Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Francisco Alves dos Santos Junior (UFRB)

Minicurrículo

    Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Pesquisador do Grupo de Estudos em Experiência Estética, Comunicação e Artes (GEEECA/UFRB). Foi professor do curso de Jornalismo da União Metropolitana de Educação e Cultura (UNIME). Realizou pós-doutorado com bolsa CNPq no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRB. Atua como pesquisador de conteúdo, arquivos e personagens para produções audiovisuais e podcasts, sendo associado à PAVIC.

Ficha do Trabalho

Título

    A IA e as bifurcações do filme-ensaio

Resumo

    Este trabalho analisa Sincerely, Victor Pike (2024), de Gregor Petrikovič e Total Pixel Space (2024), de Jacob Adler, para compreender as transformações do filme-ensaio com o uso da inteligência artificial. Enquanto o primeiro reorganiza memórias a partir de um arquivo íntimo de áudios, o segundo explora a imagem como dado computacional, evidenciando novas formas de construção no ensaio audiovisual contemporâneo.

Resumo expandido

    Os filmes Sincerely, Victor Pike (2024), de Petrikovič e Total Pixel Space (2024), de Jacob Adler, podem ser considerados exemplares para compreendermos as transformações do filme-ensaio na era da inteligência artificial (IA). O primeiro se baseia em um arquivo íntimo de gravações de áudio, enquanto o segundo explora o universo no qual todas as imagens que poderiam ser criadas já existem. Em ambos os casos, a IA não atua apenas como ferramenta, mas como condição para novas formas de pensamento audiovisual (Manovich e Arielli, 2023; Zylinska, 2023). Em Sincerely, Victor Pike, o ponto de partida é um arquivo de áudio iniciado em 2016, que reúne conversas cotidianas motivadas por uma perda de memória do diretor. O filme se constrói a partir dessas gravações com pessoas próximas e articula imagens geradas por IA a relatos de indivíduos que nunca compartilharam o mesmo tempo ou espaço, mas que passam a coexistir na memória de um personagem semificcional chamado Victor Pike. A IA participa da transcrição, organização e recombinação desses materiais e gera os chamados “roteiros da vida”. Esse processo transforma o arquivo e faz com que ele deixe de ter apenas uma função de preservação para se tornar um dispositivo de elaboração ensaística. Já em Total Pixel Space, a dimensão ensaística se constrói a partir de uma leitura de A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges. O cineasta e músico Jacob Adler utiliza inteligência artificial generativa para explorar a natureza das imagens digitais como combinações numéricas e problematiza a existência ou não de um número infinito dessas possibilidades. Desse modo, é possível entender ambos os filmes como formas contemporâneas do filme-ensaio (Rascaroli, 2009; Corrigan, 2015; Almeida, 2018), nos quais a reflexão se constrói pela articulação entre forma, ideia e experiência. Em Sincerely, Victor Pike, o ensaio emerge da relação entre memória e arquivo, enquanto em Total Pixel Space emerge da exploração da imagem como dado matemático e computacional. Essas obras evidenciam uma inflexão no filme-ensaio, pois tradicionalmente ele se configurava como uma forma de pensamento subjetivo articulado pela montagem e, na era da IA, passa a incorporar processos algorítmicos como parte constitutiva desse pensamento, o que tensiona noções clássicas de autoria e introduz questões relativas à opacidade dos sistemas algorítmicos. Assim, Sincerely, Victor Pike e Total Pixel Space permitem compreender o filme-ensaio contemporâneo como um campo de experimentação no qual memória, algoritmos e imaginação se entrelaçam. Seja na reconstrução de experiências vividas ou na exploração de universos possíveis, a IA potencializa novas formas de pensar com imagens e desloca o filme-ensaio para um regime no qual memória, lógica algorítmica e imaginação operam de modo indissociável.

Bibliografia

    ALMEIDA, Gabriela. O ensaio fílmico ou o cinema à deriva. São Paulo: Alameda, 2018.

    CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio: desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.

    MANOVICH, Lev; ARIELLI, Emanuele. Imagens IA e mídias generativas: notas sobre a revolução em curso. Eco-Pós, v. 26, n. 2, p. 16–39, 2023.

    PRIOSTE, Marcelo. Quando a IA vai ao cinema. In: FERRARI, Pollyana (org.). Descendentes de Eliza: os impactos da inteligência artificial generativa no mercado de trabalho, na desinformação, nas artes e no pensamento crítico. Cachoeirinha: Fi, 2024. p. 111–125.

    RASCAROLI, Laura. The Personal Camera: Subjective Cinema and the Essay Film. London; New York: Wallflower Press, 2009.

    TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). O ensaio no cinema: formação de um quarto domínio das imagens na cultura audiovisual contemporânea. São Paulo: Hucitec, 2015.

    ZYLINSKA, Joanna. Arte de la IA: máquinas de visión y sueños deformados. Bogotá: Pontificia Universidad Javeriana; SensoLab, 2023.