Ficha do Proponente
Proponente
- João Vitor Resende Leal (IFB)
Minicurrículo
- João Vitor Leal é professor e pesquisador no Instituto Federal de Brasília, onde coordena o Grupo de Estudos do Corpo-Imagem (Geci). É mestre em cinema pela Universidade de Paris-3 e doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Eca-Usp, com período sanduíche na Universidade de Montréal e estágio pós-doutoral na Unicamp. Suas pesquisas abordam a noção de personagem e as relações entre corpo e imagem no audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- O ator-personagem: variações do jogo representacional
Mesa
- Atuação audiovisual: metodologias e aplicações
Resumo
- Este trabalho analisa a relação entre ator e personagem no cinema propondo uma taxonomia organizada em quatro modalidades do jogo representacional: encarnação, interpretação, citação e emanação. Colocando em diálogo os estudos atorais e as teorias da imagem, investigamos como as formas de nomear e descrever o fenômeno ator-personagem implicam diferentes experiências espectatoriais e insinuam perspectivas distintas para a análise fílmica.
Resumo expandido
- Em uma passagem de seu livro La crise du personnage dans le théâtre moderne, publicado originalmente em 1978, Robert Abirached sugere que questionemos a sério três palavras que, no senso comum da língua francesa, são frequentemente empregadas para se referir ao trabalho do ator no teatro: incarner (encarnar), jouer (jogar) e interpréter (interpretar). Segundo ele, “essas três palavras, longe de se sobreporem semanticamente, remetem a três modos de abordagem diferentes, que representam três aspectos diferentes e solidários de uma mesma operação” (Abirached, 1994, p. 68). Essa ideia, apenas lateralmente explorada no livro, constitui o ponto de partida deste trabalho.
Ao revisitar e deslocar a sugestão de Abirached para o campo do cinema, propomos uma taxonomia de quatro dimensões distintas do jogo representacional no filme de ficção: a encarnação, a interpretação, a citação e a emanação. Nosso objetivo não é discorrer sobre métodos de trabalho dos atores, tampouco estabelecer critérios para uma avaliação de suas performances. Em vez disso, pretendemos investigar a relação entre ator e personagem tomando-a como ponto privilegiado para pensar as fricções entre corpo e imagem, presença e representação. Nesse sentido, focalizaremos a articulação ator-personagem como desdobramento de uma análoga articulação corpo-imagem (Leal, 2022) e daremos prioridade, no horizonte da análise, à experiência do espectador. Nossa hipótese central consiste, portanto, em considerar que as formas de nomear e descrever o fenômeno em questão (o ator-personagem) não são neutras: cada forma insinua caminhos distintos para sua análise, mobilizando pressupostos específicos e revelando diferentes nuances no que diz respeito à experiência do espectador.
Argumentamos que, no modo da encarnação, que remete à tradição teológica cristã (Michaud, 1989), o personagem existe como entidade autônoma que se funde ao ator em uma espécie de transubstanciação espetacular. De modo distinto, a interpretação faz do ator um intérprete, um mediador ativo responsável pela tradução sensível (física, gestual, vocal) de um personagem cuja existência (textual, abstrata, imaterial), embora lhe seja anterior e exterior, não é autônoma. Já na citação – termo empregado por Brecht (1978) para descrever o ator épico – essa mediação é deliberadamente explicitada, ampliando as distâncias entre ator e personagem. Por fim, encerrando (provisoriamente) nossa taxonomia, gostaríamos de propor a emanação como uma relação em que o personagem não precede o ator nem se separa dele, mas emerge como um dos efeitos de sua performance e de sua conversão em imagem.
A fim de ilustrar e colocar essas categorias à prova, recorreremos a um pequeno conjunto de filmes contemporâneos que tematizam, de modo consciente, o trabalho dos atores no cinema – filmes como Império dos sonhos (David Lynch, 2006), Holy Motors (Leos Carax, 2012), O congresso futurista (Ari Folman, 2013) e Segredos de um escândalo (Todd Haynes, 2023). Nesse recorte, tomaremos os filmes como laboratórios de experimentação nos quais o espectador testemunha os processos de fabricação do personagem e é convidado a questionar seu próprio investimento na ficção.
A partir desse esforço inicial de sistematização, buscamos contribuir para uma compreensão mais rigorosa do fenômeno ator-personagem no cinema, bem como para uma revisão crítica das ferramentas teóricas e metodológicas que o nomeiam e descrevem. Com isso, esperamos também aprofundar o diálogo entre os estudos atorais e as teorias da imagem.
Bibliografia
- ABIRACHED, Robert. La crise du personnage dans le théâtre moderne. Paris: Gallimard, 1994.
AMIEL, Vincent. Le corps au cinéma: Keaton, Bresson, Cassavetes. Paris: PUF, 1998.
BELTING, Hans. Antropologia da imagem: para uma ciência da imagem. Lisboa: KKYM, 2014.
BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2010.
GUIMARÃES, Pedro. “O ator como forma fílmica: metodologia dos estudos atorais”. Aniki, v. 6, n. 2, 2019, p. 81-92.
LEAL, João Vitor. “Do corpo à imagem: paradoxos da presença no meio audiovisual”. Logos, v. 57, n. 2, 2022, p. 129-151.
MICHAUD, Philippe-Alain. “Théologie et cinema: le personnage incarné”. Admiranda, n. 4, 1989, p. 17-21.
MIRANDA, José Bragança de. Corpo e imagem. São Paulo: Annablume, 2011.
NACACHE, Jacqueline. O ator de cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2012.
PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 2008.