Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Claudia Midori Ideguchi (Unifesp)

Minicurrículo

    Cacau Ideguchi é doutoranda em História da Arte na Unifesp. Sua trajetória acadêmica articula cinema, história, literatura e artes plásticas japonesas, com ênfase em abordagens interculturais. Desde 2021, dedica-se à docência em cursos livres e desenvolve, também, atividades nas áreas de mediação, curadoria, redação e consultoria. Em 2025, foi contemplada com bolsa da Fundação Ishibashi para pesquisa sobre o cineasta Hirokazu Kore-eda no Japão.

Ficha do Trabalho

Título

    Mundos sem fim: hibridismo e família no cinema de Hirokazu Kore-eda

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    Em diálogo com o tema do congresso, esta comunicação investiga o pensamento criativo de Hirokazu Kore-eda a partir do conceito de hibridismo cultural de Peter Burke. Focando em fontes do processo criativo do cineasta e na análise dos filmes Assunto de Família (2018) e Depois da Tempestade (2016), argumenta-se que Kore-eda constrói “mundos sem fim” ao forjar novas formas de família e afeto, demonstrando a potência política de sua estética.

Resumo expandido

    Em sintonia com o tema do XXIX Encontro da SOCINE, Fins do mundo, mundos sem fim, esta comunicação propõe examinar o pensamento criativo do cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, compreendendo seu cinema como um espaço de construção de “mundos sem fim” a partir de escombros simbólicos do Japão contemporâneo. Alinhado à proposta deste Seminário Temático, que orienta as investigações a partir dos realizadores e de suas fontes de processo criativo, o estudo se debruça sobre os métodos e as reflexões de Kore-eda para demonstrar como seu cinema opera uma forma particular de hibridismo cultural, conceito tomado de Peter Burke. Diante de sucessivos “fins de mundo” íntimos e coletivos – a dissolução da família tradicional, a estagnação econômica pós-bolha, o luto e a precarização dos afetos -, Kore-eda forja, na fatura mesma de seus filmes, comunidades afetivas provisórias que redefinem o que entendemos por laço, memória e pertencimento.
    A base teórica principal é a obra Hibridismo Cultural (2003), de Peter Burke, cujas categorias de tradução cultural (p.57), apropriação (p.41) e encontro (p.65) iluminam o método criativo do diretor. Argumenta-se que Kore-eda traduz um humanismo de ecos universais por meio de uma gramática cinematográfica profundamente enraizada na sensibilidade japonesa do mono no aware (a beleza melancólica das coisas transitórias) (IDEGUCHI, 2023). O cineasta hibridiza, ainda, a herança do documentário televisivo (sua escola de origem) com uma encenação composta, que evoca a tradição pictórica e a gravidade dos mestres do cinema novo taiwanês, como Hou Hsiao-Hsien. O conceito de hiperculturalidade (Byung-Chul, 2019) complementa o diagnóstico do presente ao qual Kore-eda responde: um Japão onde as culturas se sobrepõem como um rizoma, e os indivíduos precisam montar suas identidades e famílias a partir de fragmentos:
    Onde o horizonte comum se desintegra nas mais diferentes identidades e concepções, ela provoca um ser-participante, um tomar-parte ou ser-envolvido, um continuum de descontinuidades. No interior do universo de mosaicos hipercultural, opera de modo reconciliador, fazendo a justaposição do diferente habitável. Nem a ironia nem a cortesia criam proximidade. (BYUNG-CHUL, 2019, p.125)
    Para cumprir o objetivo central do ST, esta pesquisa se fundamenta em fontes primárias do processo criativo de Kore-eda. Serão analisadas entrevistas concedidas pelo cineasta (notadamente sobre Assunto de Família e Depois da Tempestade), seus escritos ensaísticos, além de registros de making-of que revelam seu método singular de trabalho com atores não-profissionais e crianças, baseado na escuta e na construção coletiva do cotidiano fílmico. A análise fílmica concentra-se em Assunto de Família, obra paradigmática onde uma “família” de estranhos, unida por pequenos crimes e grandes gestos de cuidado, fabrica um mundo à parte, um novo mundo erguido sobre a precariedade. A análise se estenderá a Depois da Tempestade, em que o recomeço após o fracasso pessoal e a ruína financeira é tratado como um renascimento possível, ancorado na aceitação da imperfeição e do tempo.
    A dimensão política desse gesto criativo, exigência central do ST, reside na escolha formal e ética de Kore-eda. Sua câmera, que observa pacientemente os corpos à margem do capitalismo japonês, recusa o sensacionalismo e constrói uma imagem da família como ato de resistência afetiva. Ao hibridizar, em seu processo criativo, o olhar documental e a composição pictórica, o particular e o universal, Kore-eda formula uma teoria cinematográfica da coexistência, mostrando que a cultura e os afetos se renovam justamente pelo encontro com a alteridade. Conclui-se que seu cinema, longe de apenas retratar colapsos, performa a construção de novos mundos, demonstrando que o fim é, muitas vezes, a condição para um recomeço.

Bibliografia

    ASSUNTO de Família. Direção: Hirokazu Kore-eda. Japão: Aoi Pro, 2018. 1 DVD. (121 MIN), NTSC, color. Título original: Manbiki kazoku.
    BURKE, Peter. Hibridismo Cultural. São Leopoldo: Unisinos, 2003.
    DEPOIS da Tempestade. Direção: Hirokazu Kore-eda. Japão: Aoi Pro, 2016. 1 DVD. (117 MIN), NTSC, color. Título original: Umi yori mo mada fukaku.
    HAN, Byung-Chul. Hiperculturalidade: cultura e globalização. Petrópolis: Vozes, 2019.
    IDEGUCHI, Claudia Midori. Flores de cerejeira e ondas do mar: diálogos entre o cinema de Hirokazu Kore-eda e a estética mono no aware. 2023. Dissertação (Mestrado em Língua, Literatura e Cultura Japonesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023. doi:10.11606/D.8.2023.tde-18052023-115011. Acesso em: 2026-02-06.