Ficha do Proponente
Proponente
- Roger Gomes Ghil (UFF)
Minicurrículo
- GG Fákọ̀làdé é professora, pesquisadora, cineasta e sacerdotisa do culto tradicional Yorubá. Doutoranda em Cinema e Audiovisual (UFF), investiga espiritualidades diaspóricas, estéticas anticoloniais e desobediências de gênero. Com estreia global no festival de Rotterdam, foi premiada nos festivais de Gramado, Brasília e Tiradentes. Sua obra articula afetos, rituais e imagens guiadas pelo invisível.
Ficha do Trabalho
Título
- Espiritualidade Cinematográfica: o cinema como útero de mundos sem fim
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Este trabalho investiga o cinema negro contemporâneo como espaço de fabulação espiritual e produção de mundos, em contraposição aos regimes de visibilidade que historicamente reduziram corpos negros à imagem de morte. Articulando Stuart Hall, Saidiya Hartman e Édouard Glissant, propõe-se pensar o cinema como útero e terreiro: um dispositivo de cura, opacidade e reinvenção da vida.
Resumo expandido
- Há imagens que matam. Não apenas porque mostram a morte, mas porque a repetem, a fixam e a tornam a principal forma de inteligibilidade dos corpos negros. Ao longo da história do cinema e do audiovisual, essas imagens se consolidaram como regime: um campo de visibilidade em que a vida negra aparece reiteradamente associada à violência, à perda e à ausência de futuro.
Partindo de Stuart Hall, compreende-se esse regime não como um espelho do real, mas como um sistema de representação que produz sentido e organiza o visível. A chamada “imagem de morte” não é, portanto, um acidente, mas uma construção histórica que participa da manutenção de uma gramática racializada da imagem.
Diante disso, este trabalho se pergunta: o que pode o cinema quando recusa essa gramática? Que outras formas de ver, sentir e existir emergem quando a imagem deixa de capturar e passa a cuidar?
É nesse deslocamento que se inscrevem diversas práticas do cinema negro brasileiro contemporâneo, que não apenas evitam a espetacularização da violência, mas operam uma torção mais profunda: retiram a centralidade da própria lógica representacional. Em vez de mostrar, essas obras fazem sentir; em vez de explicar, instauram atmosferas; em vez de expor, resguardam.
A partir da noção de fabulação crítica, de Saidiya Hartman, propõe-se compreender essas práticas como gestos de invenção que não ignoram a violência histórica, mas se recusam a reiterá-la como destino. A fabulação aparece, assim, como uma metodologia estética e política que permite reimaginar vidas e mundos para além dos limites impostos pelo arquivo e pela representação.
Nesse contexto, ganha força a hipótese central deste trabalho: a de que certos cinemas operam como espaços de espiritualidade. Não no sentido de uma tematização religiosa, mas como prática sensível de conexão entre tempos, corpos e mundos. Inspirado por perspectivas africanas e afrodiaspóricas, propõe-se pensar o cinema como útero e como terreiro — um lugar de gestação, de passagem e de encontro entre dimensões visíveis e invisíveis da existência.
Nessas obras, o som assume um papel fundamental, instaurando estados de escuta que aproximam o espectador de experiências de transe, repetição e circularidade. A imagem, por sua vez, deixa de se orientar pela transparência e pela evidência, aproximando-se do que Édouard Glissant denomina opacidade: o direito de não ser totalmente apreendido, traduzido ou exposto.
Ao tensionar os regimes de representação e deslocar o eixo da visibilidade para a experiência, esses cinemas não apenas resistem à lógica da morte, mas produzem o que se pode entender como mundos sem fim: espaços em que a vida não se esgota na captura da imagem, mas se expande em relações, memórias e ancestralidades.
Assim, ao dialogar com o campo dos estudos de cinemas negros, africanos e afrodiaspóricos, este trabalho propõe uma inflexão: pensar o cinema menos como dispositivo de representação e mais como prática espiritual, estética e política de afirmação da vida. Um cinema que, diante dos fins do mundo, insiste em gestar outros mundos possíveis.
Bibliografia
- HALL, Stuart. Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London: Sage, 1997.
HARTMAN, Saidiya. Vidas Rebeldes, Belos Experimentos. São Paulo: Fósforo, 2022.
GLISSANT, Édouard. Poética da Relação. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar. São Paulo: Cobogó, 2021.
FREITAS, Kênia; MESSIAS, José. “O futuro será negro ou não será”. Imagofagia, 2021.
ESTEVES, A.; OLIVEIRA, J. Cinemas africanos contemporâneos. São Paulo: Sesc, 2020.
CARVALHO, Noel (org.). Cinema negro brasileiro. Campinas: Papirus, 2022.
GATES, R.; GILLESPIE, M. “Reivindicando os Estudos de Filme e Mídia Pretos”. Film Quarterly, 2019.