Ficha do Proponente
Proponente
- Gustavo de Melo França (UFBA)
Minicurrículo
- Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe. Bacharel em Design Gráfico pela Universidade Federal de Sergipe. Membro atual do grupo de pesquisa A-Tevê (UFBA) e do Laboratório Interdisciplinar de Comunicação Ambiental (UFS).
Ficha do Trabalho
Título
- Dinâmicas de autoria e estilo na animação japonesa: Masaaki Yuasa e Kimi to, Nami ni Noretara
Resumo
- Este artigo propõe ampliar a discussão sobre autoria e estilo na animação japonesa por meio de uma análise estilística de Kimi to, Nami ni Noretara (2019), de Masaaki Yuasa. A partir de conceitos de Bordwell, Bourdieu, Baxandall, Burnett, entre outros, examina-se como Yuasa, enquanto autor primário, orienta colaboradores e organiza a forma visual e o intervalo animético do filme em resposta aos desafios de uma produção de animação cinematográfica no contexto japonês.
Resumo expandido
- Historicamente, os textos de referência sobre cinema têm omitido ou mencionado de forma superficial o cinema de animação, mantendo-o à margem do campo de estudos cinematográficos (Graça, 2006). Essa lacuna se aprofunda quando se considera a escassez de abordagens que examinam o estilo na animação a partir da relação entre os realizadores e as possibilidades de elaboração da obra. No caso específico da animação japonesa, poucos estudos levam em conta as particularidades do meio e o contexto produtivo na constituição do filme. Mesmo análises dedicadas a autores consagrados, como Hayao Miyazaki, raramente discutem as funções e os ofícios envolvidos na produção, o papel efetivo do diretor, sua relação com os demais agentes, os dilemas enfrentados e as soluções encontradas ao longo do processo criativo. Negligenciar essas dinâmicas contribui para a falta de compreensão sobre como uma animação é concebida e realizada. Mesmo no Japão, as pesquisas sobre a indústria de animação permanecem escassas, com prevalência de abordagens hermenêuticas que ignoram as dinâmicas produtivas por trás das obras (Mihara, 2025).
Diante dessas lacunas, este trabalho propõe ampliar a discussão sobre autoria e estilo na animação japonesa, considerando as dinâmicas específicas desse tipo de produção, em especial as relações colaborativas entre os diversos ofícios no processo de criação. Para tanto, realiza-se uma análise estilística de Kimi to, Nami ni Noretara (2019), produzido pelo estúdio Science Saru sob a direção de Masaaki Yuasa.
O estilo é aqui compreendido como a maneira de organizar os componentes técnicos e expressivos específicos de determinado meio, com o objetivo de materializar a obra em resposta aos problemas enfrentados pelo autor (Bordwell. 2008). Uma análise estilística pressupõe, portanto, uma noção de autoria, que formulamos a partir de Burnett (2013), Baxandall (2006) e Bourdieu (1996), que a situa no interior de uma cultura de gosto historicamente constituída, na qual artistas reagem e se posicionam em relação uns aos outros em um mercado de valores estéticos. Para tornar funcional esse modelo em uma produção coletiva e colaborativa como o anime, recorre-se à proposta de Mag Uidhir (2010) sobre autoria coletiva colaborativa, segundo a qual ser considerado autor de uma obra significa ser diretamente responsável, ao menos em parte, pelo fato de ela possuir as características que a definem dentro de sua categoria.
Nesse quadro, as intenções de Yuasa estão substancialmente presentes na forma como Kimi to, Nami ni Noretara satisfaz as condições para ser um filme de anime. Além disso, nesse tipo de produção, a autoria se organiza de maneira colaborativa, estruturada em relações de dependência entre autoria primária e secundária. O trabalho dos demais agentes envolvidos, como designers de personagens, animadores e outros profissionais, é orientado pelas interações com o diretor, identificado como autor primário, sem que se desconsiderem as contribuições desses colaboradores, que podem ser considerados como autores secundários.
Desta forma, a análise das escolhas estilísticas de Yuasa mobiliza conceitos bourdieusianos, como campo, espaço dos possíveis, espaço das obras e habitus, para examinar como a trajetória do diretor consolidou uma voz autoral no campo do anime, sedimentando um habitus criativo que se manifesta em escolhas recorrentes e reconhecíveis. Em articulação com o conceito de troc de Baxandall, que ilumina as relações simbólicas e materiais que condicionam a produção artística, e com o modelo de fluxo de intencionalidade de Burnett, que demonstra como o estilo do cineasta pode ser compreendido a partir de uma sequência intencional que vai das intenções iniciais até as soluções elaboradas diante dos desafios da produção, a análise evidencia como Yuasa orientou os agentes envolvidos e organizou a forma visual e o intervalo animético do filme em resposta aos problemas e demandas típicos de uma produção cinematográfica de anime.
Bibliografia
- BAXANDALL, Michael. Padrões de Intenção. São Paulo, Editora Schwarcz, 2006.
BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e estrutura do campo literário. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: A encenação no cinema. Campinas, Editora Papirus, 2008.
BURNETT, Colin. Hidden Hands at Work: Autorship, the Intertional Flux, and the Dynamics of Collaboration. Em: BLACKELL, W (org). A Companion to Media Authorship, 2013. p. 112-132.
CLEMENTS, Jonathan. Anime: A History. 2ª ed. Londres, BFI Publishing, 2023.
GRAÇA, Marina Estela. Entre o Olhar e o Gesto: Elementos para uma poética da imagem animada. São Paulo, Editora Senac São Paulo, 2006..
LAMARRE, Thomas. The Anime Machine: A Media Theory of Animation. London, University of Minnesota Press, 2009.
MAG UIDHIR, Christy. Minimal authorship (of sorts). Philosophical Studies, v. 154, n. 3, 2010. p. 373–387
MIHARA, Ryotaro. Decolonising anime studies: a prolegomenon. Japan Forum, v. 37, 2025. p.29-52.