Ficha do Proponente
Proponente
- Lucas Ravazzano de Mattos Batista (UFBA)
Minicurrículo
- Possui graduação em Comunicação Social, habilitação em Relações Públicas pela Universidade Católica do Salvador (2009), é mestre pelo Programa de Pós-Graduação emComunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia e Doutor pelo POSCOM/UFBA. Atuou como professor dos cursos de Comunicação (Cinema,Jornalismo e Publicidade e Propaganda) da UniFTC/Salvador de 2018 a 2023. Atuou como professor substituto na Faculdade de Comunicação da UFBA Entre 2025 e 2026.
Ficha do Trabalho
Título
- Trabalhar cansa: o mito do zumbi e a exploração do trabalho em A Sombra do Pai
Resumo
- A pesquisa visa analisar o filme A Sombra do Pai, explorando a figura do zumbi como metáfora da desumanização do trabalho. A partir de autores como Neale, Carroll e Russell, o trabalho conecta o gênero horror a rituais culturais e temores sociais, destacando a origem afro-caribenha do zumbi, ligada ao medo da escravidão no Haiti. A análise foca no personagem Jorge, que sofre um processo de “zumbificação” após um acidente laboral, tornando-se um morto-vivo cuja existência é o trabalho.
Resumo expandido
- O presente trabalho visa analisar o filme brasileiro de horror A Sombra do Pai a partir da figura do zumbi e do histórico dessa criatura em operar como metáfora para o processo de desumanização causado pela exploração do trabalho. A análise primeiramente irá recorrer a teóricos como Neale (2000), Altman (2000) e Grant (2007) para pensar como gêneros narrativos não como meras estruturas textuais, mas como construções culturais, influenciando e sendo influenciados por contextos sociais e culturais nos quais se inserem. Mais que isso, esses autores ajudam a pensar como gêneros narrativos funcionam como “rituais de confirmação” reafirmando certas ideias e valores socialmente compartilhados. O passo seguinte é recorrer a Carroll (1990) para definir o que entendemos como horror, pensando no funcionamento do gênero a partir do esforço de causar sentimentos como medo e nojo. A partir de Carroll (1990) o trabalho irá argumentar como o gênero cria ameaças ou criaturas que refletem os temores de um determinado grupo social em um tempo e espaço específicos. Para ajudar a construir essa argumentação a pesquisa irá recorrer ao trabalho de Russell (2010) sobre a figura do zumbi no audiovisual. O autor traça as origens da figura do zumbi à cultura afro-caribenha, especificamente ao Haiti pós independência, contextualizando como a revolução haitiana foi um processo liderado por pessoas escravizadas que lutaram para expulsar os colonizadores franceses. Décadas depois da independência começaram a surgir histórias sobre feiticeiros com o poder de ressuscitar os mortos de sua cova, transformando-os em zumbis e controlando esses zumbis para trabalhar em suas plantações, refletindo o temor de uma população recém liberta da escravidão em ser novamente escravizada, mesmo depois de sua morte. Além do contexto histórico, o trabalho também irá recorrer ao mapeamento que Russell fez sobre os filmes de zumbis, mostrando como as primeiras produções dessa natureza, como White Zombie (1932), traziam inspiração dessas histórias afro-caribenhas sobre feiticeiros que controlavam hordas de zumbis e como aos poucos essa inspiração foi deixada de lado para usar o zumbi como metáfora para o perigo atômico ou do consumismo individualista do capitalismo. A partir desses referenciais o trabalho irá partir para uma análise do filme A Sombra do Pai a partir do arco narrativo do personagem Jorge, pai da protagonista Dalva. A análise busca demonstrar como o personagem passa por um processo de “zumbificação” ao longo do filme depois de se ferir no trabalho e essa ferida aos poucos se espalhar pelo seu corpo, como uma infecção. Quando isso acontece, o personagem vai aos poucos se fechando para os problemas ao seu redor, se tornando ainda mais bruto e incapaz de articular suas emoções, transitando entre a casa e o trabalho como um morto vivo que não tem qualquer outro propósito de vida que não o trabalho, estabelecendo um diálogo entre a construção do horror no filme e as tradições afro-caribenhas a respeito dos zumbis apontadas por Russell (2010).
Bibliografia
- ALTMAN, Rick. Los géneros cinematográficos. Barcelona: Paidós, 2000.
CARROLL, Noel. A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração. São Paulo: Papirus, 1990.
GRANT, Barry Keith. Film genres: from iconography to ideology. Londres: Wallflower
Press, 2007.
NEALE, Steve. Genre and Hollywood. Londres: Routledge, 2000.
RUSSELL, Jamie. Zumbis: O Livro dos Mortos. São Paulo: Leya, 2010