha um diálogo. Por isso o conceito de uma montagem compartilhada. É possível manipular e tentar prever para onde o espectador vai olhar, mas é fundamental também considerar, e até incentivar, que o público olhe livremente ao seu redor, possibilitando narrativas diversas. Afinal, como defende Marie-Laure Ryan (2001, p. 54), a grande diferença entre o cinema tradicional e a realidade virtual é o fato de o espectador ter o poder de escolher o ponto de vista. De forma similar, Jacques Rancière (2012, p.25) fala de um espectador emancipado, que traduz e se apropria daquilo que vê, um conceito que encontra muito espaço quando pensamos no audiovisual em 360º e na forma que diferentes trabalhos podem ser recebidos, interpretados e, no fim, montados pelo público.

    Essa ideia do diálogo e de uma montagem que seja compartilhada permite pensar e refletir sobre novas maneiras que podemos trabalhar a edição audiovisual em 360º no cinema imersivo.

Bibliografia

    MÜNSTERBERG, Hugo. A Atenção. In. A Experiência do Cinema (Antologia). XAVIER, Ismail (Org.). São Paulo: Paz e Terra, 2018.
    MURCH, Walter. Num Piscar de Olhos: a edição de filmes sob a ótica de um mestre. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
    RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins, 2012.
    RYAN, Marie-Laure. Narrative as Virtual Reality: Immersion and Interactive Literature and Electronic Media. Baltimore: The John Hopkins University Press. 2001
    SALLES, Julia; RUGGIERO, María Laura. Narrativas Imersivas: Imaginando Múltiplas Realidades. In. BUG: Narrativas Interativas e Imersivas. PAZ, André; GAUDEZZI, Sandra (Org.). Rio de Janeiro: Editora Automática. 2019.
    SITZMANN, V.; SERRANO, A.; PAVEL, A.; AGRAWALA, M.; MASIA, B.; GUTIERREZ, D.; WETZSTEIN, G. Saliency in VR: how do people explore virtual environments? IEEE Transactions on Visualization and Computer Graphics, v. 24, n. 4, p. 1633-1642, abr. 2018.