Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Agnes Cardoso Gonçalves (UFSCar)

Minicurrículo

    Mestre e doutoranda em imagem e som pela Universidade Federal de São Carlos. Pesquisa aproximações entre teorias cuir e queer e teorias do cinema. Travesti orgulhosa.

Ficha do Trabalho

Título

    Relatório de uma pesquisa em transição (2023 – 2025)

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    O presente trabalho busca discutir o processo de produção da dissertação “O que há de queer na análise fílmica? Um estudo de Titane sob a perspectiva da filosofia de Paul B. Preciado” escrita por Agnes Cardoso Gonçalves ao longo da transição de gênero da autora. Buscando estabelecer paralelos entre os processos de transição, desenvolvimento da pesquisa, o filme analisado na dissertação e a obra do filósofo Paul B. Preciado, em especial suas ideias desenvolvidas no livro Dysphoria Mundi (2024).

Resumo expandido

    Entre os anos de 2023 e 2025 desenvolvi uma pesquisa que se tornou a minha dissertação de mestrado intitulada “O que há de queer na análise fílmica? Um estudo de Titane sob a perspectiva da filosofia de Paul B. Preciado” em que se embarca em um pensamento sobre como produzir uma análise fílmica de Titane (Julia Ducournau, 2021) a partir da filosofia queer de Paul B. Preciado, e de fato produzir esta análise. Ao longo da pesquisa entendi que

    o que é preciso fazer é sacudir as tecnologias da escritura do sexo e do gênero, assim como suas instituições. Não se trata de substituir certos termos por outros. Não se trata nem mesmo de se desfazer das marcas de gênero ou das referências à heterossexualidade, mas sim de modificar as posições de enunciação (Paul B. Preciado, 2017, p.27).

    Durante o processo da pesquisa um dado pessoal reconfigurou toda a pesquisa e minha vida pessoal, iniciei a minha transição de gênero me assumindo como travesti. Em dado momento escrevo que

    o filme conversa muito comigo em diversos níveis. Um primeiro e, talvez mais óbvio, pelo compartilhamento do processo de transição de gênero que tanto eu, João/Agnes, quanto a protagonista, Alexia/Adrien, passamos. Titane […] auxiliou a me entender como sujeito. Preciado me encorajou a tomar controle do meu próprio corpo e enxergar a beleza na transição (Gonçalves, 2025, p. 5).

    A reconfiguração gerada pelo transicionar me deu uma nova perspectiva inclusive epistemológica para a pesquisa. Meu nome muda, minha vida muda, meu corpo muda, meu pensamento muda, meu desejo muda, mas eu mantenho (quase) a mesma.

    Quando parto para a minha transição, decido viver sob minhas próprias regras e, acima de tudo, para o presente trabalho, faço disso minha posição epistemológica na pesquisa, eu frustro o que a sociedade quis fazer de mim. Rejeito a posição de analista afastada com um olhar frio sobre os objetos, me faço presente neles da mesma forma que eles se fazem presentes em mim. Faço então desse trabalho um espaço de aproximações e afastamentos entre mim e os meus objetos de pesquisa. Um trabalho sobre os corpos em tela que também abarca a relação do meu corpo com o filme, dessa forma podendo refletir a transição ficcionalizada junto da minha pessoal.

    A presente proposta de trabalho tem como objetivo construir um relatório disfórico do processo de pesquisa acadêmica/pessoal. Disfórico no sentido que Preciado (2024) define em seu livro Dysphoria Mundi quando afirma que “a disforia é má. É nossa miséria. É exigente. É dolorosa. Nos destrói. Nos transforma. Mas é também nossa verdade. Precisamos aprender a ouvi-la. É a nossa riqueza, a disforia. A intuição que nos permite saber o que é preciso mudar” (Preciado 2024, p.543). Consegui construir a análise pois a disforia não é somente minha, ela é social, ela é mundial. Não conseguimos mais sobreviver em um mundo em que não consegue mais comportar as existências pessoais e coletivas que surgem a todo momento. Acredito que transicionar é sempre poesia. Nem sempre poesia é agradável, nem sempre poesia é indolor. Mas é sempre poesia. Faço da minha pesquisa a minha poesia. Por fim, sigo o pedido que Preciado nos faz: “utilize a disforia como plataforma revolucionária” (Paul B. Preciado, 2024).

Bibliografia

    Gonçalves, Agnes Cardoso. O que há de queer na análise fílmica? Um estudo de Titane sob a perspectiva da filosofia de Paul B. Preciado. 2025. Dissertação (Mestrado em Imagem e Som) – Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade federal de São Carlos, 2025.

    PRECIADO, Paul B. Dysphoria mundi: O som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.

    TITANE. Direção: Julia Ducournau. França, Bélgica: Kazak Productions, Frakas Productions, Arte France Cinéma, VOO, BeTV, 2021.