Ficha do Proponente
Proponente
- Luiz Antonio Brasil de Góis (UNICAMP)
Minicurrículo
- Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Multimeios, no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Graduado no curso de Licenciatura em Teatro pela Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). Integrante do grupo Genecine – Grupo de Estudos Sobre Gêneros Cinematográficos e Audiovisuais. E-mail: l295998@dac.unicamp.br.
Ficha do Trabalho
Título
- Revisão, balanço e subversão: a influência da chanchada em dois filmes de Júlio Bressane
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O presente trabalho procura analisar os filmes Cuidado Madame (1970) e O Rei do Baralho (1973), dirigidos pelo cineasta carioca Júlio Bressane, procurando investigar como ambas as obras assimilam gestos, iconografias, cenários e clichês fílmicos das “chanchadas”, isto é, as comédias e musicais populares carnavalescos, oriundos da década de 1930, que tiveram sua solidificação como um gênero cinematográfico nacional a partir das obras produzidas pela Atlântida Cinematográfica, entre 1943 a 1962.
Resumo expandido
- O trabalho do cineasta carioca Júlio Bressane acaba sendo anexado ao movimento cinematográfico denominado de Cinema Marginal, entre os anos de 1968 e 1973, conforme conceituação proposta por Fernão Ramos (1987). De acordo com Ismail Xavier (2006), os filmes realizados pelo cineasta no final da década de 1960, estariam em consonância com a experiência do desconcerto dentro do cenário cultural brasileiro que buscava um choque mais incisivo com seu público, resgatando o conceito de antropofagia de Oswald de Andrade (1927), assimilando experiências artísticas estrangeiras e nacionais em sua obra, desenvolvendo um panorama cinematográfico em contínuo estado de contaminação cultural. As comédias populares e carnavalescas produzidas entre as décadas de 1930 a 1950 no Brasil, também conhecidas como “chanchadas”, seriam resgatadas por alguns cineastas marginais, como Rogério Sganzerla e Eliseu Visconti, que viam nesse gênero a valorização da paródia e do escárnio em cena. Conforme aponta João Luiz Vieira (2018), a partir de Carnaval no Fogo (1949), as chanchadas estabelecem um modelo narrativo, aliado a um modelo de produção e de contrato, que identificou certos atores a personagens tipificados, como uma primeira tentativa de um star-system. Dentro os mais variados personagens nessas produções, os cômicos (como por exemplo, Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves e Zezé Macedo), interpretaram personagens subordinados a uma condição social subalterna, como malandros, empregadas domésticas, migrantes nordestinos, faxineiros, entre outros. Identificando a chanchada como um gênero cinematográfico nacional, e expressão cultural de um país subdesenvolvido, partindo dos estudos de Vieira (2003), Bernadette Lyra (2007) e Rosângela de Oliveira Dias (1993), o presente trabalho procura investigar a assimilação das chanchadas nos filmes Cuidado Madame (1970) e O Rei do Baralho (1973), ambos dirigidos por Bressane. Na análise do primeiro filme, realizado pela produtora carioca e autônoma Belair Filmes (1970), procura-se investigar uma subversão das esquetes cômicas envolvendo empregadas domésticas “irreverentes” e suas patroas autoritárias nas chanchadas, a partir de filmes estrelados pelas atrizes Zezé Macedo e Dercy Gonçalves. No segundo filme, procura-se compreender a presença do ator Grande Otelo como uma das várias iconografias chanchadescas a serem assimiladas, a obra foi filmada dentro dos estúdios antigos da Cinédia, uma das primeiras produtoras a realizarem comédias musicais e carnavalescas no início da década de 1930, antes da chanchada constituir-se como um gênero cinematográfico a partir da vigência da produtora Atlântida Cinematográfica entre os anos de 1943 a 1962. O pesquisador e cineasta Jairo Ferreira (1986), sugere um processo autoral no cinema de Bressane, consistindo numa “revisão, balanço e subversão dos clichês” cinematográficos (1986, p. 213-214). Identificar esse modus operandi é o ponto de partida para analisar intertextualmente as chanchadas nos filmes do cineasta carioca.
Bibliografia
- DIAS, Rosângela de Oliveira. O mundo como chanchada. Cinema e imaginário das classes populares na década de 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.
FERREIRA, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Ed. Limiar, 1986.
LYRA, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas. Conexão – Comunicação e Cultura, Caxias do Sul, v. 6, n. 11. p. 141-159, jan./jun. 2007.
RAMOS, Fernão Pessoa. Cinema marginal (1968-1973): a representação em seu limite. São Paulo: Ed. Brasiliense: 1987.
VIEIRA, João Luiz. A chanchada e o cinema carioca (1930-1955). In: RAMOS, Fernão; SCHVARZMAN, Sheila (Org.). Nova História do Cinema Brasileiro – Volume 1. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018.
____. “O corpo popular, a chanchada revisitada, ou a comédia carioca por excelência” In. Acervo, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 45-62, 2003.
XAVIER, Ismail. Roteiro de Júlio Bressane. Apresentação de uma poética in: Alceu, vol. 6, n. 12, jan/jun 2006.