Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ilma Carla Zarotti Guideroli (MAC-USP)

Minicurrículo

    Pós-doutoranda no MAC-USP com a pesquisa “As obras audiovisuais de Regina Vater no acervo do MAC-USP: entre experimentalismos, arquivos e deslocamentos”. Doutora em História da Arte (2025, Unifesp). Mestre em História da Arte (2020, Unifesp) e em Artes Visuais (2010, Unicamp). Graduada em Educação Artística (2008, Unicamp). Pesquisa as relações entre artes visuais, videoarte e cinema no campo experimental com enfoque nas questões políticas partindo de uma abordagem contracolonial.

Ficha do Trabalho

Título

    Percursos, deslocamentos e experimentalismos por três vídeos Super-8 de Regina Vater

Seminário

    Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas

Resumo

    Este trabalho propõe analisar três vídeos da artista Regina Vater filmados em Super-8: Rio to Oiticica (1979-81), Saudades do Brasil (1984) e Turning Sadness Inside Out (1985). Realizados durante um período de efervescentes acontecimentos políticos e culturais, dão a ver os deslocamentos geográficos da artista. Interessa-nos refletir sobre os modos como Vater evidencia aspectos da cultura brasileira, especialmente quanto às potencialidades da inventividade atrelada à condição precária.

Resumo expandido

    A artista carioca Regina Vater (1943) tem uma variada e extensa produção, prezando pelos experimentalismos e trânsitos por diferentes linguagens e suportes. Enquanto mulher brasileira e latino-americana, suas obras abordam questões políticas e sociológicas abrangentes como a ecologia, o feminismo, os regimes ditatoriais e as desigualdades sociais. Embora relativamente pouco conhecida, sua trajetória soma quase seis décadas, se estendendo até os dias de hoje. Estas movimentações constantes se aplicam aos seus deslocamentos geográficos entre os anos 1970 e 80, período marcado pela efervescência de acontecimentos sociais, políticos e culturais. Augusto de Campos refere-se a Vater como uma “autêntica ‘outsider’ [que] está sempre, salutarmente, ’fora do lugar’” (1996).
    Regina Vater iniciou suas experimentações com o vídeo em 1974, o que a insere na primeira geração de artistas brasileiros a trabalharem com a linguagem – juntamente com Sônia Andrade, Letícia Parente, Anna Bella Geiger e Regina Silveira, entre outros. Até meados dos anos 1980 Regina Vater filmou majoritariamente em Super-8, tendo realizado cerca de 30 vídeos. Diante dessa extensa produção, nossa proposta é analisar três deles: Rio to Oiticica (1979-81, 11 minutos); Saudades do Brasil (1984, 26 minutos); e Turning Sadness Inside Out [Virando a Tristeza pelo Avesso] (1985, 23 minutos). Atualmente estas obras pertencem ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, e integram um conjunto de 23 audiovisuais doados pela artista ao museu em 2014.
    Nossa hipótese é que tais vídeos se configuram em uma trilogia de filmes-diários, compostos por imagens e sons que evocam às suas memórias do Rio de Janeiro, intercaladas aos registros do período que viveu em Nova Iorque. Rio to Oiticica, Saudades do Brasil e Turning Sadness Inside Out são marcados por uma mistura entre alegria, festividade e celebração, mas também à certa melancolia e nostalgia assumidas pela artista diante da falta que sentia do Brasil.
    Rio to Oiticica conta com cenas do Rio de Janeiro, intercalando imagens do morro da Mangueira e da praia de Ipanema, acompanhadas por um pot-pourri sonoro composto por diversos trechos de músicas brasileiras da época. Em Saudades do Brasil, observamos alternâncias entre imagens registradas no Rio de Janeiro e em Nova Iorque coberta pela neve. A trilha sonora é composta por fragmentos de canções brasileiras sobrepostos ou intercalados à voz da própria artista, que conversa em inglês ao telefone com uma amiga, tecendo reflexões sobre as singularidades da cultura brasileira. Turning Sadness Inside Out é composto por uma multiplicidade de imagens e sons do carnaval carioca, alternando desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí em 1983 e transeuntes que caminham apressadamente alheios às festividades.
    Diante da constatação do olhar limitado e equivocado que os estrangeiros tinham sobre o Brasil, Vater costumava compartilhar suas percepções com outros brasileiros que também viviam fora do país, questão que pautou muitas de suas obras. Ela dedicou um dos vídeos a Hélio Oiticica e outro a Glauber Rocha. Não por acaso, Hélio e Glauber romperam com paradigmas nas artes visuais e no cinema, colocando em pauta, por exemplo, a precariedade atrelada à inventividade, questão de suma importância e investigada amplamente pela artista.
    Nessa direção, trata-se de encarar a cultura brasileira em diálogo, no sentido de uma legitimação do Brasil no exterior. Assim, a artista traduz a recusa do exotismo para o campo das imagens e sons, produzindo uma materialidade afirmativa e evidenciando uma poética do entre-lugares, em que o precário não se opõe ao experimental, mas se torna a própria força inventiva desterritorializada. Diante disso, como os vídeos de Regina Vater podem contribuir para encarar a precariedade brasileira enquanto operadora inventiva, para além dos parâmetros pejorativos que possam ser atribuídos ao termo, entretanto sem romantizar tal condição?

Bibliografia

    ALZUGARAY, Paula. Regina Vater: Quatro ecologias. In: REGINA Vater: Quatro Ecologias. Organização: Paula Alzugaray. Rio de Janeiro, Editora Oi Futuro, 2013, p. 9-21.

    Brazilian Film & Video Preservation Project: Acesso em 24 abr. 2026.

    CAMPOS, Augusto de. Texto sobre a obra Escape da Paisagem. Catálogo de exposição individual de Regina Vater no Mexic-Arte Museum em Austin, Texas , s.p., 1996. Disponível em Acesso em 15 dez. 2025.

    GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

    LICHTENSTEIN, Jacqueline. A cor eloquente. Tradução: Maria Elizabeth Chaves de Mello e Maria Helena de Mello Rouanet. São Paulo: Siciliano, 1994.

    PAULA, Arethusa Almeida de. Comigo ninguém pode: a voz e o lugar de Regina Vater. Tese de Doutorado, Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, 2014.