Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Júlia Figueiró Ozório (USP)

Minicurrículo

    Júlia Figueiró Ozório é mestranda em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (PPGMPA-USP) e pós-graduada em Branding & Futures Studies pela ESPM (bolsista integral). Graduada em Cinema e Audiovisual pela ESPM, também com bolsa integral, atua como embaixadora do curso de Cinema e Audiovisual da instituição e é curadora do Festival Estranhos Encontros. Desenvolve pesquisa em cinematografia, com ênfase em construção de sentidos, cinema brasileiro e políticas da imagem.

Ficha do Trabalho

Título

    Imagem e denúncia: a construção do olhar em Jardim de Guerra (1968)

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Propõe-se investigar como a câmera atua como extensão do olhar crítico do cineasta e como agente ativo na construção de narrativas de denúncia. Em Jardim de Guerra (1968), dirigido por Neville d’Almeida e fotografado por Dib Lutfi, busca-se compreender como enquadramento, luz e movimento inscrevem, na imagem, intenções conceituais e posicionamentos políticos. Analisa-se ainda a relação entre direção e fotografia, explorando a potência do cinema como instrumento de testemunho e intervenção.

Resumo expandido

    No cinema de denúncia produzido no Brasil durante o regime militar, a câmera cinematográfica pode ser compreendida não apenas como instrumento técnico de registro, mas como extensão do olhar crítico do cineasta, operando como mediadora entre experiência histórica e construção imagética. Nesse contexto, a presente proposta investiga de que modo a cinematografia em Jardim de Guerra (1968), dirigido por Neville d’Almeida e fotografado por Dib Lutfi, articula escolhas formais que inscrevem no corpo do filme uma dimensão política e sensível da imagem. Partindo da concepção de Flusser (2011), entende-se o aparelho como um dispositivo que transcodifica intenções humanas em superfícies visíveis por meio de um processo lógico e interativo entre homem e máquina. Assim, a imagem cinematográfica não se limita a reproduzir o real, mas se constitui como construção resultante de decisões que tensionam o visível e o invisível. Nesse sentido, a câmera é tomada como agente ativo na elaboração de sentido, cuja operação implica uma relação entre gesto humano, programa técnico e contexto histórico.
    Ao situar a obra no cenário de censura e repressão institucional, busca-se compreender como os procedimentos cinematográficos participam da elaboração de uma estética da denúncia. A narrativa, centrada na trajetória de Edson, jovem acusado de terrorismo, mobiliza recursos visuais que evidenciam relações de poder e violência, articulando forma e conteúdo de modo indissociável. A análise privilegia, em especial, a parceria estética entre d’Almeida e Dib Lutfi, entendendo a direção de fotografia como dimensão constitutiva da concepção do filme. Como aponta Machado (2019), a fotografia não é indiferente ao que capta: ela se posiciona, intervém e produz sentido. Nesse horizonte, destacam-se procedimentos como o uso da câmera na mão, a instabilidade dos enquadramentos e a restrição deliberada do campo de visão, particularmente nas cenas de interrogatório e tortura. Tais escolhas não apenas constroem uma atmosfera de tensão, mas também aproximam o espectador da experiência sensorial de incerteza vivida pelo protagonista, instaurando um regime de visibilidade alinhado ao posicionamento crítico.
    A cinematografia, assim, deixa de ser mero suporte da narrativa para se afirmar como instância que orienta e condiciona a experiência do olhar. A pesquisa também explora a analogia entre o disparo da câmera e o gatilho da arma, compreendendo-a não apenas como metáfora formal, mas como índice de uma historicidade técnica compartilhada. Conforme Aquino (2016), dispositivos de captura e de violência partilham uma mesma lógica de operação baseada no “disparo”, o que, no contexto do cinema de denúncia, intensifica a potência da imagem como instrumento de registro e intervenção. Ao articular análise fílmica e fundamentação teórica, dialogando com autores como Vilém Flusser, Arlindo Machado, Susan Sontag e Ismail Xavier, o trabalho busca contribuir para o campo da história, teoria e crítica do cinema ao enfatizar a dimensão produtiva da imagem e seu papel na construção de discursos. Desse modo, propõe-se compreender Jardim de Guerra como um objeto em que técnica e política se entrelaçam, evidenciando a cinematografia como uma prática que ultrapassa o registro para se afirmar como ato que intervém, tensiona e responde ao mundo.

Bibliografia

    AQUINO, Lívia. Picture Ahead: a Kodak e a construção do turista-fotógrafo. São Paulo: Ed. do Autor, 2016
    BARTHES, Roland. A Câmara Clara: notas sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
    FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios Para Uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011
    MACHADO, Arlindo. A ilusão especular: Uma teoria da fotografia. São Paulo: Editora Gustavo Gili, 2019
    MORAES, Maria Fernanda Riscali de Lima. O cinema do diretor de fotografia: traços estilísticos em Walter Carvalho. 2020. 253 páginas. Tese (Doutorado em Meios e Processos Audiovisuais) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2020.
    SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
    SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
    XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 1977