Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Patú Maruê Schneidewind (UFF)

Minicurrículo

    Mestre em Violência, Conflito e Desenvolvimento (SOAS-Londres) e mestrando no PPGCine-UFF, focado em cinema participativo com refugiades LGBTQIAPN+. Cineasta e ativista trans não-binário com mais de 15 anos de experiência em audiovisual insurgente. Nascido como requerente de asilo na Alemanha Oriental, coordenou o projeto Lesvos LGBTIQ+ Refugee Solidarity e a produção I – Lutando pela Liberdade de Amar Sem Medo. Investiga o cinema como tecnologia de agência política e autorrepresentação.

Ficha do Trabalho

Título

    O Corpo Migrante* como Contracartografia Cinematográfica

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Sob heranças coloniais e a violência neoliberal dos regimes de fronteira, a migração é militarizada e a imagem opera como arquitetura de piedade, sensacionalismo ou ameaça, destituindo refugiadas e migrantes de agência. Via produções audiovisuais corporificadas e LGBTQIAPN+ em Lesbos, o cinema é articulado como tecnologia de insurgência micropolítica. Ao subverter a governança visual e a legibilidade forçada, o cinema autorrepresentativo emerge como local de agenciamento contra a necropolítica.

Resumo expandido

    Em um cenário global moldado por histórias coloniais e pela violência neoliberal, a governança da mobilidade humana tornou-se cada vez mais militarizada e midiatizada. Este paradigma transforma corpos deslocados em objetos de vigilância, destituindo-os efetivamente de sua agência narrativa e política. Esta pesquisa investiga o cinema contemporâneo — especificamente a produção coletiva e insurgente — como uma prática de autorrepresentação entre populações deslocadas à força. Ao examinar as interseções entre cinema, corpo e espaço, este estudo posiciona o trabalho audiovisual como uma intervenção afetiva nos regimes dominantes de visibilidade e de legibilidade forçada.

    Regimes migratórios são sustentados não apenas por fronteiras físicas, mas por uma sofisticada “governança visual” que opera como uma tecnologia de regulação, fixando corpos em molduras legíveis — seja como objetos passivos de piedade humanitária, sensacionalismo ou como ameaças à segurança nacional. A hipervisibilidade sem autoria serve, portanto, como um mecanismo central de contenção. Para migrantes LGBTQIAPN+, isso é agravado por uma “dupla fronteira”: a interseção de barreiras territoriais com as fronteiras simbólicas de identidade impostas pelo Estado (ESGUERRA, 2014).

    O cinema ocupa um papel ambivalente nesta contradição. Historicamente, os meios audiovisuais participaram da reprodução de olhares coloniais, humanitários e disciplinares, consolidando relações assimétricas entre quem filma e quem é filmado (SAID, 2007; FOUCAULT, 1979). Entretanto, o cinema também emerge como espaço de ruptura. Contra regimes que exigem legibilidade forçada, o fazer fílmico torna-se um local onde o corpo é sujeito ativo de sua própria narrativa e o que não pode ser dito pode, ainda assim, ser sentido e partilhado. Este deslocamento move o foco do que a imagem representa para o que ela faz, intervindo nas paisagens sensoriais e cognitivas de criadores e espectadores.

    Diante disso, a investigação questiona: como as práticas cinematográficas autorrepresentativas e participativas podem intervir nos regimes dominantes de visibilidade que governam as vidas de pessoas refugiadas e solicitantes de asilo LGBTQIAPN+? Para responder a isso, o cinema é aqui explorado como uma “tecnologia política” de insurgência micropolítica que atua diretamente sobre e a partir do corpo (SHAVIRO, 1993). Por meio de práticas participativas e experimentais, o cinema torna-se uma prática relacional na qual sujeitos marginalizados reivindicam autoria sobre seus próprios imaginários (MIGLIORIN et al., 2020). Consequentemente, o estudo propõe “contracartografias cinematográficas” que resistem à lógica da contenção e expõem a natureza necropolítica dos regimes de fronteira (MBEMBE, 2018), reposicionando o corpo migrante como local de memória e agência política.

    Fundamentam estes argumentos processos audiovisuais realizados na ilha de Lesbos na fronteira entre Grécia e Turquia, um nó central do regime de fronteiras da União Europeia Desde 2015, Lesvos funciona como um hotspot de contenção, onde solicitantes de asilo são submetides a esperas prolongadas, incerteza jurídica e confinamento espacial. A análise de Purple Sea (2020) e I – Lutando pela Liberdade de Amar Sem Medo (2023) demonstra como a imagem serve como estratégia para recuperar a agência narrativa. Ambas as obras desafiam regimes hegemônicos de visibilidade, uma vez que as intervenções cinematográficas facilitam novas geografias além dos horizontes do Estado-nação e contribuem para reconfigurar a esfera política pública. Ao focar no corpo como um lugar de autorrepresentação e do agenciamento, este estudo destaca o potencial do cinema para forjar espaços de dignidade contra a necropolítica contemporânea.

    *Esse trabalho usa “migrantes” para abranger refugiades e solicitantes de asilo, priorizando a experiência do deslocamento. Distinções jurídicas só aparecem para evidenciar assimetrias de vulnerabilidade.

Bibliografia

    ANZALDÚA, G. Borderlands/La Frontera. Aunt Lute Books, 1987.
    ESGUERRA, C. Dislocación y borderland. Universitas Humanística, n. 78, p. 137–161, 2014.
    FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
    MBEMBE, A. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    MIGLIORIN, C. et al. Cinema de grupo: prática entre educação e cuidado. Revista GEMInIS, v. 11, n. 2, 2020.
    NAFICY, H. An Accented Cinema. Princeton University Press, 2001.
    SAID, E. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
    SHAVIRO, S. The Cinematic Body. Univ. of Minnesota Press, 1993.
    USKAN, N. Modes of Self-Representation in Images Collectively Produced by Migrants. Visual Anthropology, v. 35, n. 1, 2022.

    FILMOGRAFIA:
    Purple Sea. Dir. Amel Alzakout e Khaled Abdulwahed. Alemanha, 2020.
    I – Lutando pela Liberdade de Amar Sem Medo. Prod.Coletiva da Lesvos LGBTIQ+ Refugee Solidarity Collective (Lesbos), 2023.