Ficha do Proponente
Proponente
- Francisco Gabriel De Almeida Rêgo (UFRB)
Minicurrículo
- Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural (Pós-Crítica/UNEB). Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado em Artes Visuais no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Crítica Cultural pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e especialista em Ciência Política (IUPERj)
Ficha do Trabalho
Título
- Amazonas, o maior rio do mundo : a natureza, os indígenas e uma imaginação do Brasil
Resumo
- O artigo analisa o documentário Amazonas, o maior rio do mundo, de Silvino Santos, examinando sua inserção na construção da imaginação nacional brasileira. A partir da política das formas, discute a representação da natureza amazônica e das coletividades indígenas, evidenciando o papel do cinema silencioso na consolidação de um discurso nacionalista que articula monumentalidade da paisagem, exploração econômica e integração territorial.
Resumo expandido
- O artigo propõe uma análise do documentário Amazonas, o maior rio do mundo, dirigido por Silvino Santos, situando-o no contexto da formação da imaginação nacional brasileira e das políticas de representação da Amazônia no início do século XX. Inserido no período silencioso do cinema, o filme é compreendido como parte de um dispositivo mais amplo de produção de imagens voltadas à integração simbólica e territorial da região Norte ao projeto republicano, operando na articulação entre discurso visual, exploração econômica e construção identitária.
A análise parte do conceito de política das formas para examinar como estratégias visuais e narrativas estruturam uma imagem monumental da paisagem amazônica, conferindo centralidade à natureza enquanto signo de riqueza, abundância e potencial produtivo. Nesse enquadramento, a floresta é convertida em elemento estruturante de uma narrativa nacional que privilegia o progresso e a modernização, ao mesmo tempo em que subordina os sujeitos que nela habitam. As coletividades indígenas, especialmente os Witotos, são representadas de forma funcional e instrumental, integradas à lógica extrativista, o que evidencia um apagamento de suas dimensões históricas, culturais e políticas.
O texto estabelece uma genealogia dessas representações ao relacionar o documentário com tradições visuais anteriores, como os relatos de viajantes, as expedições científicas e a iconografia imperial, demonstrando a persistência de uma imaginação amazônica marcada por dualidades entre exotismo e riqueza, paraíso e inferno, civilização e natureza. Nesse sentido, a obra de Silvino Santos é interpretada como continuidade e atualização de um regime de visibilidade que projeta sobre a Amazônia expectativas coloniais e republicanas, articulando interesses econômicos e narrativas simbólicas.
O artigo também dialoga com reflexões de autores como Manuela Carneiro da Cunha, Neide Gondin e Ana Pizarro, evidenciando como a ideia de “unidade na diferença” opera na construção de uma identidade nacional que incorpora a Amazônia ao imaginário brasileiro, ao mesmo tempo em que neutraliza suas heterogeneidades. A noção de “cavação”, proposta por Jean-Claude Bernardet, e os “rituais do poder”, de Paulo Emílio Salles Gomes, são mobilizadas para compreender as condições materiais e institucionais de produção do filme, revelando sua vinculação a interesses políticos e econômicos da Primeira República.
Ao final, o estudo sustenta que o documentário não atua apenas como registro, mas como agente ativo na ordenação simbólica do território e na consolidação de um imaginário nacional. A imagem cinematográfica, nesse contexto, assume papel central na historiografia visual do Brasil, contribuindo para a permanência de representações que associam a Amazônia à exploração e à marginalização das coletividades indígenas. A análise propõe, assim, uma leitura crítica dessas formas, apontando para a necessidade de reconfigurar os modos de ver e narrar a região, abrindo espaço para perspectivas mais plurais no campo do cinema e da cultura visual contemporânea.
Bibliografia
- Referências Bibliográficas
BERNADET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GONDIN, Neide. A Invenção da Amazônia. São Paulo: Annablume, 1994.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas Literaturas: Modernidade e Identidade na América Latina. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
PIZARRO, Ana. Amazônia: O Imaginário do Mundo Selvagem. Santiago: Editorial Universitaria, 2012.
Filmografia
AMAZONAS, o Maior Rio do Mundo. Direção: Silvino Santos. Brasil, 1918.
FESTAS e Rituais Bororos. Direção: Thomaz Reis. Brasil, 1916.
NO País das Amazonas. Direção: Silvino Santos. Brasil, 1922.
ÍNDIOS Witotos do Rio Putumayo. Direção: Silvino Santos. Brasil, 1916 (filme perdido).