Ficha do Proponente
Proponente
- Ricardo César Campos Maia Júnior (UFPB)
Minicurrículo
- Possui graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Unicap (2005), além de Mestrado e Doutorado em Comunicação pela UFPE (2009 e 2016, respectivamente). Foi coordenador de Produção Fonográfica na Uniaeso de 2014 a 2023 e professor na Unicap de 2015 a 2023. Atualmente é professor adjunto da UFPB, lotado no DECOM do CCTA. As áreas de atuação são: comunicação, mídias sonoras, produção fonográfica, música, trilha sonora, cinema e audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- A metadiegese no curta paraibano Nua (2024): uma análise da trilha sonora e do cinema de horror
Resumo
- Abordagem da metadiegese enquanto dimensão narrativa do curta Nua (2024). Além da particularidade da obra em relação à diegese, o formato de curta-metragem, as sonoridades no audiovisual e uma produção do interior paraibano são essenciais para o estudo. São destacados as funções narrativas, a psicologia da percepção sonora, a física acústica, os sentidos estéticos do horror e o núcleo emocional do desenho de som com o intuito de evidenciar a aura onírica na obra.
Resumo expandido
- A diegese de um filme proporciona diferentes camadas de percepção – entre o real e o onírico, o mundo interior e o mundo exterior, o material e o espiritual, o visível e o invisível – percebidas pelo receptor e produzidas pelos realizadores audiovisuais enquanto recursos narrativos e emocionais. A diegese pode ser dividida em som diegético, metadiegético e extradiegético.
“Diegético: sons cuja fonte (aparente) está situada no espaço/tempo diegético” (GORBMAN, 1976, p. 450), ou seja, são percebidas pelos personagens no universo ficcional, como uma música sendo executada por alguém em cena ou os diálogos entre personagens ou mesmo os efeitos sonoros produzidos pela movimentação dos personagens e pela manipulação de objetos sonoros.
A extradiegese compreende os sons que não são percebidos pelos personagens no mundo concreto real da obra audiovisual. Um exemplo recorrente de sons extradiegéticos em filmes acontece quando escutamos músicas que são tocadas por orquestras e só os espectadores que escutam (frequentemente, assumindo na mixagem o primeiro plano de escuta da obra audiovisual). Outro exemplo muito comum é a fala em off de um narrador anônimo.
Já os sons metadiegéticos ficam entre as duas dimensões anteriores, isto é, aquelas sonoridades pertencentes ao onírico, ao sonho, à alucinação e ao fluxo do pensamento. Com o intuito de abordar essa outra dimensão narrativa, músicas podem ser percebidas pelos personagens nesse plano onírico ou falas em cenas de flashback ou a narração em over de um personagem da história ou mesmo efeitos sonoros nesses momentos de suspensão da realidade – que podem ser potencializados com efeitos de processamento de áudio, como reverbs, delays, dentre outros.
Contudo, é importante ressaltar que essas categorias não devem ser entendidas como limitadoras das obras audiovisuais, por mais que caibam em muitas abordagens. Há vários exemplos de realizações que usam esses recursos da diegese para confundir a percepção dessas dimensões ou mesmo de forma menos perceptível, geralmente por escolhas estéticas e também a percepção do público pode divergir sobre a diegese: “[…] as distinções podem ser muito úteis pedagogicamente para delinear o próprio problema dos níveis de narrativa nos filmes, e também levam a consideráveis esclarecimentos em relação à descrição de estilos cinematográficos” (GORBMAN, 1976, p. 450).
O estudo de caso proposto pela pesquisa, o curta-metragem produzido em Campina Grande na Paraíba, intitulado Nua (2024) de Fabi Melo, apresenta esse estrato metadiegético ao longo de toda sua duração enquanto artifício elementar na maneira de contar a história e de tocar esteticamente os sentidos da recepção. Dessa forma, o curta usa esse recurso como elemento narrativo central no desenrolar da ficção e também para fazer da trama uma expressão singular da condição das mulheres em um mundo dominado pelo patriarcado.
Um dos gêneros cinematográficos que mais procura manipular as emoções e os sentidos do espectador é o horror. É importante ressaltar que a obra paraibana trabalha com vários elementos do gênero com ênfase nos subgêneros do horror psicológico e político: “Não são poucos os pesquisadores que destacam como, na média, o horror emprega vozes, efeitos sonoros e músicas através de processos criativos mais ousados, inovadores e interessantes do que qualquer outro gênero ou ciclo de produção audiovisual” (CARREIRO, 2023, p. 15).
Esses artifícios citados estão presente na grande maioria dos filmes, porém como foi comentado, um audiovisual inteiro nesta dimensão narrativa é menos usual. Nua (2024) é um caso perfeito para promover esse tipo de reflexão proposta pela pesquisa. Além da análise fílmica e do estudo de caso, os seguintes métodos foram adotados: o levantamento bibliográfico sobre os conceitos que são chave para os apontamentos teóricos que sustentam a análise e, por fim, a construção de um mapa de som a fim de proporcionar dados pertinentes para o desenvolvimento da pesquisa.
Bibliografia
- CARREIRO, Rodrigo. O som no cinema de horror. Curitiba: Editora UFPR, 2023.
CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. São Paulo: Edições Texto & Grafia, 2011.
GORBMAN, Claudia. Teaching the soundtrack. Indianapolis: Quarterly Review of Film Studies, 1:4, 446-452. 1976.
KING, Stephen. Dança Macabra: o terror no cinema e na literatura dissecado pelo mestre do gênero. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2012.
LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Editora Cultrix, 2019.
NUA. Direção: Fabi Melo. Produção: Gabriel Souto. País: Brasil, 2024. 14 minutos e 58 segundos, sonoro, colorido. Disponível em: https://www.aruandaplay.com.br/film/nua/. Acesso em: 24 abr. 2026.
RODRÍGUEZ, Ángel. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.
SONNENSCHEIN, David. Sound design: the expressive power of music, voice, and sound effects in cinema. Saline: McNaughton & Gunn Inc., 2001.