Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Renato Souto Maior Sampaio (UNICAMP)

Minicurrículo

    Doutorando em Multimeios pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) na linha de pesquisa em História, Estética e Domínios de Aplicação do Cinema e da Fotografia. Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na linha de pesquisa Estéticas da Imagem e do Som. Possui graduação em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa melodrama, melancolia e artifício.

Ficha do Trabalho

Título

    Artifícios anacrônicos e nostálgicos: uma viagem outra em “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola

Resumo

    Esta comunicação investiga o filme “Maria Antonieta” (2006), de Sofia Coppola, a partir de conceitos como o artifício, a nostalgia e o anacronismo. A obra completa vinte anos em 2026, e com isso pretende-se analisá-la a partir de seu legado e impacto na cultura audiovisual. Elementos tidos como nostálgicos e anacrônicos são encontrados na narrativa do longa-metragem e articulados de formas distintas, por meio de imbricações que resultam em uma espécie de “viagem” por temporalidades diversas.

Resumo expandido

    Ao autorizar seus personagens em Versalhes a falar um inglês com sotaque e gírias, e escolher uma jovem atriz contemporânea conhecida no universo da cultura pop, enquanto usa músicas dos anos 80 na trilha sonora e ainda mostra um par de tênis All Star em pleno século 17 (Barbosa, 2014), Sofia Coppola usa do artifício, por meio do anacronismo, para atingir uma sensibilidade nostálgica. Para Elise Wortel, “Maria Antonieta” é um dos primeiros filmes de época popular a diminuir completamente a distância entre a câmera e seus objetos e atores, tornando o passado tangível, sem o sangue do espetáculo histórico. É um filme radicalmente íntimo ao traçar texturas que salvam o passado enquanto ele é preservado em si mesmo (Wortel,2008).
    Exibido pela primeira vez em 24 de maio de 2006, no 59º Festival de Cannes, foi vaiado por causa do seu estilo anacrônico e abordagem controversa. Foi mesmo considerado por alguns como leviano face à magnitude do momento histórico que representa. Nessas suas duas décadas de lançamento, completados em 2026, o filme permanece como uma obra a ser celebrada e referenciada por muitas outras produções ao longo dos anos. Da sua estreia polarizada e criticada ao extremo, e muitas vezes ridicularizada e subestimada, até a atualidade, o longa tem mostrado uma relevância considerável, por ter influenciado e continuar a inspirar toda uma nova geração de autores e realizadores. “O filme acabou por se tornar um clássico e um modelo para os filmes anacrônicos e históricos alternativos que mais tarde surgiriam, em especial aqueles que usam o anacronismo para contar histórias de mulheres célebres” (Russo, 2024, p.17).
    Rachel Verona Cote (2021) aponta que “Maria Antonieta” ajudou na maior complexidade e representação de personagens femininas em filmes de época, muitos desses com estilo e abordagem anacrônicos. “A Favorita” (Yorgos Lanthimos, 2018) é um dos principais exemplos dessa influência, no cinema, onde mescla o material documental biográfico com anacronismos na construção do mundo diegético e das personagens, oferecendo às figuras históricas retratadas mais capacidade de agenciamento do que lhes seria atribuída em suas respectivas épocas. Já na televisão, séries como “Bridgerton” (da Netflix, estreou em 2020, comandada pela executiva Shonda Rhimes) e “The Great” (exibida entre 2020 e 2023, da Hulu, conta com roteiro de Tony McNamara, o mesmo de “A Favorita”), são exemplos de materiais inspirados no filme de Sofia Coppola, e em seu legado.
    Outra obra recente com aspecto anacrônico é o filme “Saltburn” (2023), da cineasta Emerald Fennell. A produção mescla uma história contemporânea a partir de um anacronismo estilístico muito próximo, em alguns momentos, do engendrado por Coppola. Fennell lançou em 2026 uma nova adaptação cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes”, com a atriz Margot Robbie como protagonista. O longa-metragem também reimagina a obra literária dentro de uma abordagem nostálgica e anacrônica. É curioso notar que todos esses projetos possuem mulheres em seus quadros principais, sejam na direção, roteiro ou como produtoras executivas. A questão do gênero é importante de ser destacada, pois cineastas mulheres costumam ser mais atacadas por críticos de cinema quando lidam com material histórico, como se não fossem capazes ou sérias o suficiente para comandar tais narrativas.
    No ano em que comemora duas décadas de lançado, “Maria Antonieta” parece reverberar ainda mais o seu apelo anacrônico e nostálgico (Barbosa, 2014), como obra catalisadora de tantas outras. É uma data e aniversário importantes, que demonstram a relevância e impacto cultural do filme, mesmo tendo sido duramente criticado em sua estreia. Propormos, assim, uma aproximação ao filme a partir do debate sobre nostalgia na contemporaneidade, e como o legado da obra de Coppola está presente em vários produtos e mercadorias nostálgicas (Ribeiro, 2018) audiovisuais recentes.

Bibliografia

    BARBOSA, André Antônio. Nostalgia e melancolia nos cinemas de Philippe Garrel e Sofia Copolla. 2013. 136 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013.
    BOYM, Svetlana. The Future of Nostalgia. New York: Basic Books, 2001.
    COOK, P. Screening the Past: Memory and Nostalgia in Cinema. London and New York: Routledge, 2005.
    PICKERING, Michael;KEIGHTLEY, Emily. As modalidades da nostalgia. Dispositiva, v. 9, n. 15, p. 7-33, 2020.
    PRYSTHON, Angela. Utopias da frivolidade. Recife: Cesárea, 2014.
    RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Mercado da nostalgia e narrativas audiovisuais. In: E-Compós. Vol. 21. No. 3. 2018.
    STRAIOTO, Arislane de Oliveira. O All Star Azul de Maria Antonieta: Consumo, Juventude e Identificação. Monografia. Campinas: Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Estudos da Linguagem, 2010.