Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcos Vinicius Yoshisaki (PUC-SP)

Minicurrículo

    Marcos Yoshi é diretor, roteirista e pesquisador nipo-brasileiro radicado em São Paulo. Realiza pós-doutorado na PUC-SP, onde desenvolve Pesquisa em Arte baseada no projeto Toshi Voltou do Japão, combinando memória, fabulação e fantasmagoria para dar voz a experiências silenciadas. É bacharel, mestre e doutor em Cinema pela Universidade de São Paulo, tendo realizado bolsa sanduíche na Universidade de Nagoya, Japão.

Ficha do Trabalho

Título

    Processos de Criação e Pesquisa em Arte: Campos em Relação

Resumo

    O trabalho mapeia e analisa a Pesquisa em Arte em Cinema em diálogo com os estudos de Processo de Criação, buscando identificar convergências e diferenças entre essas linhas de pesquisa. Proponho sistematizar conceitos e paradigmas da pesquisa artística no contexto acadêmico, considerando as especificidades do cinema e os desafios de compreender a criação como prática estética, processual e coletiva.

Resumo expandido

    Este trabalho se insere em uma pesquisa de pós-doutorado em desenvolvimento na PUC-SP. Para esta apresentação, proponho mapear e analisar o campo da Pesquisa em Arte em Cinema, articulando-o aos estudos de Processos de Criação. O objetivo é estabelecer conexões e diálogos, mas também evidenciar diferenças entre essas duas vertentes, buscando sistematizar e explicitar conceitos e paradigmas da pesquisa em arte no contexto acadêmico. Como aponta Cecília Salles (2024), o desafio está em ultrapassar o simples relato do processo criativo individual, sobretudo diante das especificidades e idiossincrasias da criação artística, atravessada por afetos e impulsos, mas também por investigações técnicas e decisões coletivas.
    A Pesquisa em Arte constitui um campo em expansão, cujas origens remontam aos anos 1990 e que se consolidou nas primeiras décadas do século XXI, especialmente na Europa Ocidental e na América do Norte. Trata-se de uma área de estudos que busca definir parâmetros ontológicos, epistemológicos e metodológicos para investigações que envolvem a realização artística, seus processos e obras, como modos de produção de conhecimento (BORGDORFF, 2012). De forma geral, essas pesquisas-criação caracterizam-se pela inter e/ou transdisciplinaridade e pela chamada “bricolagem metodológica” (FORTIN & GOSSELIN, 2014), em que a fluidez e a indeterminação dos processos geram, por um lado, certa instabilidade teórica e, por outro, potencialidades estético-cognitivas e inovações nos modos de difusão do conhecimento.
    Em comparação a áreas como música, artes do corpo e artes visuais, os debates sobre pesquisa em arte no cinema e no audiovisual ainda são menos frequentes ou sistematizados. A especificidade do cinema se impõe pela natureza coletiva da realização, pelos condicionantes econômicos e socioculturais de seus modos de produção, pelas diferentes etapas do fazer fílmico e por seus métodos próprios. Esses aspectos, articulados à singularidade dos processos criativos, à imprevisibilidade das filmagens e à dimensão sensorial e afetiva do filme, constituem matéria de reflexão para diferentes abordagens de pesquisa (BATTY e KERRIGAN, 2018).
    Já os estudos em Processos de Criação, desenvolvidos por Cecília Almeida Salles desde a década de 1990, têm como referência inicial a Crítica Genética. Esse campo se dedica à análise e interpretação dos processos criativos de artistas, sobretudo escritores e artistas visuais, a partir de uma perspectiva externa à obra. Nesse sentido, estabelece-se uma diferença fundamental em relação à Pesquisa em Arte, via de regra conduzida por artistas que investigam seus próprios processos. Parte desta análise consistirá, portanto, em propor uma nova abordagem para a Crítica de Processo, explorando como seus paradigmas podem ser aplicados à condição dos artistas-pesquisadores. Essa linha de investigação considera a criação como processo aberto, singular e em constante transformação (SALLES, 2011), bem como sua dimensão coletiva e relacional, marcada por tensões produtivas entre agentes criativos e seus contextos socioculturais (SALLES, 2006; 2017).
    A proposta desta análise comparativa é destacar e articular questões, problemáticas e contribuições dessas duas tradições críticas-reflexivas, sem a pretensão de esgotar suas possibilidades. Com isso, busca-se oferecer referenciais e paradigmas que possam orientar tanto artistas-pesquisadores quanto docentes e orientadores envolvidos em processos de criação e pesquisa dentro da academia.

Bibliografia

    BATTY, C. e KERRIGAN, P. (eds.). Screen Production Research: Creative Practice as a Mode of Enquiry. London: Palgrave Macmillan, 2018.

    BORGDORFF, Henk. The Conflict of the Faculties: Perspectives on Artistic Research and Academia. Leiden: Leiden University Press, 2012.

    FORTIN, S. & GOSSELIN, P. Considerações metodológicas para pesquisa em arte no meio acadêmico. In. Art Research Journal / Revista de Pesquisa em Arte. Brasil: vol. 1/1, jan./jun. 2014, pp. 1-17.

    SALLES, Cecilia A. Gesto Inacabado: processo de criação artística. 5. ed. São Paulo: Intermeios. 2011.

    SALLES, Cecilia A. Redes da criação: construção da obra de arte. Vinhedo: Ed. Horizonte, 2006.

    SALLES, Cecilia A. Processos de criação em grupo: diálogos. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2017.

    SALLES, Cecília A. “O Cineasta na Universidade”. In. MELLO, J. G.; RODRIGUES, C. D. R.; CARVALHO, M. e BASTOS, T. C. (orgs.). Processos de Criação e Reflexões Teóricas no Cinema. São Paulo: Gênio Editorial, 2024.